Falar Baixinho

Peter Pan e o medo de crescer

A certeza de que os pais continuarão lá, independentemente de se ir até ao fim do mundo, de saber que o guardam e que os pode levar consigo, dá-lhe segurança para abrir caminho por esse mundo novo.
 


Chega um dia em que sentimos que os nossos filhos já não precisam de estar sempre ao pé de nós para se sentirem seguros. A curiosidade vai aguçando e de dia para dia vão dando mais um passo sozinhos na exploração do mundo. Com a chegada da pré-adolescência, esta mudança é ainda mais notória, e nem sempre fácil ou pacífica.

Por maior que seja o desejo de crescer, de ser independente e autónomo, o receio de deixar a infância está sempre lá. Quanto mais seguros se sentem, mais confiantes se encontram para ir em busca do desconhecido. Mas a viagem é quase sempre turbulenta. Do outro lado, os amigos, o mundo, a adolescência e adultícia, mas também o receio de estar sozinho, do que não se sabe nem se vê, de assumir a responsabilidade das suas escolhas. Para trás fica o colo, a segurança, a proteção e o aconchego.

Ante o desejo de prosseguir, às vezes impõe-se a angústia, a ansiedade, o medo, a culpa, e fica-se nesse limbo, entre o passado e o futuro. Se a relação com os pais é suficientemente forte, então o adolescente acabará por encontrar forças e coragem para prosseguir. A certeza de que os pais continuarão lá, independentemente de se ir até ao fim do mundo, de saber que o guardam e que os pode levar consigo, dá-lhe segurança para abrir caminho por esse mundo novo.
Mas se é a insegurança que impera, é possível que este passo seja mais difícil de dar e que os sentimentos de culpa e angústia sejam tão grandes que se vacile perante o receio do que poderá acontecer. O medo supera o desejo e o desenvolvimento psicológico estagna.

É importante estar atento e acompanhar esta nova fase que precisa de tanta dedicação como qualquer outra. Nem sempre é fácil, porque estas dúvidas, inseguranças e receios às vezes manifestam-se de forma tempestiva ou conflituosa. O dom do discernimento, da autorregulação e da palavra ainda estão em desenvolvimento e é através do comportamento, nem sempre o mais adequado, que se expressa a frustração, as dúvidas e angústias. Todos sabemos que crescer não é fácil. Implica necessariamente restruturação familiar, revisão de regras, de limites. Mudança de postura e muita compreensão. Talvez os ídolos dos nossos filhos já não sejamos nós e os gostos comecem a divergir. Há que saber continuar a dar o exemplo e a mostrar o nosso lado, mas sem o impor. Sem abandonar, continuando a traçar limites que vão sendo adequados a cada altura e que acompanhem este movimento. O colo tem de ser outro.

Não queremos Peter Pans por casa, que não consigam arriscar crescer e se fiquem pela Terra do Nunca. Essa terra é divertida e segura, de perigos há só o Capitão Gancho, com quem já aprenderam a lidar. Mas a Terra do Nunca é uma ilha fechada, onde nunca não acontece nada de novo. É no mundo lá fora que está o entusiasmo, a novidade, as novas escolhas, o arriscar, o encontro com a vida adulta. É esse o caminho que temos de os apoiar e encorajar a percorrer.