Internacional

Bielorrússia. Lukashenko ameaça pôr o dedo na artéria do gás russo

Em plena crise energética, o ditador bielorrusso sabe que o inverno está aí, e que não há muitas alternativas para os europeus obterem energia.

 


Alexander Lukashenko, mais conhecido como o último ditador da Europa, atirou-se a Bruxelas onde doi mais, esta quinta-feira, ameaçando cortar o fluxo de gás russo para a UE.

Isto numa altura em que as tensões já estavam altíssimas, com o Presidente bielorrusso acusado de lançar um “ataque híbrido” contra os seus vizinhos europeus, sobretudo ao longo da última semana, com agentes da Bielorrússia a marchar centenas de refugiados até à fronteira com a Polónia, onde foram repelidos com recurso a gás lacrimogéneo. Já em Varsóvia, decorreu uma das maiores marchas  anuais de extrama-direita do planeta, no Dia da Independência polaco, que recentemente foi consagrada evento estatal pelo Governo do Lei e Justiça.

No entanto, se Bruxelas já estava em estado de sobressalto com o risco para as suas fronteiras, os gasodutos vindos da Rússia, origem de 43% do gás natural consumido pela UE, segundo Eurostat, talvez sejam uma preocupação ainda maior, como fez questão de frisar Lukashenko.

“Nós estamos a aquecer a Europa”, salientou, citado pela Reuters. Talvez o timming da ameaça não seja por acaso, dado que começaram a cair os primeiros nevões no leste da Europa, que a necessidade de eletricidade está a subir e, como tal, a crise energética a agravar-se. “Eles ainda nos ameaçam que vão fechar a fronteira. E se nós cortarmos o gás natural ali?”, continou o Presidente bielorruso. “Como tal, eu recomendaria que a liderança polaca, lituana, e outras pessoas sem cabeça pensassem antes de falar”, sugeriu. 

Lukashenko pareceu particularmente feliz por saber que, sem a Bielorrússia, a União Europeia - em particular países como a Alemanha, muito dependentes de gás russo, que usam como uma espécie de transição entre combustíveis fósseis mais poluentes, como carvão e petróleo, e as energias renováveis - não tem grandes alternativas. 

O gás natural “não pode ir através da Ucrânia, porque a fronteira russa está fechada ali”, frisou, referindo-se à guerra por procuração entre os dois países, que ainda continua, com maior ou menor intensidade, despoletada pela anexação da Crimeia, em 2014, e pelo apoio do Kremlin aos separatistas russos no leste da Ucrânia. Além disso, no que toca ao gás natural, “não há rota através dos países bálticos”, acrescentou Lukashenko. “Se o cortamos para os polacos e, por exemplo, para os alemães, o que acontecerá então?”. 

A descrição de Lukashenko é um relato incompleto e inexato da situação. Nos Bálticos existe o gasoduto Nord Stream, estando o Nortstream 2, rumo à Alemanha, parado à espera de autorização europeia. E ainda sobra o South Stream, que passa através do Mar Negro, e o Turkstream, que passa pela Turquia, como o nome indica - no entanto, ninguém dúvida que o corte do gasoduto Yamal-Europa, que passa na Bielorrússia, fosse causar problemas dentro da UE.