Carta de Wall Street

A galinha da vizinha e o bode expiatório

Sabemos bem de histórias de amizades perdidas na competição amorosa por uma mesma pessoa, discussões acesas por um simples lugar de parque, colegas competindo desonestamente pelo mesmo emprego ou até amigas chateadas por usarem o mesmo vestido


Por Pedro Ramos

Nova Iorque, novembro 2021

A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. 
Ditado popular português. 

[…] Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
The Road Not Taken 

Robert Frost

Insanity is something rare in individuals — but in groups, parties, peoples and epochs, it is the rule. 
Friedrich Nietzsche

Queridas Filhas,

Os guerreiros avisam que o golpe mais perigoso é aquele que não se vê. Na nossa vida quotidiana isso aplica-se também. O nosso pior inimigo é o que não se vê. Não falo aqui de vírus e bactérias, mas sim de nós próprios. Muitas das nossas decisões e atitudes são influenciadas por forcas invisíveis a nós.

Gostamos de achar que temos livre escolha e que somos racionais. Ciências como a Economia, Sociologia assentam nessas assunções. Isto gera grandes falhas na previsão do comportamento de economias e de sociedades que levam muitos a apelidá-las de ‘dismal sciences’.

Mas a culpa não é dos cientistas. Ao contrário de ciências exatas, o estudo do ser humano e de sociedades, tem como objeto seres imperfeitos, em constante mudança e com contradições internas. Felizmente, começamos a entender um pouco mais acerca deles e do que os move.

Por exemplo, achamos que os nossos desejos e necessidades são totalmente individuais e independentes. O psicólogo americano Abraham Maslow caracterizou as necessidades numa hierarquia, começando com as necessidades básicas (comida, água, abrigo, descanso, segurança) seguido de necessidades psicológicas (amizades, relações íntimas, prestigio, completar projetos) e com as necessidades de autorrealização no topo (atingir o potencial pessoal e realização pessoal e profissional). 

Esta conceção do mundo, pressupõe uma relação direta entre nós e aquilo que desejamos. O filósofo Francês Rene Girard descobriu que a realidade é um pouco mais complicada. Para além das necessidades básicas, o ser humano não sabe o que quer. Por isso olha à sua volta na busca de modelos que queira imitar. Vendo alguém a obter os resultados pretendidos, leva-nos a desejar o mesmo para nós e a imitar os seus desejos e preferências. Os nossos desejos não são independentes, mas sim miméticos. A figura 1 ilustra este processo. 

Este fenómeno observa-se em várias esferas: na moda, nos carros, nos locais escolhidos para viver, nas carreiras que se deseja, e muitas outras esferas. Por exemplo, em Harvard, os graduados de MBA todos os anos têm uma carreira preferida que todos querem seguir. Normalmente isso associa-se a sucessos passados. Não é surpresa que a classe de 1999 queria desenvolver um negócio de internet assim como a de 2007 queria ir para Finanças. Hoje em dia, os influencers das redes sociais usam este fenómeno para criarem uma grande e leal audiência. A sabedoria popular portuguesa cedo se apercebeu deste fenómeno como mostra o ditado no início desta carta. 

Mas isto mostra problemas dos desejos miméticos: em primeiro lugar, pode ser tarde demais, como os graduados de Harvard regularmente aprendem; em segundo lugar, todos quererem a mesma coisa, leva a competição e conflitos pelo objeto de desejo. Sabemos bem de histórias de amizades perdidas na competição amorosa por uma mesma pessoa, discussões acesas por um simples lugar de parque, colegas competindo desonestamente pelo mesmo emprego ou até amigas chateadas por usarem o mesmo vestido. 

Esta competição pode se acentuar e levar a fortes conflitos internos dentro de grupos ou mesmo dentro de sociedades: Crise Mimética. Como sobrevivem os grupos a estas crises? Através de um bode expiatório. Os problemas e conflitos são atribuídos a um bode expiatório, que assume as culpas pelo distúrbio da paz do grupo. O grupo expulsa/executa o bode expiatório, e durante algum tempo a paz restabelece-se no grupo. A figura 2 mostra este mecanismo em esquema.

Estas ideias aparentemente simples, têm implicações muito profundas nas vidas de grupos, sociedades, empresas, regimes e grupos de nações. Tem ainda implicações fortes na vivencia e crescimento espiritual de cada um. A leitura da Bíblia com base nestas teorias foi desenvolvida muito pelo próprio Girard e eu espero que tenham tempo para ler essa obra. Para uma introdução o livro recente de Luke Burgis: Wanting é um excelente sítio para começar.

Despeço-me com um conselho. A vossa Mãe, no nosso primeiro encontro deu-me o poema acima do Robert Frost. Ela queria mostrar-me o espírito pioneiro e aventureiro dos americanos. Essa mensagem também é muito pertinente para vivermos imunes a desejos miméticos e mais de acordo com a nossa individualidade única. O mundo precisa da vossa voz individual. Não de pessoas que copiem sem reflexão as vozes dos outros só para serem aceites. O caminho menos percorrido talvez tenha muitas riquezas. Se a tua voz te chama para ele, segue-o. Os portugueses fizeram isso há 500 anos e essa epopeia foi o nosso melhor período.