Falar Baixinho

Ser Mãe

Percebo agora, depois de tantos anos no doce e às vezes também amargo papel de filha, como às vezes é tão difícil ser mãe.


Estive a reler a fita de final de curso que a minha mãe me escreveu. Fiquei emocionada ao ler as suas palavras – que me remeteram para uma sucessão de memórias – ainda mais agora que também eu sou mãe. Começava assim: «Parece que foi ontem... Trazia-te da escola pela mão... Tão pequenina». Também eu guardo com carinho estes caminhos para casa de mão dada à minha mãe, a contar as novidades do dia. Lembro-me das saudades que sentia enquanto estava na escola, do colo aconchegado enquanto chuchava no dedo agarrada às fitas que pendiam do seu vestido macio. Não sei se parece que foi ontem, porque também parece que já passaram muitas vidas desde então, mas são momentos muito próximos, bem presentes na minha memória.

Percebo agora, depois de tantos anos no doce e às vezes também amargo papel de filha, como às vezes é tão difícil ser mãe. Como é tão mais fácil estar do outro lado e ser guiada, em vez de ter de tomar constantemente decisões, educar e desempenhar uma série de papéis chatos que nos obrigam a ser mais sérios do que gostaríamos. Como às vezes deixamos de nos encontrar no meio desta responsabilidade atarefada. Percebo agora como nem sempre deve ter sido fácil ser minha mãe. Como às vezes replico frases que me deixavam maluca e que percebi mais tarde que as mães dos meus amigos também repetiam e que provavelmente já vinham das nossas avós e bisavós.

Mas tenho vindo a perceber sobretudo como a maternidade é ainda mais rica e mágica do que eu imaginava. Como a seguir ao milagre da gravidez e do parto se seguem uma série de aventuras e alegrias. Como é um contínuo de descobertas e aprendizagens em que somos constantemente surpreendidos e postos à prova. Em que podemos novamente estar perto da alegria inocente da infância, em que assistimos a como tudo começa, ao desenvolvimento dos nossos filhos, em que fazemos parte dele, em que partimos em sonhos e fantasias que partilhamos e os podemos amar, mimar e crescer com eles, ao mesmo tempo que os fortalecemos, preparamos e apoiamos para tudo o que serão.

É um papel mágico e único, este de ser mãe. E de uma responsabilidade imensa. É qualquer coisa inata que se vai desenvolvendo, apurando e definindo desde o primeiro dia em que somos filhas. Quando nos começamos a sentir amadas, contidas e protegidas ainda na barriga da nossa mãe.

Que saudades desses dias em que era eu pequenina e andava pela mão da minha mãe. Que essa alegria infantil, essa vontade de brincar e desejo de liberdade não se esgotem quando crescemos. E que possamos ensinar isso aos nossos filhos.

Sei que sempre que erguer a mão vou continuar a encontrar a da minha mãe, quando precisar de ser guiada ou de ter uma boa e longa conversa. Espero que um dia mais tarde, quando os dias de escola dos meus filhos já forem um lugar longínquo e eles forem adultos felizes, decididos e seguros e já não precisarem de chamar por mim 50 vezes por segundo, continuem a sentir que a minha mão também continua estendida, sempre que precisarem, como fizeram todas as nossas gerações passadas de mães.
Um feliz dia da mãe.