O Mundo em Calções

O orgulho da rapaziada de Doncaster

Escondendo o segredo de estar completamente cego do olho direito, Bruce Woodcock ainda venceu quatro combates.


O gancho de esquerda desferido por Joe Baksi, o latagão que enfunara os bíceps a carregar com sacos de carvão nas minas de Kulpmont, na Pensilvânia, foi tão violento que Bruce Woodcock levantou os pés do chão. Fez-se um silêncio surdo na Harringway Arena, de Londres. Bruce só perdera um combate na sua carreira profissional até aí. No dia 17 de março de 1946, no Madison Square Garden, frente ao americano Tami Mauriello. E ficara para a história.

Afinal, o vencedor teria a possibilidade única de defrontar o Bombardeiro Castanho, Joe Louis, campeão mundial. Com dez pontos nos sobrolhos, Woodcock regressara a Inglaterra e à sua cidade de Doncaster de rabo metido entre as pernas.

Como todos os ingleses era orgulhoso demais para aceitar a derrota de boa catadura. Tinham-lhe ensinado desde criança que um cavalheiro nunca se vinga e, apesar de não ter nascido como um cavalheiro, o pai, tenente do British Army, ensinara-lhe uma ou duas coisas sobre cavalheirismo. E, já agora, sobre boxe.

Aos 6 anos, Bruce metia medo aos garotos com o dobro da sua idade. Quando encolhia a cabeça entre os ombros e começava a socar, não havia muitos que resistissem à sua terrível persistência. Aos 12 anos ganhou o seu primeiro título escolar.

Quando começou a trabalhar como inspetor de linhas na London and North Eastern Railway, inscreveu-se no clube de boxe amador da companhia. Se o pai fora campeão de pesos-leves do exército inglês, ele não tardou a ser o campeão dos Northern Counties de pesos semi-pesados, qualificando-se para as finais da Amateur Boxing Association of England de 1939, com lugar no Royal Albert Hall, em Londres. A malta de Doncaster tinha um profundo orgulho no seu rapaz.

Ainda por cima depois deste ter vencido na final um tal de Ford e conquistado lugar nos European Amateur Boxing Championships, em Dublin, onde perdeu nas meias finais para o polaco Franciszek Szymura, Ah! Sim! Bruce Woodcock era verdadeiramente estimado em Doncaster, no Yorkshire, o lugar que recebera o St, Leger em 1194, ou seja o foral concedido por Ricardo Coração de Leão.

Quem trabalhava nos caminhos-de-ferro ingleses no tempo da II Grande Guerra era dispensado do serviço militar. Os comboios eram demasiado importantes para serem deixados nas mãos de gente que não percebesse a fundo da matéria. Bruce, que já atingira o grau de engenheiro, foi transferido para a região de Manchester. Foi aí que conheceu o veterano Tom Hurst que se tornou seu treinador e fez dele aquilo que sempre desejou: profissional de boxe.

As coisas corriam-lhe às mil maravilhas. Um a um foi desancando os grandes boxeurs ingleses do seu tempo até vencer Jack London, em White Hart Lane, Tottenham, e se tornar campeão dos pesos pesados da Commonwealth.

A derrota perante Mauriello provocou estragos. Sobretudo psicológicos. Woodcock falhara no momento mais importante da sua vida de pugilista. Mantivera-se no ringue apenas um assalto, o que se podia considerar um fracasso total. A ideia de desafiar um monstro como Joe Baksi, com os seus 105 quilos de peso e o ar de gangster das docas de Manhattan, que ainda por cima dera recentemente uma sova muito razoável em Mauriello revelou-se desastrosa. E o gancho de esquerda que o fez levantar os pés do chão, recuar dois metros e o estatelou junto às cordas, fora muito mais violento que Bruce seria capaz de imaginar.

Decorreram seis assaltos até que o árbitro, Moss Deymond, mandasse interromper a contenda. O rapaz de Doncaster teimava em enfiar a cabeça entre os ombros e socar em seu redor, como nos tempos de criança, mas era nítido que perdera por completo o sentido do equilíbrio e a noção do seu estado. Mais tarde contou: «Tinha um golpe muito profundo no sobrolho direito. Não via nada desse olho. Escorria sangue em abundância».

O gancho de Baksi fora devastador. Apesar de o terem conduzido ao hotel, Bruce teve de ser hospitalizado na manhã seguinte. Tinha o maxilar partido e foi preciso ligá-lo por uma peça metálica. Dizia que sentia areia nos olhos, mas a verdade é que o olho direito ficara completa e irreversivelmente cego. Tom conseguiu, durante os três anos seguintes manter o segredo absoluto sobre o estado da visão de Bruce. E este continuou a combater até ao dia 14 de novembro de 1950, quando perdeu o título de Campeão da Commonwealth para Jack Gardner, na Earls Court Arena de Londres.

Só aí revelou a verdade. Pelo caminho, mesmo só com o olho esquerdo a funcionar, bateu os americanos Lee Oma e Lee Savold, o sul-africano Johnny Ralph, e o seu compatriota Fredie Mills. «Não podia simplesmente abandonar», confessou. «E não era apenas uma questão de orgulho, precisava do dinheiro. Mas com o descolamento da retina não dava mais para manter-me nos ringues». Ah! Sim! A malta de Doncaster tinha orgulho no seu rapaz!