Tomar partido

O bater de asas de Moedas causou um terramoto político

Contra (quase) tudo e contra (quase) todos, Carlos Moedas ganhou as eleições e tornou-se o presidente da Câmara de Lisboa e com esse leve bater de asas causou o terramoto político da queda do Governo em 2021...


Regresso a esta coluna com o tema da vitória de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa. A vitória de Moedas, importante logo no dia 26 de setembro, ganha nova importância à medida que percebemos que foi aquele bater de asas que causou o terramoto político que culminou no chumbo do orçamento e na dissolução da Assembleia da República.

As eleições autárquicas de 2013 haviam sido de má memória para o PSD. Ocupado a governar o país, Pedro Passos Coelho foi o primeiro-ministro que não se lembrou do que aconteceria ao seu partido nas autárquicas desse ano. Fustigados pelas medidas impostas pela troika, os portugueses mostraram o cartão vermelho do seu descontentamento. Afastado da governação em 2015 e com a ‘geringonça’ do PS, PCP e BE a governar o país, o PSD apresentou-se às eleições autárquicas de 2017. A estratégia foi errada, as escolhas de Lisboa e Porto desastrosas, os resultados humilhantes: o PSD, para além de ter perdido câmaras atrás de câmaras, teve resultados de 10% em Lisboa e no Porto.

Na sequência dos resultados autárquicos, Passos Coelho anuncia que não se recandidata a novo mandato. Terminavam assim, de forma inglória, os quase oito anos da sua liderança do PSD. 

Rui Rio, o líder seguinte, afirma desde o início que voltaria a fazer do PSD um partido eminentemente autárquico como forma de (re)ocupação do território e espaço mental dos portugueses. Ao mesmo tempo que se vivia o estado de graça de António Costa e do PS, endeusados na imprensa, fazia-se o trabalho de formiga: encontrar nos 308 municípios soluções de credibilidade que dessem vitórias autárquicas ao PSD.

Por ser a capital, por ser o coração do regime, por ser Medina, um delfim de António Costa, pelo resultado humilhante de 2017, enfim, por todas as razões e mais algumas, Lisboa era o caso mais bicudo. Rui Rio sabia, sabiam todos, que iria ser julgado pelo resultado de Lisboa.

Rui Rio escolhe e apresenta Carlos Moedas ao país em março de 2021, em plena pandemia, com os portugueses confinados em casa. O candidato foi apresentado com um curriculum excecional: ex-secretário de Estado do Governo de Passos Coelho, comissário europeu entre 2014 e 2019 e, regressado a Portugal, administrador da Gulbenkian. E se, no princípio, os lisboetas ficaram impressionados com a qualidade do seu percurso profissional, cedo se renderam à sua personalidade cativante. Moedas era educado, calmo, humilde, acessível, caloroso no trato pessoal. Era diferente e fazia gala de dizer que era diferente. Tudo parecia novo porque era novo. A diferença perante o seu adversário saltava à vista: não havia no candidato do PSD arrogância, pesporrência, nem recurso a truques da baixa política.

Contra (quase) tudo e contra (quase) todos, Carlos Moedas ganhou as eleições e tornou-se o presidente da Câmara de Lisboa e com esse leve bater de asas causou o terramoto político da queda do Governo em 2021...

A autora foi candidata à assembleia municipal de Lisboa, tendo suspendido a coluna no período eleitoral.