O Mundo em Calções

Uma colher de arroz amargo

Ralf Vallone jogou no Torino mas saiu desiludido do futebol: ‘Non potevo piú rimanere in quel mondo!’

Uma colher de arroz amargo

Riso Amaro foi, provavelmente, o primeiro grande sucesso do cinema neorrealista italiano, um género fascinante, pelo menos para mim. Nunca o vi em português (foi censurado pelo Estado Novo) mas, pelo que parece, terá tido uma versão traduzida como Arroz Amargo. Data de 1949, dirigido por Giuseppe De Santis, e traz-no uma Itália triste do período do pós-I Grande Guerra. Na estação de caminhos-de-ferro de Turim, um grupo enorme de mulheres parte para a a  monda do arroz na região de Vercelli, um trabalho duro e desgastante que as obriga a ficar horas e horas de cócoras com água até aos joelhos.

Como bom italiano, De Santis, que foi membro do Partido Comunista e combateu os nazis durante o conflito, dá-nos um nunca mais acabar de  close-ups de uma rapariguinha de 19 anos, de saias muito curtas e pernas esculturais, Silvana, a personagem principal, uma mondadeira que sonha com os Estados Unidos e em dançar boogie-oogie, sempre acompanhada por um gira-discos e um pacote de pastilhas elásticas. Silvana chamava-se mesmo Silvana, tanto no papel como na vida: Silvana Mangano, uma das sex-symbols do cinema de todos os tempos. 

O protagonista de Riso Amaro é Vittorio Gassman, a fazer de Walter, que forma com Francesca (Doris Dowling) um casal de ladrões que roubou um colar valioso de um quarto de hotel e faz tudo para o levar clandestinamente para a América, mesmo que Francesca tenha de se disfarçar e passar, também ela, por uma colhedora de arroz. Marco, por seu lado, é um sargento passado à reserva que abandona as instalações que passarão a ser a morada das raparigas que chegam no comboio vindo de Turim.

Fica pelo beicinho por Silvana, mas esta não lhe passa muito cartão, mais atraída por Walter que vê como um bom passaporte para se pôr a caminho dos Estados Unidos. Para compensar, Marco trata de recusar os avanços de Francesca de forma um tanto ou qquanto precipitada já que fica sem nenhum dos pássaros na mão, isto é, sem uma nem outra das garotas que, ainda por cima, não eram nada de deitar fora.

Claro que Marco fez aquilo que o guião mandava e foi o mais profissional possível, refreando, se calhar, os seus mais íntimos instintos. Convém esclarecer que este Marco não era parvo nenhum. Marco era apenas o personagem. O ator era Ralf Vallone, um sujeito com uma longa e consistente carreira em Hollywood. Isto depois de ter sido jornalista de truz no Unità, em cuja redação conheceu o escritor Cesere Pavese que acabou por empurrá-lo para os braços de De Santis. 
Nunca tinha passado pela cabeça de Ralf tornar-se um ator. 

Mas De Santis ficou fascinado com ele: «Nunca pensei que Ralf tivesse uma tão grande amplidão cultural e política. Fisicamente, era um verdadeiro atleta. Aliás tinha jogado numa equipa de futebol de Turim». Isso. E não tinha sido numa equipa qualquer. Tinha sido no Torino. Entre 1934 e 1939. Depois passou pelo Novara durante uma época e voltou a Turim para pôr um ponto final na carreira.

Raffaelle Vallone nasceu no dia 17 de fevereiro de 1917, em Tropea, na província de Vibo Valentia, na Calábria, mas os pais levaram-no para Turim ainda muito menino. Adorava futebol e tomou a decisão de se apresentar nos treinos das equipas jovens do Torino, o clube que dominava, na altura, o calcio, até ao momento que viu a sua equipa extraordinária desfazer-se em cinzas no desastre aéreo de Superga, com a queda do avião que a trazia de Lisboa sobre a basílica que se encontra nesse local nos arredores da cidade. Se o grupo principal era conhecido pelo cognome de Il Grande Torino, os juniores eram os Balon Boys (em homenagem ao enorme Adolfo Baloncieri).

Médio-direito, Ralf agradou aos treinadores e aos adeptos. Na época de 1934-35 ganhou a titularidade e conquistou a Taça de Itália com a camisola grená. O que não o impediu de manter-se como um estudante aplicado, frequentando simultaneamente os cursos de Filosofia e de Direito. Mal se viu licenciado, de canudos nas mãos, mandou o futebol às malvas.

Dedicou-se ao jornalismo de causas, foi responsável pelas páginas culturais do Unitá e crítico cinematográfico do La Stampa. Entrou para a Resistência Italiana contra o emergente fascismo de Mussolini, esteve preso na cidade de Como, escapou espetacularmente numa fuga que o levou a atravessar grande parte do lago a nado, teve tempo, depois do cinema, para se dedicar ao teatro, apresentando em Inglaterra com enorme sucesso em A View From the Bridge, de Peter Brooks. O futebol foi a única coisa que o desiludiu na vida. O seu Riso Amaro: «Non potevo più rimanere in quel mondo». Em Londres, Brigitte Bardot sentava-se sempre na primeira fila. Em todas as sessões. Só para olhar para ele.

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