Sociedade

Pinto da Costa investiu em imobiliário com dinheiro do FCP

Entre os imóveis que Pinto da Costa e Pinho planeavam comprar estavam apartamentos de luxo construídos nos célebres terrenos do caso Selminho. Negócios de Jorge Mendes e Deco também contribuíram para o ‘saco azul’. 


Por Felícia Cabrita e João Campos Rodrigues

O dinheiro desviado da SAD do Porto e que alimentava o ‘saco azul’ criado por Pinto da Costa e pelo seu testa-de-ferro Pedro Pinho serviu para vários negócios imobiliários na zona do Grande Porto. O Ministério Público reuniu indícios de que um dos negócios planeados era a compra de apartamentos de luxo no empreendimento construído nos célebres terrenos da escarpa da Arrábida que estão no centro do caso Selminho, a imobiliária do clã de Rui Moreira, que o presidente da Câmara do Porto é acusado de favorecer.

Aqui, porém, não é a Selminho nem Rui Moreira que estão em causa, mas sim o empreendimento que entretanto ali foi construído: o Panorama-Douro Residences. Trata-se de um investimento na ordem dos 32 milhões de euros, da imobiliária Arcada, que será constituído por nove lojas comerciais e 81 apartamentos, desde T2 a T5. O administrador e sócio da Arcada era um velho conhecido do FC Porto, o antigo jogador Manuel Caetano.

O empreendimento, situado em plena cidade do Porto, junto da Ponte da Arrábida, «goza de uma vista panorâmica única sobre o rio e uma paisagem classificada como património da UNESCO», gaba o site da Panorama Douro Residences, lembrando que os apartamentos estão «a igual distância da Foz e do centro Histórico e da Boavista». Os preços condizem com a localização e o luxo dos acabamentos: 870 mil euros por um T3, segundo listado no site da Castelhana Real Estate, ou 1,3 milhões de euros por um T4, que pode chegar a 2,65 milhões de euros, segundo anteviu Caetano ao JN, no ano passado.

Mas eram vários os negócios imobiliários em que Pinto da Costa e Pinho queriam apostar, recorrendo a dinheiro retirado do FC Porto – através de comissões de jogadores e da venda de direitos televisivos à Altice – que foi parar a uma empresa imobiliária onde ambos são sócios. Esta empresa dedicou-se à venda e compra de imóveis, vários dos quais em zonas privilegiadas em Leça da Palmeira e no Porto, sendo um deles mesmo em frente ao Estádio do Dragão.

A investigação do Ministério Público está passar estes negócios a pente fino, para provar que o dinheiro que foi desviado em comissões do FC Porto (em cujo processo de decisão o presidente teria um enorme poder) e através de Pedro Pinho foi parar aos bolsos de Pinto da Costa, a figura central da Operação Prolongamento. Daí que, entre as várias instituições alvo de buscas na semana passada, tenham estado várias imobiliárias ligadas a Pinho, como a Imonevogilde Imobiliária e a Rebelriver - Imobiliária, segundo contou ao Nascer do Sol uma fonte próxima do processo.

Dinheiro escondido no Banco Carregosa

Para esconder o paradeiro do dinheiro movimentado para fora do FC Porto, que deixou um buraco de 40 milhões na faturação do clube, Pinto da Costa, apoiado por elementos da SAD, recorreu a uma extensa rede de intermediários, empresários e entidades, que ia descartando quando pareciam estar demasiado expostos.

O dinheiro ia parar a uma conta em nome de Pedro Pinho no Banco Carregosa (em cujo capital este empresário teve uma participação de 5%), mas cujo principal beneficiário era Pinto da Costa. Além dos negócios imobiliários anteriormente mencionados, esse capital de origem ilícita servia para os gastos mais diversos: desde pagar as rendas de casa da sua ex-mulher, Fernanda Miranda, até ao pagamento de serviços de uma bruxa de Matosinhos que encaminharia amores fora do trilho e a bola para a baliza dos adversários por 60 mil euros ao mês.

Além disso, o presidente do FCP também terá feito chegar 100 mil euros a Fernando Madureira, líder dos Superdragões, mais conhecido como ‘macaco’, quando este se lhe queixou de não ter dinheiro para terminar uma casa que estaria a construir. Estas generosidades eram compensadas por Madureira com a cobrança de dívidas do presidente dos Dragões.

Madureira, que tem sido recorrentemente acusado de intimidar, ameaçar de morte ou agredir quem não lhe agrada, ainda recentemente mostrou lealdade a Pinto da Costa: «Não estamos atrás de si. Estamos atrás de si, ao seu lado e à sua frente. Para chegarem até si terão de nos matar a todos», prometeu esta semana, durante a assembleia-geral do FC Porto, citado pelo Record.

Pedro Pinho foi sócio de Alexandre Pinto da Costa

Ao longo dos últimos oito anos, o denominador comum na rede montada por Pinto da Costa tem sido sempre Pinho, um empresário desportivo nascido no mundo do futebol: é filho do antigo presidente do Rio Ave, José Maria Pinho. É, de resto, um homem muito bem relacionado - por exemplo, é casado com Sara Peneda, filha de José Silva Peneda, antigo ministro de Cavaco Silva. E entrou na vida do presidente portista através de uma amizade de adolescência com o seu filho, Alexandre Pinto da Costa.

Inicialmente, em 2013, ele e o filho de Jorge Nuno trabalharam de braço dado, recebendo comissões oriundas do FC Porto através de uma empresa em que eram sócios, a Soccer Energy. Ao longo dos três anos seguintes, conseguiram meter o dedo nas transferências dos jogadores Casemiro, Brahimi, Ricardo Quaresma e Vicent Aboubakar, a grande fonte de receita da Soccer Energy.

As irregularidades no caso de Casemiro são um bom exemplo do seu modus operandi. O médio brasileiro brilhou quando foi emprestado pelo Real Madrid ao FC Porto, o que levou o clube madrileno a resgatá-lo, rasgando a opção de compra pelos dragões, no final de 2014. «Vir para o FC Porto foi uma decisão muito importante na minha vida», considerou então o jogador, que chegaria a ser declarado ‘pulmão do Real Madrid’ pelo El País, somando centenas de jogos por esta equipa.

A SAD portista encaixou 7,5 milhões de euros com Casemiro. Menos 1,26 milhões de euros, pela intermediação de uma empresa desportiva, que depois teve de entregar 700 mil euros à Soccer Energy, de Pinho e Alexandre - que não teve nenhum papel real no negócio, presumivelmente recebendo o dinheiro para que revertesse para o círculo próximo de Pinto da Costa.

O esquema da dupla Alexandre e Pinho - que também incluía equipas como o Sporting Clube de Braga, o Vitória de Guimarães e o Tondela, que na semana passada foram alvo de buscas - sofreria uma fratura com os desentendimentos que se geraram por o líder dos Dragões ter começado a privilegiar Pinho em detrimento do filho. Os ciúmes foram demais e Alexandre saiu da Soccer Energy em 2017.

Desde então, ainda recebeu algumas comissões suspeitas do clube do pai, mas nada comparável ao que recebia Pinho. Alexandre criou depois a SerialSport, que entre 2019 e 2020 receberia uns meros 650 mil euros vindos do FC Porto, ocultados na faturação de outra empresa desportiva.

Já Pinho estava em voos mais altos. Contudo, à semelhança de Alexandre, ficara ‘queimado’ no Football Leaks, sendo mencionado pelo hacker Rui Pinto como alguém muito próximo de Pinto da Costa, e passou a precisar de ter mais cuidado em esconder o dinheiro desviado do FC Porto através das suas empresas, a Pesarp, a PP Sports – antiga Energy Soccer – e a N1 - Gestão de Carreiras Desportivas.

Jorge Mendes, outro aliado

Aí, Pedro Pinho foi buscar os préstimos de Bruno Macedo, um agente desportivo muito próximo do presidente do Braga, António Salvador. Macedo envolveu-se em negócios com os três ‘grandes’, mas viria a ser apontado como testa-de-ferro do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, na Operação Cartão Vermelho.

Se hoje o nome de Macedo desperta suspeita imediata, não era o caso na altura. Como tal, Pinho ainda conseguiu tirar dinheiro à SAD portista a pretexto das transferências de jogadores como Éder Militão ou Felipe, em 2019. O truque era usar empresas de Macedo, como a BM Consulting, que, apesar de não atuar como intermediário real de jogadores, faturava esses serviços ao FC Porto, indo o dinheiro parar às mãos de Pinho.

No entanto, Macedo poderia criar problemas à rede montada por Pinto da Costa. Quando deram conta, foram apanhados no meio da Operação Cartão Vermelho, tendo a investigação a dirigentes portistas começado com um processo da Inspeção Tributária de Braga relacionado com um pedido de reembolso da sociedade de Macedo em 2018.

Assim, a rede montada pelo presidente do FC Porto teve de ir buscar mais aliados. Juntou-se o famoso agente desportivo das estrelas, Jorge Mendes, e Deco, histórico jogador dos dragões virado empresário. Pinho, mais uma vez, continuou a servir de ligação a Pinto da Costa nessas operações, segundo terão revelado as escutas telefónicas feitas logo no início da Operação Prolongamento.

O modus operandi de Jorge Mendes, agente de Cristiano Ronaldo, é diferente do engendrado por Macedo e seus parceiros. Até então conhecido nos meios desportivos como ‘Mr. 10%’, Mendes inflacionou a sua comissão para 15 por cento, sendo o restante encaminhado para o ‘saco azul’ de Pinto da Costa.

Passaram pelas mãos de Mendes os jogadores portistas Óliver Torres, Danilo Pereira e Fábio Silva. No caso deste último, vendido pelo FC Porto ao Wolverhampton por 40 milhões de euros, em 2020, foram subtraídos à SAD dez milhões de euros – aqui, chegaram a uma incrível comissão de 25% do valor do negócio –, dos quais 3,275 milhões de euros foram parar a empresa de Pedro Pinho. E, presumivelmente, ao ’saco azul’ de Pinto da Costa no Banco Carregosa.

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