Política a Sério

A inevitável 'geringonça' de direita

Costa estivera até à última hora à espera dos resultados finais, na expectativa de que, embora perdendo as eleições para a coligação de direita, o seu partido fosse o maior do Parlamento, ou seja, tivesse mais deputados do que o PSD.


Para quem já não se recorde, é necessário lembrar que António Costa perdeu as eleições em 2015.

Dir-se-ia que, depois das políticas de austeridade impostas por Pedro Passos Coelho, era impossível este voltar a ganhar as eleições.

Em toda a Europa, os responsáveis por políticas impopulares tinham perdido nas urnas.

Mas Passos Coelho ganhou à frente de uma coligação PSD-CDS – e o PSD manteve-se mesmo como o maior partido.

À volta desta questão, há uma curiosidade pouco conhecida.

Nessa noite eleitoral, António Costa foi o último líder a falar – e, quando se esperava que aparecesse com o ar abatido de quem acabava de perder umas eleições decisivas, surgiu com ar sorridente.

O que se passara?

Costa estivera até à última hora à espera dos resultados finais, na expectativa de que, embora perdendo as eleições para a coligação de direita, o seu partido fosse o maior do Parlamento, ou seja, tivesse mais deputados do que o PSD.

E aí poderia dizer: o PS tem legitimidade para formar Governo, pois é a maior força política da Assembleia.

Foi isto que atrasou a declaração de António Costa na noite eleitoral.

Mas, quando viu que nem esse objetivo o PS conseguira, não desistiu: contactou os outros líderes da esquerda e obteve a garantia de que estavam dispostos a formar uma ‘geringonça’.

E assim se compreende a sua expressão feliz depois da derrota.

Isto é História.  António Costa foi o primeiro político português depois do 25 de Abril a tornar-se primeiro-ministro sem ter ganho as eleições.

E se isto era formalmente legítimo, inaugurou um tempo novo.

A partir daí, o importante não era ganhar eleições – era conseguir reunir um bloco maioritário no Parlamento.

Tendo isto em conta, é estranhíssimo que António Costa venha regularmente atacar Rui Rio por causa do Chega.

Se quando perdeu as eleições em 2015 Costa tivesse dito «Eu podia constituir uma maioria de esquerda mas recuso-me a fazer alianças com o PCP e o Bloco», teria hoje moral para criticar Rio; mas tendo feito exatamente o contrário, até parece que está a gozar connosco quando faz essas críticas.

Depois de António Costa ter agido como agiu, Rui Rio tem toda a legitimidade para fazer uma ‘geringonça’ de direita.

E vou mais longe: olhando para as sondagens, a direita não pode deixar de fazer uma ‘geringonça’.

Recusá-la, é entregar o poder ao PS por muitos anos.

Não a admitir, é fazer o que a esquerda quer.

Aqueles que na direita persistem em rejeitar uma aliança com o Chega, como fizeram alguns no ‘Encontro das direitas’, não perceberam ainda o filme em que estão metidos.

Até porque o Chega, sem abdicar de um certo radicalismo, que faz parte do seu ADN, vai tornar-se mais moderado.

André Ventura não é parvo e percebeu o seguinte: na extrema-direita já conquistou quem havia a conquistar.

Agora, para crescer mais, tem de caminhar no sentido do centro, seduzindo os que hoje estão indecisos entre o PSD e o próprio Chega.

Aliás, é isto o que qualquer líder de direita ou de esquerda deve fazer: posicionar-se mais no extremo, para marcar posição, e depois caminhar cautelosamente no sentido do centro.

Era isto, aliás, o que Rui Rio devia ter feito quando se tornou líder do PSD: aproximar-se do CDS e pressionar a esquerda com a hipótese de uma aliança à direita; mas fez exatamente o contrário: foi falar com António Costa, dando ideia de que apostava num bloco central.

E, com isto, perdeu logo o apoio da direita.

É este facto, aliás, que explica o fácil crescimento do Chega.

Rui Rio não soube posicionar-se de início; e agora é tarde.

Resumindo e concatenando: se quiser voltar ao poder, a direita vai ter de fazer uma ‘geringonça’ pré ou pós-eleitoral, e ela não pode excluir o diabolizado Chega.

Os dirigentes do PSD, do CDS, da Iniciativa Liberal, do Chega, podem atacar-se, esgatanhar-se, mas no momento próprio vão ter de se entender.

Não foi isso, afinal, o que aconteceu à esquerda?

O BE não tinha atacado fortemente o PS e vice-versa? O PCP não tinha atacado fortemente o PS e vice-versa? O BE não tinha atacado fortemente o PCP e vice-versa (com Jerónimo de Sousa a desmerecer as «carinhas larocas» do Bloco)? E no entanto todos se juntaram para afastar a direita do poder.

Com a direita vai acontecer o mesmo.