Opiniao

O homem de quem não se fala (mas de quem se devia falar)

Pedro Nuno Santos pode assumir (...) o papel mais relevante de todo o processo eleitoral em curso.


Por João Rodrigues - Advogado, Vereador do Urbanismo e Inovação da CM de Braga

Não será já surpresa para ninguém se afirmarmos que o PSD tem boas hipóteses de ser o partido mais votado no próximo dia 30. Menos certezas teremos, no entanto e mesmo se contarmos com uma vitória de Rui Rio, relativamente à composição do parlamento.

No caso de os portugueses darem a vitória a Rui Rio, havendo uma maioria de direita na Assembleia da República, numa clara viragem do país, a solução governativa estará encontrada, uma vez que até o Chega, que parece fugir do poder como o diabo foge da cruz, nos mesmos termos do que aconteceu durante muitos anos com o Bloco de Esquerda, acabará por viabilizar um governo liderado pelo PSD, sem que Rui Rio tenha de assumir grandes cedências. O líder do Chega não quererá, por certo, aos olhos do seu eleitorado, ser o responsável por mais quatro anos de gestão socialista. Basta a Rui Rio, portanto, fazer o que não se soube fazer nos Açores, quando o PSD cometeu o erro de se sentar à mesa para maiores entendimentos com o partido da direita radical.

Situação diversa, mas mais provável, ocorrerá se for consagrada uma nova maioria de esquerda no dia 30. Neste caso, terá de ser o PS a garantir o apoio parlamentar a um governo do PSD. E, aqui, é que o nome do homem de quem não se fala surgirá como um petardo numa loja de cristais.

António Costa já veio avisar que, se perder, abandona a liderança do partido (seja lá o que é que – e digo-o sem qualquer ironia – António Costa entende por ‘perder’), o que, de resto, se compreende. Ter menos votos do que o PSD, depois de seis anos de governos, é a prova clara (tão clara como a de 2015, mas não vamos entrar por aí) de que os portugueses não o querem a liderar os destinos do país. E, com a saída de António Costa, parece certo quem lhe sucederá: Pedro Nuno Santos será, com elevadíssima probabilidade, o próximo secretário-geral dos socialistas.

Pedro Nuno Santos pode assumir, assim e perante este não improvável cenário, o papel mais relevante de todo o processo eleitoral em curso. E tudo isto sem ser candidato, sem participar em debates, sem sabermos bem, embora possamos desconfiar, o que é que defende para o país. Não sabemos, também, que Pedro Nuno Santos teremos perante nós: será o Pedro Nuno Santos da esquerda trauliteira que ia correr com os credores ao chuto e que, com o radicalismo que já lhe conhecemos, faria corar Mário Soares; ou será, antes, o Pedro Nuno Santos que, pragmático, já fala em reprivatizar a TAP depois de na empresa ter despejado piscinas de dinheiro dos contribuintes? Não sabemos.

Curioso será, também, perceber o que fará Marcelo Rebelo de Sousa no caso desta situação se verificar. O que fará o Presidente da República se o PS de Pedro Nuno Santos não viabilizar um governo do PSD? Conseguirá provocar outros entendimentos? Convidará o líder do PS a formar governo? Ou marcará novas eleições? Também não sabemos.
Cremos, portanto, que estão escancaradas as portas para a continuação de uma crise política bem maior do que aquela que esperávamos, na certeza de que há um homem de quem não se fala, mas de quem se devia falar.

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