O mundo em calções

Certa vez um certo príncipe...

Cerca de quinze dias depois de ter subido ao trono, Carol seguiu com a Roménia para o Mundial do Uruguai


Durante a fase da adolescência, Carol Caraiman de Hohenzollern-Sigmaringen foi, como todos os meninos ricos, uma fonte de preocupação para o pai. Passava tardes inteiras a catalogar os selos da sua enorme coleção e o resto do dia e da noite na boémia com os amigos, à caça de mulheres, raramente regressando a casa sem trazer consigo uma daquelas bebedeiras que parecem morder como uma cadela nos calcanhares. Como filho do rei Ferdinand da Roménia, estes excessos eram-lhe admitidos, mas ninguém acreditava que viesse ser um sucessor de jeito. A entrada na idade adulta tornou-o ainda mais desvairado por tudo o que fosse um rabo de saias. De tal forma que, durante a I Grande Guerra, mandou a tropa às malvas e desertou para se casar em segredo com Zizi Lambrino, uma moça de boas famílias com a qual teve um filho, Mircea Gregor Carol Lambrino. Por muito boa que fosse a família Lambrino, Ferdinand foi aos arames e mandou encerrar o filho no Mosteiro de Bistrita durante exatamente setenta e cinco dias. Basicamente não teve de se preocupar muito. A despeito de ter tido tempo para ser mãe, Zizi foi despachada da Roménia e o casamento formalmente anulado de forma que, no ano seguinte, enquanto viajava, como príncipe que era, em redor do mundo, Carol apaixonou-se pela rapariga certa, a princesa Helena da Grécia e da Dinamarca, filha do rei Constantino I da Grécia. Em 1921 estavam casados e trataram também de conceber rapidamente o pequeno príncipe Michael, candidato a futuro eleito do trono não fora o caso de os romenos terem decidido que queriam antes uma República forçando a abdicação de Carol em 1940, precisamente dez anos após ter sido elevado a monarca. Pelo caminho tinha feito todos os possíveis para ser impedido de se tornar rei, algo que abona a favor da sua visão de futuro. Sobretudo dedicar-se com convicção a uma amante chamada Elena Lupescu, mais tarde conhecida por Magda, um nome que em romeno costumava ligar as mulheres a um passado de má vida. Conseguiu o que queria: o pai, furibundo, retirou-lhe os direitos de sucessão e convidou-o a ir viver para longe, algo que Carol fez com grande dose e contentamento, marchando para França de braço dado com a sua Elena ou Magda, como a queiram chamar.

O problema destas histórias de amor entre príncipes e plebeias é que os príncipes têm tendência a encontrar outras plebeias mais atraentes ou então vão dar a reis o que lhes ocupa muito do tempo que anteriormente dedicavam às mancebas. Metidos num sarilho com a morte de Ferdinand I, os governantes romenos resolveram aprovar uma lei que revogasse a decisão do falecido em relação à sucessão de Carol. E, assim sendo, este regressou à Roménia para se ver igualmente metido numa camisa de onze varas à frente de um país que sobrevivia como podia à maior crise económica da sua história.

Não tendo sido um príncipe muito dotado para a função, como rei Carol não prestava grande atenção às questões governativas. Para compensar, dedicava-se a fundo ao seu trabalho como presidente da Federação Romena de Futebol e encaixou no bestunto a ideia fixa de levar a Roménia ao primeiro Campeonato do Mundo, organizado pelo Uruguai de 13 a 30 do seguinte mês de julho, tarefa homérica para quem tomara posse do reino a 3 de junho.
A história repetia-se: Carol não fora um exemplo como príncipe mas tirara todas as vantagens de o ter sido. Agora, como rei, tratava-se de reinar. Tratou de assumir as funções de selecionador, tomando o lugar de Costel Radulescu, concedeu uma amnistia a três jogadores de nomeada que haviam sido presos por crimes menores e tratou de convencer os diretores de uma companhia inglesa de extração de petróleo a emprestarem-lhe quatro dos seus empregados que considerava fundamentais para construir a equipa. No dia 21 de junho de 1930, pouco mais de quinze dias depois de se ter tornado rei, Carol e a seleção da Roménia embarcaram no porto de Génova no navio Conte Verde que fez escala em Villefranche-sur-Mer para apanhar a seleção francesa e o presidente da FIFA, Jules Rimet, que levava a Taça do Mundo numa maleta, e em seguida realizou um desvio até Barcelona par que a seleção da Bélgica também pudesse cruzar o Atlântico. Colocada no Grupo 3, com Peru e Uruguai, a Roménia bateu os primeiros por 3-1, perdendo para os futuros campeões por 0-4 e sendo assim eliminada na primeira fase. Apesar de tudo, fora uma jornada triunfante e seguida pelo povo romeno com uma excitação nunca vista o que fez com que muitos esquecessem a fome e a miséria. Por pouco tempo, claro. Fome e miséria é algo que ninguém esquece de um dia para o outro. Carol regressou à Roménia e casou, finalmente, com Elena, dita Magda, Lupescu, depois de se divorciar de Helena. Foi deposto e tentou o exílio no México. Achou o país demasiado quente e a comida excessivamente picante. Veio para o Estoril e comprou uma moradia chamada Casa do Mar e Sol. Podia ter nome de cervejaria, mas morreu por lá sossegado em 4 de Abril de 1953. Para quem o quiser visitar, encontra-lhe os restos no Panteão da Casa de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora. Sempre está lado a lado com gente fina...

afonso.melo@newsplex.pt