Fundo? Parece que afinal já chegámos

Qual é a pressa?

A ‘geringonça’ apesar de ter durado 2178 dias (desde 10 de novembro de 2015 até 27 de outubro de 2021) foi sempre um acordo de egoísmos e agendas próprias e, infelizmente, em nada contribuiu para a transformação estrutural de que o país precisava


No início de 2013, Pedro da Silva Pereira, ministro do Governo de Sócrates e ajudante privilegiado da estratégia de António Costa para substituir o então Secretário-geral do PS, lançava, fora de tempo e com absoluta irracionalidade, um desafio para a realização de um congresso extraordinário do partido com o objetivo de escolher um novo líder.

Reagindo com serenidade e indiscutível sentido de humor, António José Seguro repetiu várias vezes: Qual é a pressa?

O Congresso não se realizou nessa altura. Entretanto realizaram-se eleições que fizeram de Silva Pereira, por indicação de Seguro, membro do Parlamento Europeu. Os socialistas ganharam essas eleições mas a oposição interna “achou” que a vitória tinha sido por poucochinho e, depois de várias peripécias, mas sobretudo por causa da ingenuidade e da boa fé do líder do PS, o congresso acabou por realizar-se e António Costa ascendeu ao lugar que sempre desejou.

Como consequência, Costa disputou as eleições legislativas em 2015 à frente do PS e, com todas as condições e contra todas as probabilidades, cometeu “a proeza” de perder essas eleições e nem sequer as perdeu por poucochinho.

O que seria normal é que o responsável por esta ‘estória’ tirasse as devidas ilações do sucedido, mas, como é por demais conhecido, não foi isso que se verificou.

O PS acabou por assinar um acordo de governação com o PCP em 10 de novembro de 2015, a este acordo juntou-se um entendimento com o Bloco de Esquerda e assim se formou uma maioria parlamentar que viabilizou o governo.

Ainda hoje não é consensual se este acordo duplo que ficou conhecido como ‘geringonça’ foi negociado antes das eleições, mas é claro que este entendimento não foi objeto de discussão durante a campanha eleitoral e, por isso, não foi sujeito ao escrutínio do eleitorado.

Empossado o governo (nada constitucionalmente o poderia impedir) o derrotado das eleições legislativas transformou-se, por um golpe de mágica, num improvável vencedor.

Talvez esta narrativa ajude a encontrar hoje a resposta à pergunta de António José Seguro quando se interrogava:

Qual é a pressa?

Em política, sobretudo em situações de instabilidade, o tempo é um valor essencial e saber geri-lo e aproveitá-lo só está realmente ao alcance dos melhores taticistas.

Curiosamente vivemos um tempo em que a pergunta icónica, volta a ter significado e, sobretudo, se torna muito oportuna.

Com o chumbo do Orçamento de Estado para 2022 e a decisão antecipadamente anunciada pelo PR de que a esta ocorrência se seguiria a dissolução do Parlamento, o tempo passou a ser ainda mais essencial e é agora apreciado, de forma diferente, à luz do interesse das partes, mesmo que se invoque sempre o interesse nacional.

A crise que todos já reconhecem, mas que verdadeiramente está em preparação desde o dia da criação da ‘geringonça’, só pode ser superada em sucesso, com sensatez, o que implica defender, até ao limite constitucional, as regras do comportamento democrático, impedindo a adulteração do ato eleitoral.

É certo que o tempo do país não deve ser subordinado excessivamente à agenda dos partidos, mas também é certo que sendo os partidos estruturas fundamentais da organização democrática, não pode haver condescendência com a tentativa de ganhar nas secretarias partidárias, aquilo que se tem medo de perder no terreno das escolhas do eleitorado.

Compete ao PR, que em certo sentido é corresponsável por esta situação, colocar ordem no atual ‘estado da arte’, evitando que a crise, desde há seis anos anunciada, se transforme numa doença endémica do regime, que dificilmente será resolvida a curto prazo.

A ‘geringonça’ apesar de ter durado 2178 dias (desde 10 de novembro de 2015 até 27 de outubro de 2021) foi sempre um acordo de egoísmos e agendas próprias e, infelizmente, em nada contribuiu para a transformação estrutural de que o país precisava, nomeadamente nos planos da competitividade e da produtividade, apesar de, durante estes seis anos, nunca terem faltado condições nem os recursos financeiros necessários à modernização da economia.

Por isso muita gente, incluindo o autor desta crónica, estiveram, desde o primeiro dia, contra esta solução e pagaram, por essa opção, um preço político não despiciendo.

Hoje é claro que esta associação nunca poderia dar certo pois o PS é um partido da Europa, que valoriza a economia social do mercado, respeita o multilateralismo e está completamente envolvido nas instituições ocidentais que o asseguram, enquanto o PCP mantém a sua matriz anti-União Europeia, não é grande adepto do regime parlamentar, define-se como anti-capitalista, anti-imperialista e anti-Nato e o Bloco de Esquerda é essencialmente um partido anti moeda única que só aceita o projeto europeu em formato que lhe retiraria toda a sua identidade.

Juntar estes diferentes e contraditórios projetos políticos, numa entidade de governo única, é, basicamente, começar a escrever ‘Uma Crónica de uma Crise Anunciada’.

Como referiu recentemente João Miguel Tavares “a geringonça sempre foi uma farsa e o pano finalmente ruiu”.

E agora? Bem, agora, o bom senso precisa-se. Bom senso que não fragilize a democracia portuguesa e bom senso que seja compreendido pela opinião pública mas que, essencialmente, permita enterrar este ciclo da geringonça que nada de verdadeiramente útil trouxe para a sociedade portuguesa.

As eleições se forem disputadas com serenidade e elevação, tanto quanto possível em condições iguais para todos os partidos, constituirão o momento chave para se recuperar o tempo perdido e resgatar Portugal do buraco fundo onde, verdadeiramente, já se instalou.

Por erros próprios e má fortuna a decisão está agora nas mãos do Presidente da República e não será fácil de tomar, todos temos de ter consciência disso.

Talvez este seja afinal o momento para Marcelo Rebelo de Sousa se interrogar (Qual a pressa?) e meditar sobre as consequências que uma não resposta ou uma resposta incorreta à sua pergunta, pode ter para o futuro do país.