O mundo em calções

A sereia e os lombos de porco

Toda a gente afirmava: nunhuma mulher conseguirá atravessar a Mancha. Gertrude Ederle tratou de provar o contrário


Gertrude Caroline Ederle passou a infância perdida entre carcaças de vaca e lombos de porco dependurados no talho do pai, Henry Ederle, um dos muitos alemães que emigraram para os Estados Unidos em busca de uma vida mais razoável. Instalado na Amsterdam Avenue, em Manhattan, Henry não podia queixar-se da frequência de clientes e, a meias com Gertrude Anna Haberstroh, que atravessara o Atlântico na sua companhia, criaram uma bonita prole de seis crianças tão rosadas e tão saudáveis como os vitelinhos que Herr Ederle abatia de um golpe só de facalhão certeiro no pescoço nas traseiras do seu estabelecimento.

A família Ederle ganhava dinheiro suficiente a vender quilos de bifes para o que o pai resolvesse comprar uma casa de praia na zona de Highlands, Nova Jérsia, onde ensinou todos os filhos a nadar. Mas com Gertrude foi diferente: a garota apaixonou-se perdidamente pelo mar! Nascera em Nova Iorque, no dia 23 de outubro de 1905, era a filha do meio da fileirinha de Ederles, e aos dez anos já competia em provas oficiais representando a Women’s Swimming Association, a organização que tornara famosas grandes campeãs americanas como Ethelda Bleibtrey, Charlotte Boyle, Helen Wainwright, Aileen Riggin, Eleanor Holm e, sobretudo, Esther Williams, a atriz que protagonizou tantos dos ‘acquamusicals’, com elaborados gestos de natação sincronizada, alguns deles a meias com o campeão olímpico

Johnny Weissmuller que o mundo aprendeu a conhecer como Tarzan.

Pouco tempo depois de se ter inscrito na Manhattan Indoor Pool, com uma quota de três dólares mensais, uma revolução autêntica conduziu à explosão da natação feminina nos Estados Unidos; os fatos de banho, inteiros, justos ao corpo, foram legalizados. Gertrude mergulhava nas águas tépidas da minúscula piscina que frequentava sentindo-se livre como uma sereia. E, como uma sereia, sentia bater cada vez com mais força no coração o chamado do mar.

Foi também por essa altura que os americanos pegaram no estilo chamado ‘australian crawl’ e o transformaram e definitivo naquilo que hoje chamamos de simplesmente crawl ou, em português, estilo livre. Rapidamente, Gertrude passou a ser uma especialista. E, ainda por cima, no mar que era a sua paixão. Aos 13 anos já tinha batido o recorde americano das 880 jardas nas águas de Brifgton Beach. Tomou-lhe o gosto. Participava em todas as provas que surgiam pela sua frente. Orgulhoso da filha, o açougueiro acompanhava-a para toda a parte, deixando as costeletas de novilho ao cuidado da mulher.

Em 1924, os Ederle, pai e filha, estavam em Paris. Gertrude, com apenas 19 anos, ia fazer parte da equipa americana que participa nos Jogos Olímpicos. Juntamente com as parceiras Euphrasia Donnelly, Ethel Lackie e Mariechen Wehselau, ganhou a medalha de ouro na estafeta de 4x400 metros livres, colocando o recorde do mundo em 4.58.8. Depois ganhou duas medalhas de bronze, individualmente, nas provas de 100 e 400 metros livres. No final, baixou a cabeça e confessou: «Este é o maior desapontamento da minha vida». O bronze não lhe chegava. E o cloro das águas das piscinas pelos vistos também não. Tornou-se profissional e virou-se para o mar. Não era apenas um chamado íntimo e profundo; era um desafio. Gertrude nascera para enfrentar o mar e ele estava à sua espera desde a mais antiga das suas infâncias. Poucas semanas mais tarde, nadou entre Batttery Park, Manhattan, e Sandy Hook, Nova Jérsia, cobrindo a distância de cerca de 35 quilómetros em 7 horas e 11 minutos, recorde que se manteve imbatível durante 81 anos. O seu sobrinho Bob inventou-lhe uma alcunha: ‘Midnight Frolic’ – ‘A Brincalhona da Meia-Noite’. Nessa altura, Gertrude virara-se definitivamente para outra parte do Atlântico: o Canal da Mancha.

A Women’s Swimming Association patrocinou, em 1925, a travessia do canal para duas nadadoras americanas, Helen Wanwright e, claro está, Gertrude Ederle. Helen, lesionada, nem chegou à Europa. Gertrude, já em Paris, entrou em contacto com a escocesa Jabez Wolffe, que já tinha realizado 22 tentativas frustradas para atravessar a Mancha. O conselho mais sábio que recebeu foi simples: «Não te apresses. Tem paciência. Não é uma corrida, é um desafio».

No dia 18 de agosto atirou-se à água. Poucos quilómetros depois, foi desqualificada quando Jabez, que a acompanhava no barco de apoio, mandou um nadador ajudá-la, pensando que Gertrude estava a afogar-se. Foi um casino: Ederle afirmou que estava a boiar num período de repouso, amaldiçoou a escocesa e teve de ouvir desta: «Nenhuma mulher atravessará a Mancha!». Um ano depois, saiu do Cap Griz-Nez às 7h08 do dia 6 de agosto e só parou em Kingsdon, no Condado de Kent, 14 horas e 34 minutos depois. Provara que as mulheres podiam atravessar a Mancha. A sereia vencera o mar.