Opiniao

Um lobo do mar

O nosso ADN está associado ao mar. É impossível conceber Portugal e a sua História independentemente do mar.


Conheci-o há uns bons 20 anos, mas não parece: lembro-me como se fosse no mês passado do momento em que nos encontrámos pela primeira vez.

Ele estava sentado num sofá no gabinete do então administrador do Expresso Pedro Norton. Depois de breves apresentações, começou a falar-me do mar: das riquezas do mar, das potencialidades do mar, da importância do mar para Portugal. Na altura ele era presidente da Comissão dos Oceanos, que integrava muitas figuras venerandas ligadas direta ou indiretamente às questões marítimas. O que não deixava de ser surpreendente: um homem muito jovem, que aparentava andar pelos trinta e poucos anos, a liderar uma comissão de vetustas figuras.

Nesse primeiro encontro, falámos cerca de 15 ou 20 minutos, não mais. Ou melhor: falou ele. Mas foi tão persuasivo, tão eloquente, que logo ali eu me tornei militante da ‘causa’ do mar. Foi como se uma lâmpada se tivesse acendido no meu cérebro. E a partir daí escrevi inúmeros artigos sobre o assunto, ao ponto de, por brincadeira, ele me ter feito «membro honorário da Comissão dos Oceanos».

Mas, como acontece com muita frequência, o Governo mudou, Santana Lopes substituiu Durão Barroso em São Bento, e o capital acumulado por Pitta e Cunha e a sua comissão começou a perder-se. 

Note-se que o último ato de Durão Barroso como primeiro-ministro foi exatamente receber a Comissão dos Oceanos e o relatório que esta tinha elaborado, mostrando a importância que atribuía ao assunto. Mas o trabalho não teve sequência.

E com a subida ao poder de José Sócrates, foi definitivamente deitado para o cesto dos papéis. Paulo Pitta e Cunha saiu do país e rumou a Bruxelas, como assessor, julgo, do comissário europeu… de Malta!

Um dos grandes problemas de Portugal é não haver continuidade de esforços. Vem um Governo e desfaz tudo o que o anterior tinha feito. Assim não se constrói nada.

Foi o que mais uma vez sucedeu neste caso.

O mar é importantíssimo para Portugal. É mesmo decisivo. Poderia montar-se um projeto político sobre este tema. A nossa plataforma continental – isto é, a superfície de terra pertencente a Portugal que está submersa – é muitas vezes superior à área do nosso território, tendo sido pedida à ONU a sua extensão. E está em boa parte por explorar.
Temos uma fronteira marítima que é metade do perímetro nacional, com potencialidades enormes, quer recreativas quer económicas. O binómio ‘sol e mar’ continua a ser a nossa principal atração turística. Dispomos de uma costa com praias magníficas, com vistas de mar soberbas, e que permite múltiplas atividades náuticas de recreio, desde os passeios de barco ao surf. Temos excelentes portos de pesca e de navios mercantes, e ótimos terminais de cruzeiro. E temos o porto de águas profundas de Sines, importantíssimo para a nossa economia e mesmo para a economia europeia. Note-se que o transporte marítimo é hoje, com grande diferença, o mais económico nas longas distâncias.

E temos, evidentemente, a nossa História ligada ao mar.

Por muito que certas forças queiram desmerecê-la, a História não se apaga. As descobertas marítimas dos portugueses são dos maiores feitos de sempre da humanidade. E os laços que daí resultaram, e se prolongam até hoje, com os países que falam português, são um grande património. A língua aproxima necessariamente os povos. E por isso estaremos ligados para sempre ao Brasil, a Angola, a Moçambique, a Cabo Verde...

O nosso ADN está associado ao mar. É impossível conceber Portugal e a sua História independentemente do mar. No mar está boa parte do nosso passado e certamente do nosso futuro. Não vejo nenhum outro projeto que se compare ao que resulte da exploração de todas as nossas riquezas marítimas – desde o aproveitamento da plataforma continental à pesca, à aquacultura, aos viveiros de marisco, às marinas, às atividades náuticas recreativas, à fruição das praias, às vistas deslumbrantes de mar, aos transportes marítimos, aos portos de pesca, de recreio e de águas profundas, à ciência e à investigação, às relações com os países que falam português.

A nossa relação com o mar projeta-se em todos os setores. Por isso, repito: Portugal pode montar todo um programa político assente no mar e na exploração das suas riquezas.

Tudo o que fica escrito foi inspirado por essa conversa de cerca de um quarto de hora com Tiago Pitta e Cunha. Neto de Paulo Cunha, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, e filho do professor catedrático Paulo Pitta e Cunha. E que acaba de ganhar merecidamente o conceituado Prémio Pessoa. Bem haja! 

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