Viver para contar

O país dos canudos

Todos já experimentámos a dificuldade que existe em encontrar um carpinteiro ou um marceneiro, um eletricista, um canalizador… Mas há milhares de licenciados sem emprego ou a emigrar.

 


Quando se fala de ensino nos dias de hoje fala-se nos rankings, fala-se na Matemática e no Português, fala-se em PISA, mas a conversa normalmente fica por aqui.

Nunca se fala na questão de fundo, que é esta: para que serve o ensino? Faz sentido falar do ensino ‘em abstrato’ ou deverá falar-se antes do ensino em função das necessidades do país? E aí surge logo uma questão: estará o sistema de ensino a formar as pessoas de que o país precisa? E da minha experiência posso afirmar taxativamente: não está.

Dei recentemente uma volta pelo Norte e em todo o lado me diziam: «É muito difícil arranjar pessoal». Sei que há hotéis que não reabriram depois da pandemia porque não têm pessoal. A emblemática Pousada da Rainha Santa Isabel, em Estremoz, continuava fechada há um mês por essa razão.

Nos cafés e restaurantes de Norte a Sul, pequenos ou grandes, somos atendidos com muita frequência por empregados brasileiros (em geral, simpáticos, diga-se de passagem).

Mas não só no setor da hotelaria e restauração há falta de pessoal.

Na agricultura nem é bom falar. Quando se pergunta a um pequeno agricultor como estão as coisas em termos de pessoal, a resposta chega, inevitável: «Não há, não se arranja». Vêm emigrantes do fim do mundo para trabalhar nas nossas terras.

E todos já experimentámos a dificuldade que existe em encontrar um carpinteiro ou um marceneiro, um eletricista, um canalizador, um pintor, um pedreiro. E quando os encontramos temos quase de mendigar que nos faça este ou aquele trabalho. «Não lhe posso garantir nada», é invariavelmente a resposta.

Ora, enquanto isto acontece, enquanto vemos setores onde a falta de mão-de-obra é exasperante, sabemos da existência de muitos licenciados e até doutorados que estão desempregados. Ou que têm empregos nada condizentes com as suas habilitações académicas: motoristas, portageiros, caixas de supermercado, e até moços de fretes a fazer mudanças ou carregar caixas de fruta em armazéns. Ou ainda que, sem perspetivas de trabalho, emigram.

Há pois qualquer coisa que não está pura e simplesmente a funcionar na nossa sociedade. No nosso ensino. Não estamos a formar as pessoas de que o país precisa.

Logo a seguir ao 25 de Abril acabou-se com o chamado Ensino Técnico. Antes, findo o ensino primário, os pais dos alunos escolhiam: uns iam para o liceu, devendo depois seguir para a universidade, outros iam para as escolas técnicas, em direção aos institutos comercial e industrial. Estes acabavam os cursos mais cedo e tinham uma formação menos teórica e mais técnica. Mas para acabar com a ‘discriminação’, fechou-se o Ensino Técnico e passaram a ir todos para o liceu. E isso foi uma tremenda machadada no ensino profissionalizante.

António Brotas, um ex-secretário de Estado do setor com que me cruzei ocasionalmente por essa altura, disse-me, em tom dramático: «Saraiva, isto vai fazer o país atrasar-se vinte anos». Acho que foi mais…

O fim do trabalho infantil também funcionou no mesmo sentido.

Há que distinguir dois tipos de trabalho infantil. Um consiste na exploração despudorada do trabalho das crianças, como vemos naquelas imagens de meninas e meninos agarrados ao trabalho desde os primeiros anos de vida, sem quaisquer perspetivas, como ainda acontece nalguns países do chamado 3.º Mundo. Outro é o trabalho de crianças em ambiente familiar. E este tipo de trabalho, para lá dos problemas que podia levantar, tinha uma vantagem: dava aos jovens uma profissão. Aprendiam a profissão com os pais e os avós: fosse carpinteiro, eletricista, ferreiro ou trabalhador rural.

Ora a proibição do trabalho infantil não previu uma compensação para este problema. Houve profissões que ficaram quase desertificadas. E que são imprescindíveis ao funcionamento da sociedade.

Hoje ouvimos falar muito em ‘qualificações’. «Precisamos de um país mais qualificado», diz-se a toda a hora. Mas está a falar-se de que qualificações? De títulos universitários? Mas um país precisará apenas de licenciados e doutorados?

É certo que os portugueses sempre valorizaram demasiado os canudos. Mas donde virão depois os motoristas, os canalizadores, os eletricistas, os carpinteiros, os jardineiros, os empregados de mesa, os caixeiros, os pescadores, os trabalhadores agrícolas, os operários da indústria, os calceteiros, os pedreiros, etc., etc.?

Um país precisa de gente em todas as áreas: nos campos, nas fábricas, na hotelaria, na restauração, na construção civil, nos transportes, na banca... Em todos estes setores é preciso gente para trabalhar – mais ou menos qualificada. Um país não pode estar à espera dos imigrantes, quais escravos dos tempos modernos, para preencher as profissões menos qualificadas. Vamos a um edifício em construção e uma boa parte dos trabalhadores são negros. Será isto que queremos?

Um país em que há doutores, engenheiros e arquitetos a trabalhar fora da sua profissão ou a terem de emigrar. Em que há imensa falta de gente em certas profissões técnicas ou que exigem menos qualificações académicas. Em que os empregos menos exigentes estão a ser cada vez mais preenchidos por imigrantes. Em que, finalmente, há progressivamente mais pessoas a viver de subsídios, seja o fundo de desemprego ou o rendimento social de inserção, é um país em que qualquer coisa na organização da sociedade está profundamente errada.

O sistema não está a formar as pessoas de que o país precisa. Esta é hoje a questão central do ensino.

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