Internacional

Alemanha. Novo Governo deverá sair de uma aliança tripartida

Depois de 16 anos no poder, o partido de Angela Merkel teve o pior resultado da sua história. O problema não são só as gafes do sucessor da chanceler, Armin Laschet, “os alemães querem algum tipo de mudança”, nota Bruno Cardoso Reis. E o candidato do SPD, Olaf Scholz, atual ministro das Finanças, personificou “mudança, mas não demasiado radical”.


A noite eleitoral foi uma catástrofe sem precedentes para o partido de Angela Merkel, a União Democrata-Cristã (CDU, em alemão). Nas mãos de Armin Laschet, sucessor escolhido pela chanceler, o partido que dominou toda a política moderna da Alemanha soube que obteve o seu pior resultado de sempre, com uns meros 24,1% dos votos, segundo as projeções da ARD e da ZDF. E conseguiu ser batido por Olaf Scholz, ministro das Finanças e candidato do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), que obteve 25,8%, segundo ambos os canais. Se para o atual ministro das Finanças, num Governo de coligação com a CDU, é claro que os alemães querem que “o próximo chanceler seja chamado Olaf Scholz”, Laschet, mesmo perante o desastre, não desiste de querer governar. Só o tempo dirá quem fica na mó de cima, numa Alemanha cujo espetro político está cada vez mais fraturado, onde os verdes se afirmaram como a terceira força política, com 14,6% dos votos, tornando-se cruciais para obter uma maioria, bem como o Partido Democrático Liberal (FDP), que conseguiu 11,5%. Agora, tudo será decidido – talvez mais do que nas urnas – nas negociações que agora começarão, nos bastidores, e que se poderão arrastar durante dias, semanas ou mesmo meses.

“Nós faremos tudo para formar um Governo liderado pelos conservadores”, insistiu Laschet, no palco de Konrad Adenauer Haus, quartel-general da CDU em Berlim. Rodeado dos barões do partido, incluíndo Merkel, o tom era animado, incongruente com o silêncio devastador que se fez na sala quando saíram as sondagens à boca de urna, mostrando a CDU abaixo do seu pior resultado anterior, de 31% nas primeiras eleições após a Segunda Guerra Mundial, em 1949. Lá fora, um dos militantes do seu partido, Salahdin Koban, questionava-se quanto à capacidade de Laschet, saudoso de Merkel, explicando à Associated Press que “seguir as pisadas dela é difícil”.

Mas Laschet, se estava intimidado, tentou não o mostrar. “Isto não é uma questão de conseguir uma maioria aritmética, mas de juntar diferentes posições políticas para fazer uma coligação. Estou pronto para isso”, continuou a discursar o líder derrotado, citado pelo Guardian.

Na prática, o cenário apontado como mais provável é uma coligação que junte liberais e verdes, somados à CDU, na chamada “coligação Jamaica”, ou ao SPD, na chamada “coligação semáforo”. Laschet certamente conta com o facto dos liberais terem preferência a coligar-se com o seu partido, enquanto um Governo liderado por Scholz seria a opção mais agradável para os verdes. Já um regresso das chamadas Grandes Coligações, ou seja, que juntem o CDU e SPD, parecem ser a última opção de todos. Mas na política alemã nunca se sabe.

“Nas últimas eleições, toda a gente dizia que não seria desejável uma nova grande coligação”, recorda Bruno Cardoso Reis, subdiretor do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (CEI-IUL). “No entanto, como foi impossível fazer uma coligação à direita, os liberais tinham diferenças programáticas com a CDU de que não quiseram abdicar, acabou por ser necessário uma grande coligação. Mas acho que agora isso ainda é mais improvável”.

“Há várias sondagens que mostram sinais que os alemães querem algum tipo de mudança”, salienta o analista. Notando que, em boa parte, é isso que explica o sucesso eleitoral do SPD. “Acho que conseguiu canalizar a ideia de que seria uma mudança, mas não demasiado radical, com estabilidade, uma renovação com continuidade”, explica. “Scholz conseguiu combinar isso com experiência governativa ao mais alto nível, afinal, ele era a segunda figura do Governo de coligação. E beneficiou das gafes e problemas de imagem dos seus opositores”.

De facto, foi uma campanha de gafes do início ao fim. Em maio, o ímpeto dos verdes – que obtiveram 8,9% dos votos nas eleições legislativas de 2017, mas estavam com 25% nas intenções de voto, segundo o Politico, chegando a estar à frente da CDU e mais 10% que o SPD – quebrou quando a sua candidata, Annalena Baerbock, foi acusada de plágio no seu livro mais recente, Agora. Como renovamos o nosso país, de não declarar todos os seus rendimentos e de exagerar o seu currículo. Os verdes cederam e acabaram com pouco mais de 14% dos votos. “Queríamos mais”, assumiu Baerbock, citada pela Reuters, após saírem as sondagens à boca de urna “Não conseguimos isso, em parte por erros no início da campanha. Erros que eu cometi”.

Já Laschet conseguiu elevar a fasquia dos erros. Em julho, quando o estado cujo executivo lidera, a Renânia do Norte-Vestfália, o mais populoso da Alemanha, foi devastado por umas cheias onde morreram quase 180 pessoas, o líder da CDU decidiu minimizar a urgência das alterações climáticas, gerando contestação. O caso ficou pior quando Laschet foi filmado a rir-se às gargalhadas, em segundo plano, quando o Presidente Frank-Walter Steinmeier discursava em homenagem às vítimas da tragédia. Para terminar, nas próprias eleições, Laschet, dobrou mal o seu boletim de voto, que ficou visível a entrar na urna, deixando a imprensa alemã a questionar se o voto do candidato acabaria anulado.

Horas depois, o partido de Laschet, que teve sempre taxas de popularidade baixíssimas, acabaria ser derrotado até no seu próprio círculo eleitoral. 56% dos eleitores da CDU sentiram que o partido foi prejudicada por Laschet, segundo uma sondagem do Forschungsgruppe Wahlen, tendo apenas 11% considerado que o líder ajudou.

Lá Fora O mundo tem assistido atentamente às eleições alemãs, ansioso por saber quem guiará a maior economia europeia. O certo é que, sendo necessária uma coligação com três partidos, veremos interesses bem diferentes dentro de um eventual Governo. Até os verdes e os liberais, que tudo indica que acabarão por ter de governar juntos, têm interesses diametralmente opostos.

Por um lado, “o grande número de votos que foi para os verdes claramente mostra que os alemães estão preocupados com as alterações climáticas”, escreveu Manuela Kasper-Claridge, diretora da DW. Por outro lado, a Alemanha poderá estar menos preparada para mudar do que seria de pensar, “sobretudo – como os resultados mostram – quando essa mudança custa dinheiro”, continuou a jornalista, que vê no crescimento dos liberais “os grandes desreguladores e que podem torpedear alguns dos desejos dos verdes”, dada a oposição do FDP à subida de impostos.

No meio de todas estas prováveis disputas dentro do seu Governo, “a Alemanha vai estar muito mais virada para dentro, durante um período mais longo”, avisa Bruno Cardoso Reis. Após anos com Angela Merkel a marcar o ritmo da União Europeia, “não será possível contar com a Alemanha para grandes decisões ou mudanças”, considera.