Mente (In)quieta

Para quê mexer no que corre tão bem?

Ainda não temos o país que queremos mas, segundo Costa, estamos mesmo quase lá... no pelotão da frente dos países da Europa. Já lá estamos em algumas rubricas relevantes: nos preços dos combustíveis e da energia, na desigualdade na distribuição de rendimento, no número de pessoas em situação de pobreza e exclusão social (dois em cada dez portugueses), no gap entre os mais ricos e os mais pobres, nos rankings de menor rendimento per capita e de poder de compra em relação aos outros estados-membros. Não esquecer ainda que neste Portugal de tom socialista, uma em cada quatro pessoas vive com más condições de habitação, estima-se que 35 mil idosos residem em lares ilegais, por falta de resposta social do Estado, e há 8902 pessoas em situação de sem abrigo. Para quê mexer no que corre tão bem?

Para quê mexer no que corre tão bem?

Todos os atores políticos gostam de palco, mas a verdade é que nem todos beneficiam da exposição mediática. Pelo menos, de uma exposição mediática prolongada. Porque esta acaba por favorecer aqueles que são consistentes e cujas palavras não destoam das ações.

E quem está habituado a sobreviver de soundbites e de alimentar seguidores com agressividade e provocações, depressa se apercebe que o argumento se esgota. Dizer sempre a mesma coisa até funciona duas, três, meia dúzia de vezes. Mas repetir as mesmas acusações em dezenas de palcos, e não ser capaz de sair da mesma cartilha nem apresentar visões alternativas ou sequer pensamento para resolver os problemas que se apontam, acaba por demonstrar que, afinal, o que se tem para oferecer é uma mão cheia de nada. Mais tempo houvesse e a superficialidade seria ainda mais evidente.

Objetivamente falando, mais pontos ganharia a Iniciativa Liberal, mais sólida e coerente, e mais perderia o Chega, o movimento apologista do populismo.

Também alguns graúdos sofrem do síndrome de desgaste por excesso de mediatismo.

É, aliás, esse o problema de ter caravanas de jornalistas a seguir todos os passos do líder e da sua comitiva durante muitos dias: o escrutínio é permanente e perde naturalmente quem não tem por hábito ser fiel a si mesmo. Se a imagem que se construiu é uma farsa, é mais difícil manter a ficção com a ausência de bastidores. Volta e meia, cai o pano e a verdade vem ao de cima.

Costa está a padecer deste síndrome e desta circunstância: a máscara tem de estar sempre posta – e não é por causa da Covid19. Nesta altura, o cansaço é tanto que ele já estará em condições de aceitar doar um rim em troca de umas horas longe das objetivas, e sem ter de “vestir” o sorriso forçado no rosto. Já lhe devem doer as bochechas e, mais ainda, a alma. De tal forma encurralada.

É fácil falar para quem está de fora. Para quem não anda na rua e não tem de adequar o discurso ao tipo de terreno. Por isso, não desvalorizo nem desconsidero o esforço hercúleo.

Senão, veja-se. À segunda-feira, ataca-se a esquerda que não soube manter o acordo parlamentar e viabilizar a continuidade do PS no poder. Esses traidores, que são a causa de estarmos em eleições, ainda têm a lata de falar em futuras soluções de governo. Cai-se um bocadinho nas sondagens.

À terça-feira, muda-se a agulha para o PSD, principal opositor, e recordam-se os tempos diabólicos da troika. Não interessa quem a chamou nem as razões que obrigaram à sua intervenção. O que interessa são os indicadores isolados, sem enquadramentos. As sondagens evidenciam a subida do PSD, numa aproximação perigosa à liderança.

À quarta, sobe-se o tom do ataque, para uma esfera já pessoal. E, agora, é mesmo Rui Rio o alvo a abater. Vale tudo, até ofender. Se resultar!

Não resultou.

Não interessa! Está mais do que provado que as sondagens só têm valor quando nos mostram a vitória. Siga a estratégia do “bota-abaixo”, que no domingo vamos ter frutos.

Quinta-feira. Acrescentam-se entrelinhas nos programas eleitorais do opositor, deduzem-se sentidos que nem o mais intelectual dos eleitores conseguiria inferir, ameaça-se com fantasmas do passado, tentando que ninguém perceba que os esqueletos estão escondidos no nosso armário. O pior é quando eles saem e dão entrevistas em prime time, fazem manchetes e (mesmo não querendo nada!) acabam por contribuir para a ação. E vale mais uns pózinhos nas sondagens... em direção ao fracasso.

Chegámos a sexta-feira. A esquerda começa a acusar a pressão e antecipa o agendamento de uma reunião para o primeiro dia do novo ciclo. Costa não responde. Na verdade, não pode: dizer “não” é a única possibilidade na demanda que acicata pela improvável maioria absoluta, mas o “sim” pode ser indispensável no day after. E, como se sabe, se for necessário, as comadres orientam-se e desenterram-se os machados da paz. Em prol do melhor interesse. Pessoal.

Para já, a melhor estratégia é não ver, não comentar, não respirar. Pode ser que a Catarina perceba a estratégia e se cale.

Fim-de-semana. O desespero instala-se. A metáfora das vacas já deu frutos no passado, que tal repescá-la e ver o que acontece? “É preciso alimentar o gado”, “acarinhar o gado”, “para que o gado engorde”. Parece que as vacas, agora, somos nós!

Continua a não resultar e o tempo escasseia. O cerco aperta.

Segue o périplo pelo país. As ruas vão se enchendo de apoiantes entusiasmados e a multidão é tanta que quase nem se consegue andar na rua. Se os técnicos de sondagens vissem isto, não se arriscariam a prever um fiasco socialista!

A festa é cor-de-rosa, como é o país de António Costa. De tal forma, que a melhor promessa que tem para nos dar é que, se o PS ganhar e for eleito primeiro-ministro, não vai mudar rigorosamente nada.

Ainda não temos o país que queremos mas, segundo Costa, estamos mesmo quase lá... no pelotão da frente dos países da Europa.

Já lá estamos em algumas rubricas relevantes: nos preços dos combustíveis e da energia, na desigualdade na distribuição de rendimento, no número de pessoas em situação de pobreza e exclusão social (dois em cada dez portugueses), no gap entre os mais ricos e os mais pobres, nos rankings de menor rendimento per capita e de poder de compra em relação aos outros estados-membros. Não esquecer ainda que neste Portugal de tom socialista, uma em cada quatro pessoas vive com más condições de habitação, estima-se que 35 mil idosos residem em lares ilegais, por falta de resposta social do Estado, e há 8902 pessoas em situação de sem abrigo.

Para quê mexer no que corre tão bem?

Não podemos dizer que não sabemos ao que vamos. Desta vez, não! Já foi tudo dito. São evidentes os pós e os contras. Só cai quem quer.

A bola agora está do nosso lado.

Queremos novos horizontes ou mais uma temporada de Costa no país das maravilhas?

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