Opiniao

GLÓRIA: a falha no argumento


Por João Cerqueira

Um dos espectáculos mais interessantes que assisti nos últimos anos foi a estreia da peça Algumas Polaroids Explícitas de Mark Ravenhill – a história de um revolucionário que descobre que o mundo mudou -, no Theatro Circo de Braga. Aprecio algum teatro nacional, mas não o cinema. Ao contrário do cinema e das séries espanholas, italianas ou japonesas, não me entusiasmo com a produção audiovisual portuguesa. Prefiro Almodôvar, Fellini ou Kurosawa a Oliveira e outros mais recentes. Há uma falta de ritmo na narrativa, de incapacidade de prender a atenção do espectador e de verosimilhança das personagens portuguesas que me entedia. E, para piorar tudo, certos actores com pronúncia lisboeta comem de tal forma as palavras que não se percebe nada. No entanto, esta não passa da opinião de um minhoto reaccionário que nunca saiu da sua aldeola.

Dito isto, fiquei surpreendido com a qualidade da primeira série portuguesa na Netflix: Glória. A recriação do Portugal do final dos anos 60 no estertor do Estado Novo após a queda de Salazar e a sucessão de Caetano é impecável: a fotografia, os cenários, o guarda-roupa, a caracterização, a banda sonora, tudo concorre para transportar o espectador para aquela época e fazê-lo querer ficar por lá durante algumas horas. Descobrimos então o papel de Portugal durante a Guerra Fria, a agonia do regime, a Guerra Colonial, a mentalidade e os costumes da época. Para tal, entram em cena um conjunto de actores e actrizes que, apesar de deglutirem algumas palavras (poucas), são também muito bons. A armada portuguesa de famílias da alta sociedade, profissionais de classe média, empregados e camponeses, em nada ficam atrás da grande dupla americana e do convincente actor brasileiro. E a forma perfeita como se relacionam, num confronto de mundos e escolas tão distintas, revela dedo de mestre do realizador Tiago Guedes e do argumentista Pedro Lopes.

À excepção de Peaky Blinders, Narcos e pouco mais, Glória é uma das melhores séries da Netflix, sendo superior a sucessos como A Casa do Papel – um argumento inverosímil e um final patético – e a The Squid Game – um começo desastroso e muitas pontas soltas.

A história consegue ainda abordar o delicado tema da Guerra Colonial sem cair no maniqueísmo Branco mau, Negro bom pois se não se coíbe de mostrar a violência das tropas portuguesas, o recrutamento forçado e as matter dolorosa que perdem os filhos, também mostra que houve voluntários entre os combatentes, assim como soldados negros a lutar contra os movimentos de libertação. Outra tentação a que não sucumbe é o cliché do comunista romântico que luta por um mundo melhor. Além do agente do KGB que se faz passar por desertor ser um assassino implacável para quem a vida humana nada vale diante do objectivo supremo do Comunismo, o protagonista João Vidal – o filho rebelde de um ministro de Salazar que descobre o marxismo durante a guerra -, pese embora ser um homem culto e sensível, não recua perante a ordem de asfixiar um dissidente russo num hospital, de participar na morte de uma mulher grávida ou de deixar uma mulher com um bebé afogarem-se. Por fim, tão pouco os americanos são retratados como rednecks boçais, pois quer a agente da CIA, quer o director da RAERT são personagens complexas que, além da sua missão, revelam ter ideias próprias e serem sensíveis aos problemas pessoais dos portugueses com quem convivem.   

Na literatura anglo-saxónica é dada muita importância à construção das personagens e à evolução destes ao longo da história. As personagens principais devem sofrer alterações e transformar-se em função dos acontecimentos que são forçados a viver. Uma personagem que permanece igual do princípio ao fim é um flat character e, como tal, a história é arrasada pela crítica especializada e pela amazónica. Afinal,  já na primeira história da humanidade – A Epopeia de Gilgamesh - , o herói vai evoluindo durante a sua viagem até finalmente compreender o sentido da vida. Ora em Glória este princípio não é esquecido: quer João Vidal, quer Carolina evoluem. O filho do regime ganha consciência política; a camponesa abre os olhos perante um mundo desconhecido. Nenhum deles voltará a ser o mesmo.

Porém, na melhor fita cai a nódoa. Apesar tanto de profissionalismo e qualidade, o argumento comete uma falha imperdoável segundo a doutrina progressista made in Hollywood: onde estão os gays, as lésbicas e os transsexuais? É certo que no episódio 8 é revelado que uma mulher casada teve uma amante mas, como esta está desaparecida há muito, tal relacionamento nunca chega realmente existir. E por que não colocar um ministro salazarista ou o próprio director da PIDE a quererem ser mulheres, pintando os lábios e provando soutiens diante do espelho? Ou uma camponesa ribatejana, mesmo sem buço, a desejar ser homem? E que dizer do médico brasileiro transformado em tarado voyeurista? Preconceito contra os emigrantes, obviamente.

Caros Tiago Guedes e Pedro Lopes, não sabem que estamos no século XXI e que já vários autores americanos pediram desculpa por não seguirem as regras que têm contribuído para tornar mais livre este admirável mundo novo? Não sabem que as fogueiras foram acesas e é preciso purificar as heresias? Para compensar séculos de cultura patriarcal não basta não ofender certas comunidades, é preciso fazer o mundo girar à sua volta e transformá-las em heróis. Hoje, Gilgamesh teria de se apaixonar por Enkidu e juntos adoptarem um sumeriozinho. Este é o novo cânone e o resto é Index Librorum e Netflixorum Prohibitorum.

Glória é excelente, mas da próxima não se esqueçam de obedecer à doutrina para não serem considerados ainda mais reaccionários do que eu.

João Cerqueira

www.joaocerqueira.com