Tautologias

As disfunções da democracia e o para-raios da união


«Quem ignora a História está condenado a repeti-la».

 Edmund Burke​

 

1.Regresso ao passado

Em 1926 não havia nos partidos ninguém capaz de governar. E mesmo havendo, a maioria dos eleitores que votava não o elegeria. E se o elegesse, os partidos não o deixariam governar.

Hoje o país volta a estar numa situação idêntica.

Pense-se nas finanças, na dívida, na dependência pedinte, na desgraça da economia, na corrupção, na Justiça, no nepotismo, no iletrismo, na escola. Eleições não são uma saída porque reproduziriam o mesmo, tal como as sondagens indicam. Para não falar no impedimento à mudança imposto pela composição do espectro partidário, natureza ideológica de alguns partidos, e pela falta de consciência civica, competência de gestão e vontade de líderes e políticos dominantes.

Temos uma pseudodemocracia, um sufrágio universal que é uma caricatura, que de universal e representativo só tem o nome. Somos um país que nunca teve democracia. Um país sem instrução nem cultura.

Acresce, relativamente a 1926, que a saída acontecida então, não sendo desejável (porque só adiou o futuro, como hoje adiaria), está vedada pela União Europeia (obrigado, Mário Soares). E é por isso que os partidos iliberais, com a ilusão de poderem impor a ditadura que lhes está na genética e no objetivo, se opuseram e encarniçam contra a União e a Europa.

 

2. A atração do caos (entre nós, a ‘bagunça’)

Gouveia e Melo reagiu à arbitrariedade da diretora no Porto que permitiu abusos na vacinação de jovens. Mas em vez de apoiar sem reservas a postura do almirante, o secretário de Estado correu a lançar água na fervura.

O homem assombra a choldra, revela o inverso dela, ameaça-a pelo contraste. Por isso, saiu-lhe ao caminho o comentador independente do PS Pedro Adão e Silva. Temo que se preparem para embarcar o almirante no submarino.

«Endireitar o país». Sim, é isso que é preciso fazer: parar a escalada do desastre endémico. Quando disse esta frase ao Nascer do Sol, o almirante não a disse no sentido ideológico, partidário. Disse-o no sentido óbvio para quem queira ver a realidade, que se deve, nalgum grau, à quase generalidade dos governos e dos partidos na situação e na oposição.

 

3. Um Governo que não sabe proteger os portugueses

Fui ver os números de Taiwan (com 23 milhões de habitantes). Nem os escrevo. Quis chorar de indignação. Como o conseguiram? Acaso? Milagre? Não, um Governo! Governos como os da Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Macau, China.

Fizeram imediatamente o vital: bloquear a imigração; fechar as fronteiras; impor o teste a quem fosse imperativo entrar; fazer máscaras e obrigar ao seu uso; rastrear e acompanhar os casos de doença; testar, testar, testar para impedir a transmissão rápida; uso da tecnologia; autoridade moral para travar os irresponsáveis (ali raros) que houve.

Aqui soube-se da epidemia ao mesmo tempo. Bastava olhar. «Não chegará cá» – desarmou os Portugueses quem os devia alertar, prevenir para o pior cenário. Fui ver hoje os números de Portugal. Seria cruel dizê-los.

 

4. Imperdoável reincidência

O Governo colocou-nos outra vez no vermelho. Que mata. Verificadamente incapaz de enfrentar a peste – pelo que não fez, continua a não saber fazer, ou fez e faz mal. demitido? Por não haver alternativa, e parece ser um facto.

E esta é apenas a mais visível e dramática das muitas incapacidades do Governo. Mas mesmo que um novo Governo fosse capaz de enfrentar a pandemia e soubesse como usar o dinheiro para que o país se desenvolva; mesmo que o espartilho ideológico não lhe tolhesse a ação e acontecesse o milagre da autonomia e da vontade; mesmo que o patriotismo enfim surgisse, os partidos não o deixariam governar, como o não permitiriam ao atual.

E remeto para a disfunção, para a armadilha com que iniciei este meu texto circular.