No Meio de Nós

Haja alguém que fale de Deus!

Não é apenas a ética que se emancipou de Deus, mas todas as esferas se foram distanciando da religião, colocando no centro de todas as preocupações o homem e o livre pensamento.


Ao longo dos últimos séculos, o pensamento ocidental foi-se centrando, progressivamente, no Homem. O homem tornou-se a grande medida de todas as coisas e, ao mesmo tempo, o centro de todas as preocupações. 

O que ficou para trás? Deus!

Aparece assim a preocupação de fundar a ética, o agir humano, na razão e não tanto na religião, levando, pois, a ética a fundar-se num racionalismo desarraigado de Deus. 

Não é apenas a ética que se emancipou de Deus, mas todas as esferas se foram distanciando da religião, colocando no centro de todas as preocupações o homem e o livre pensamento. No fundo, a evolução natural de uma religião de amor, como é o caso do cristianismo, não se coadunava com a imposição de verdades sobre o agir humano, roubando-lhe a liberdade de pensamento e de ação.

Isto leva-nos a perceber como a sociedade ocidental foi prescindindo de Deus para se colocar no centro de si mesma.

Com o tempo, foi-se fazendo depender o bem e o mal não de um Pai comum a todos os homens, mas do consenso da maioria e, nos últimos tempos, da imposição das minorias sobre as maiorias.

É simples o que decorre dos movimentos de pensamento dos últimos séculos. Antes, decorria do direito divino, isto é, de Deus, a regulação do que é bem ou mal, depois, procurou-se na razão a fundamentação para se decidir o que é bem e o que é mal, agora, o bem e o mal dependem do consenso, mesmo que vá contra a própria razão. Primeiro prescindiu-se de Deus e mais tarde prescindiu-se da razão e a ética ficou entregue ao arbítrio das vontades.

É curiosa a movimentação de tantos homens e mulheres para descentrar o homem do pensamento para o inserir numa realidade mais vasta, isto é, a ecologia. De repente, parece que estamos a redescobrir que no mundo não existe apenas o homem, mas que o mundo é habitado por um conjunto de seres vivos que existem para além dele. 

Este discurso, chamado ecológico, faz parte do discurso religioso desde tempos imemoriais. Desde sempre a Igreja, mas também o judaísmo, tem visto no primeiro capítulo do livro do Génesis a fundamentação para compreender o lugar do homem no contexto de toda a criação, dando-lhe, é certo, um lugar particular, mas não exclusivo. Curiosamente, também Deus criou o Shabath, o sábado, o descanso – coisa pouco difundida, mas necessária, nas sociedades contemporâneas. 

É, portanto, preciso perceber que o homem, há muito, deixou de estar no centro do pensamento humano, para dar lugar às suas paixões e, agora, para dar lugar ao cosmos universal que compõe o entorno que nos rodeia. Ao colocar-se no centro do pensamento, tendo-se constituído à medida de todas as coisas, o homem ficou votado às suas paixões – relacionado com os apetites pessoais – e, portanto, votado à liberdade. Tal liberdade faz com que cada um faça o que lhe ‘apetece’.

Esta liberdade foi, paulatinamente, levando o homem a viver para si próprio, deixando de parte o amor ao próximo para o entregar, num sistema marxista, ao cuidado do Estado-Pai. O marxismo apareceu como Pai-providência e, de certa forma, desresponsabilizou cada homem de cuidar do seu próximo. O homem – no centro – vive para si mesmo e mete tudo e todos ao seu serviço.

O paradigma do pensamento contemporâneo está, aos poucos, a descentrar o homem do centro para o recolocar no contexto de toda a criação. Há mais criação para além do homem, poderíamos nós dizer hoje. Nós não estamos sozinhos no universo, mesmo sendo os únicos conhecidos até ao momento com capacidade de pensamento abstrato. Para além de nós existe um universo que não pode ser prejudicado pelas paixões desmesuradas do homem.

Basta saber se poderemos construir uma harmonia ecológica sem incluirmos a realidade espiritual que dela faz parte, também ela criada pelo próprio Deus.