No limiar...

Afeganistão (diferença entre a cultura afegã e islâmica)

O trabalho dos EUA e da NATO fracassou. Vinte anos, várias mortes e milhares de milhões depois, a coligação internacional não foi bem sucedida na tentativa de sedimentar a transição democrática – ou até mesmo as fundações do que se possa chamar um Estado – neste país da Ásia Central. 


Por que razão uma não questão passou a ser a questão do momento. 

O trabalho dos EUA e da NATO fracassou. Vinte anos, várias mortes e milhares de milhões depois, a coligação internacional não foi bem sucedida na tentativa de sedimentar a transição democrática – ou até mesmo as fundações do que se possa chamar um Estado – neste país da Ásia Central. O fracasso, todavia, não é só dos americanos. É mundial.  Historicamente conhecido como o país que não se deixa governar. A segurança, que foi sendo construída como um dos baluartes da missão conjunta da NATO, só durou enquanto as forças internacionais tiverem os pés no país. 

Ao longo dos anos, deu a sensação de que se estava a caminhar para um país com a aculturação EUA/NATO. 
De uma forma esporádica, estamos agora a assistir em direto ao colapso de um país, a uma fuga em massa. Longe da promessa de uma saída ordenada e pensada, na qual o governo e as instituições afegãs seriam capaz de garantir o seu próprio destino. Não foram. As famílias que estão a ser perseguidas e torturadas estiveram do lado dos EUA/NATO, estamos a assistir a uma perseguição sem tréguas dos talibã aos afegãos que alinharam com a coligação. 

Os EUA/NATO prometeram aos seus ‘ajudantes de campo’ (tradutores, estrategas), que a sua segurança seria garantida independentemente do desfecho da missão. Se a missão de pacificação do Afeganistão não fosse bem sucedida, eles teriam um lugar nos EUA ou em algum país desenvolvido, para continuarem as suas vidas com as suas famílias. Isto não aconteceu para todos – nem vai, certamente, ser essa a realidade.

Se, em sentido contrário, o Afeganistão prosperasse pelos seus próprios pés, estes afegãos formariam a próxima geração de líderes do país.

A derrota é geral, de todos aqueles que tentaram fazer dos talibã os piores atores da história.
Dispensemos apreciações cândidas: os talibãs são o são e são os que estão. Todos os outros fugiram, estão a fugir e, a situação do país é caótica. Como alguém disse um dia, para que o mal triunfe basta que os homens bons nada façam. Os culpados são sempre os mesmos. O elo mais ‘fraco’, ou o que é mais fácil de apontar, a religião islâmica, apesar de islão e cultura afegã nada terem em comum.

O Islão não prega o ódio nem a subserviência das mulheres – como normalmente ouvimos e lemos. Quem perceber o islão na sua essência, terá a noção que o islão não prega e não cimenta esse tipo de valores, porque não são esses os valores que pregaram os Profetas sob a ordem de Deus. 
Se a cultura afegã, se os talibã, justificam as suas ações na defesa de valores que dizem ser islâmicos, não temos que acreditar. Pela falta de conhecimento que existe sobre a religião islâmica, usamos como atalhos a informação que nos é vendida. Não procuramos a verdade toda. O simples facto de o líder dos talibã dizer que o direito das mulheres estará sempre protegido sobre a égide da Sharia (direito islâmico), não quer obviamente dizer que ele cumpra ou que não cumpra: é a palavra de um homem, não é a palavra Divina.

Não se pode é crucificar na praça pública, como até agora temos visto, a religião. 

Estamos perante uma dicotomia tremenda: se o islão prega a paz e, o regime talibã não prega a paz, não podemos considerar o regime talibã islâmico, mas sim incrédulo e descrente.

O caminho mais certo é usarmos quem tenha o mesmo credo, saiba falar com quem está dos dois lados, os valores. A forma de criar entendimentos é crucial. Não podemos trazer outros intervenientes que sejam alheios à forma de pensar do povo, regime e população.

Serão o Qatar, Paquistão, Turquia ou mesmo a UE através da sua multiculturalidade? Alguém terá de assumir a responsabilidade.

A questão crucial é a de saber se e até que ponto os países envolvidos estão cientes do problema que estão a criar.

Pode ocultar-se o problema por detrás de conceitos como ‘religião’, ‘verdade’ e ‘racionalidade’.

É fundamental encontrar um mediador, como a UE, Qatar (que diga-se está a ser o melhor mediador neste caso) para ‘pôr água na fervura’. Se não, caminhamos a passos largos para um problema sem retorno com reflexos na paz mundial.