Política a Sério

O anúncio da mudança?

Subestimei o candidato Moedas (como Medina o subestimou, o que lhe terá sido fatal). Mas aí, confesso que continuo a ter as maiores dúvidas sobre a sua capacidade política. Depois de saber os resultados, parecia uma criança a quem tivessem dado um brinquedo novo: «O importante é que sou eu agora o presidente da Câmara de Lisboa», repetia extasiado. E o discurso de vitória chegou a ser penoso.


Em primeiro lugar, tenho de pedir desculpa aos meus leitores. Enganei-os por completo nas previsões que fiz há 15 dias sobre as autárquicas.

Disse que o PSD não conseguiria eleger um presidente de câmara em qualquer das três principais cidades – Lisboa, Porto e Coimbra – e elegeu dois.

Disse que o PSD sofreria uma significativa derrota – e até obteve uma meia vitória, recuperando 16 câmaras e conquistando, além de Lisboa e Coimbra, as duas capitais insulares, Funchal e Ponta Delgada.

Em consequência dessa previsão, disse que Rui Rio disputaria as próximas eleições do PSD numa posição fraca – e vai disputá-las na posição forte de quem não só aguentou eleitoralmente o partido como o recuperou.

Também falhei por completo em relação a Lisboa.

É certo que todas as sondagens falharam rotundamente.

Mas esse não é argumento, por duas razões: porque um comentador tem a obrigação de saber ler a realidade para lá das sondagens e porque é tecnicamente difícil fazer sondagens em universos restritos e em eleições onde há muitos concorrentes. Nas eleições presidenciais, por exemplo, onde o universo é o país inteiro e há meia dúzia de candidatos, é muito mais fácil realizar sondagens certeiras.

Também subestimei o candidato Moedas (como Medina o subestimou, o que lhe terá sido fatal).

Mas aí, confesso que continuo a ter as maiores dúvidas sobre a sua capacidade política.

Depois de saber os resultados, parecia uma criança a quem tivessem dado um brinquedo novo: «O importante é que sou eu agora o presidente da Câmara de Lisboa», repetia extasiado.

E o discurso de vitória chegou a ser penoso.

Mas talvez seja essa postura quase ingénua que atraiu os eleitores, cada vez mais fartos de políticos nascidos nos viveiros partidários (como ele, aliás, notou nessa intervenção).

Outro erro de avaliação que cometi foi não prever a entrada explosiva do Chega no terreno autárquico.

Quando surgiu, o Chega era um partido em que poucos acreditavam.

Quando elegeu um deputado, quase todos se admiraram.

Quando Ventura ganhou quase todos os debates nas presidenciais e depois teve meio milhão de votos, alguns começaram a levá-lo a sério.

Mas era difícil acreditar que um partido pendurado num homem, sem raízes, sem história, sem estruturas, com um ambiente hostil em muitos meios, conseguisse resistir ao teste autárquico.

Pois não só resistiu como surpreendeu tudo e todos: conseguiu 19 vereadores, 171 deputados municipais e 205 mandatos de freguesia, fazendo o melhor resultado de um partido a concorrer pela primeira vez.

E isto mostra que, ao contrário de outros pequenos partidos constituídos por meia dúzia de intelectuais que arregimentam os amigos, o Chega veio dar voz a sentimentos que existiam no país antes de o partido aparecer.

E por isso muita gente votou agora nele, independentemente dos candidatos, da organização e das estruturas locais.

Outra referência especial é devida a Pedro Santana Lopes.

Que confirmou, se ainda preciso fosse, ser um político com sete vidas.

Sem partido a apoiá-lo, com muita gente (a começar pelo PSD) a fazer-lhe a vida negra, não podendo usar o seu nome e tendo de aparecer quase como uma candidatura clandestina – anonimamente designada por ‘Outros’ –, superou todas as dificuldades e venceu categoricamente.

E venceu, curiosamente, no mesmo dia em que, em Lisboa, se dava um fenómeno idêntico ao que ele protagonizou há vinte anos, quando derrotou João Soares a quem todas as sondagens davam o favoritismo (e foi por isso que, no Expresso, troquei de empresa de sondagens, substituindo a Euroexpansão de Luís Valente Rosa pela Eurosondagem de Rui Oliveira e Costa).

A diferença entre as duas situações é que, enquanto Santana é um típico animal político, Moedas é exatamente o oposto.

A par de Santana, é justo sublinhar as vitórias de todos os que derrotaram presidentes que se recandidatavam, o que era quase uma ‘missão impossível’. À cabeça distingo José Manuel Silva, que bateu em Coimbra com clareza o dinossauro Manuel Machado.

Seguindo para a frente, os erros de avaliação que cometi nestas autárquicas invertem por completo a leitura a fazer do que realmente aconteceu.

Em vez de uma derrota nítida do PSD e de um reforço do PS, que poria em xeque Rui Rio, a meia vitória do PSD, que recuperou 16 câmaras, e a meia derrota do PS, que perdeu 12, permitem pensar que talvez se tenha iniciado aqui uma inversão da tendência política, com a esquerda a começar a cair e a direita a recuperar.

Até porque os partidos mais pequenos confirmam essa tendência.

Em geral, os partidos de direita cresceram e os de esquerda definharam.

O PCP, que já tinha tido uma tremenda derrota nas últimas autárquicas, não só não recuperou nenhuma câmara perdida como viu fugirem-lhe mais cinco. Não reconquistou Almada, uma velha fortaleza, e perdeu Loures, que parecia segura.

O BE foi ultrapassado à vontade pelo Chega, mostrando que pouco passa da tal esquerda caviar, forte e ruidosa nos centros urbanos, mas pouco enraizada no país. Em contrapartida, a IL teve uma estreia honrosa.

Quanto ao CDS, não ganhou mas também não perdeu – aguentou. Está um pouco nos antípodas do Chega: enquanto este parece crescer naturalmente, sem grande esforço, o CDS não cresce apesar do grande esforço de Francisco Rodrigues dos Santos. Que é um líder aplicado, tem boa presença, fala com facilidade – mas parece estar sempre a nadar contra a corrente, o que é extenuante.

O prazo de validade dos governos é em geral de seis anos, e António Costa aproxima-se rapidamente dessa meta.

Nestas eleições aproveitou para fazer uma mobilização nacional do partido, indo a todo o lado (muitas vezes em excesso de velocidade), mas as coisas não lhe correram bem.

Talvez a pensar que os portugueses gostam de líderes fortes, assumiu uma certa autossuficiência e arrogância em relação aos adversários, usando ainda a ‘bazuca’ como se fosse propriedade sua – e o resultado não foi bom.

E aquela triste cena protagonizada em Matosinhos de ‘posso, quero e mando’ gritado a plenos pulmões, mostrando que não tinha medo de nada nem de ninguém, pode ter-lhe custado bastantes votos.

Aliás, ele próprio acabaria por reconhecê-lo implicitamente no modo comedido, compreensivo e quase humilde como se apresentou no ‘discurso de vitória’ (com sabor a derrota).

Costa sentiu a pancada.
  E, em sentiu inverso, a direita sentiu que é possível derrotá-lo.

Assim, se é verdade que muitos resultados têm uma explicação local, não tendo nada que ver com os partidos, estas eleições acabam por ter um impacto nacional.

Muita gente na direita que já tinha baixado os braços recuperou o ânimo.

Por isso disse que pode ter-se iniciado aqui um novo ciclo político.