Tomar partido

O que é que o MEL tem?

O MEL está de parabéns pela iniciativa, pela resiliência e pela capacidade profissional de execução de um evento de dois dias de alto nível


O MEL (Movimento Europa e Liberdade) é audacioso. É a audácia que tem quem não é socialista, de se reunir, debater, concordar e discordar. A terceira convenção do MEL que decorreu a 25 e 26 de maio, geralmente mais conhecida como o ‘Congresso das Direitas’ porque reúne representantes do PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega. Este ano, a convenção ficou muito marcada pela questão de saber se o partido de André Ventura deve ser normalizado e fazer parte de coligações – naquilo que me parece ser uma questão lateral e até a menos relevante no momento que o centro-direita vive. 

Pode ser o picante noticioso para a comunicação social afeta à esquerda, mas não é de certeza a questão que importa às pessoas que trabalham e pagam impostos. 

A última vez que o PSD (partido liderante do centro-direita) ganhou as eleições e governou foi em 2011 para aplicar o plano da troika – que não é, de certeza, fórmula que queira repetir. A realidade mostrou que quando o PSD ganhou as eleições legislativas em 2015, o PS se coligou com o BE o PCP para governarem juntos.

O PSD não pode ficar à espera das sucessivas bancarrotas para ser um mero administrador da massa falida… pelo que a pergunta só pode ser uma: como ganhar eleições e governar em tempos de distribuição e normalidade democráticas?
O país tem uma dívida alta, está profundamente envelhecido, os salários são baixos, as transferências do estado são grandes, ainda assim a pobreza é persistente, o número de pensionistas e funcionários públicos é alto e as corporações têm peso significativo. A realidade é de todos conhecida.

Perante essa questão: como obter o poder e governar (sem ser para aplicar planos de regaste), o PSD tem, em traço grosseiro, duas vias: uma fácil e de resultado incerto. E uma difícil de resultado igualmente incerto. 

Fácil é propor-se fazer igual ao PS: distribuir cada vez a cada vez mais pessoas. Dar, aumentar, tratar melhor quem tem peso eleitoral por atacado: corporações, funcionários públicos, pensionistas. Não fazer reformas que coloquem em causa o seu apoio eleitoral. Esta via é fácil e intuitiva: se o PS o faz com sucesso, o PSD quer fazer também para ver se tem o mesmo sucesso eleitoral. 

A via difícil para o PSD é assumir que tem um projeto distinto: que vai cobrar menos impostos, incentivar quem cria riqueza e postos de trabalho, que vai dar menos e a menos pessoas, que vai diminuir o peso das corporações. Assumir que o país é pobre, está endividado, tem poucos recursos e, portanto, é eticamente forçoso que tenha uma atitude inflexível contra corruptos e pessoas que lesem o interesse público. 

Ilustrativo do que acabei de dizer foram Passos Coelho e Rui Rio, o ex e o atual presidentes do PSD, sentados lado a lado na primeira fila da convenção. Ambos merecem o nosso respeito e apreço: cada um experimentou as dificuldades de se ser presidente do PSD à sua maneira.

O MEL está de parabéns pela iniciativa, pela resiliência – temos em Portugal o péssimo hábito das primeiras pedras, primeiras edições que desistem à primeira dificuldade – e pela capacidade profissional de execução de um evento de dois dias de alto nível. 

(artigo com continuação na próxima semana)