Tautologias

O que não é e o que é o liberalismo (II)

A primeira vez que surgiu um Ministério da Cultura foi na Alemanha nazi de Goebbels


1. Com este Governo a deslizar para um Estado mais sufocante (ver os números reunidos por João Brás no número anterior de o Nascer do Sol), os exemplos do que é e não é o liberalismo são inesgotáveis. 

Liberalismo não é a ausência de solidariedade. Preconiza uma assistência na saúde para todos, diversificada, racional, eficiente e sustentável. O liberalismo não protege e não se serve dos grandes empresários. Não é capitalismo selvagem nem ultraliberalismo. Para o liberalismo, o capital não é inimigo da humanidade. O liberalismo não obedece aos banqueiros, antes regula a banca. Não é o desemprego e a exploração, mas exatamente o contrário. Quer a concorrência livre e perfeita. Não é o fim do salário mínimo. Para o liberalismo, o importante não é o Estado ensinar, mas ‘deixar ensinar’. «Todos os monopólios são detestáveis, mas o pior é o do ensino». 

E tenho de parar por aqui, porque é exíguo o espaço. 

2. Apenas cito mais uma aberração: a da cultura, em que a instrumentalização estatal roça o totalitário. Repare-se nas expressões ‘Ministério da Cultura’, ‘política cultural’, ministro da Cultura’. Então é o Estado que faz a cultura, expressão máxima da liberdade? Ou são os criadores? E os cidadãos são bestas (e a escola imposta bem se tem esforçado para isso, de facto) incapazes de avaliar e pagar aos criadores as obras e a criatividade? 

As artes, o cinema, o teatro, o livro, a música vivem, assim, da clarividência dos burocratas, de que a atual ministra da Cultura parece caricatura. Ela que recentemente se preparava para acabar com o que resta de diversidade no setor periclitante da edição, não fora alguém inteligente pará-la.

O mesmo, afinal, que fazem tanto quanto podem na comunicação social. A transformação da cultura em marketing ideológico para sustentar o poder político. 

3. A ideia de que o Estado deve ocupar-se da cultura é tão obscena como a de um ‘Ministério do Amor’… ou da ‘Verdade’ – que parece, aliás, quererem impor-nos.

Numa conversa privada, Eduardo Lourenço lembrou-me o país e o contexto em que surgiu pela primeira vez um ministério da Cultura: a Alemanha nazi e Goebbels. Depois foi na França de De Gaulle, com o general a inventar uma pasta onde o amigo André Malraux estivesse sossegado. Antes disso, claro, não houve cultura em França! E a época luminosa de Degas, Éluard, Breton, Cézanne e dos criadores que, urbi et orbi, atraiu? Havia Ministério da Cultura? Algum dos meus leitores imagina um desses criadores subjugado pelo Estado? Que teriam criado eles? Depois o mamute surgiu e engordou em vários lugares, perverso. E também aqui, na época da ditadura. Todavia, nunca foi tão sufocante nessa área como hoje. E o responsável era… António Ferro. E a arte, o cinema, as literaturas admiráveis nos EUA, tinham ou têm Ministério da Cultura? Em que países há ministérios da Cultura?

4. Concordávamos, Eduardo Lourenço e eu, no máximo, com uma Direção-Geral ou uma secretaria de Estado do Património Cultural, para recuperar tantas edificações admiráveis em ruínas pelo país, testemunhos da nossa história tão rica. 

Mas as pedras não se submetem, não servem o poder, não têm uma voz que se ouça. As pedras não dão votos.