Sociedade

Poeiras do Saara trazem vestígios de contaminação nuclear dos anos 60

Poeiras trazidas pela circulação atmosférica da Argélia para a Europa transportam Césio-137, conclui associação francesa. Níveis não são perigosos para a saúde, mas reavivam um passado de contaminação nuclear.


Costuma ser preciso limpar o pó quando se desenterra o passado, mas e se for uma nuvem de poeira a torná-lo visível? Foi o que aconteceu há dias. Em 2021, uma associação francesa dedicada ao estudo da radioatividade no Ocidente já tinha detetado a presença de partículas radioativas em amostras de poeiras do Norte de África transportadas para a Europa e agora voltaram a fazê-lo depois de uma conjugação certeira: tempestades de areia no Saara causaram uma maior concentração e o padrão de circulação atmosférica permitiu transportá-las em massa e em níveis baixos desde a região da Argélia até à Península Ibérica, causando os céus laranja da última semana, não só cá mas Europa dentro. O que ficou invisível às fotos mas foi confirmado ontem pela ACRO é que, mais uma vez, foi possível detetar Césio-137 nas pequenas poeiras transportadas pelo vento do Saara, o que a associação associa aos ensaios nucleares levados a cabo por França na década de 1960 na Argélia, já que este elemento não tem origem natural e resulta do decaimento de urânio usado em armamento atómico.

Para fazer a experiência, os voluntários da Associação para o Controle da Radioatividade no Ocidente (ACRO), sediada em Hérouville-Saint-Clair, na Normandia, recolheram na semana passada 30 gramas de poeiras na província de Touraine, no centro do país. A análise por espectometria permitiu detetar a presença de Césio-137 em níveis semelhantes aos do ano passado, o que na altura valeu descrições de uma descoberta com alguma ironia do destino ou carma para os mais crentes, afinal a poluição nuclear deixada pelos franceses na Argélia há 60 anos continua a fazer o caminho de volta nos dias de hoje.

Supondo-se que a poeira caía de forma homogénea em todo o território, a ACRO calcula que durante esta vaga de poeira que deixou os céus laranja tenham sido depositados 75 000 béquereis de césium-137 por quilómetro quadrado nesta região francesa. O bequerel mede a atividade radioativa e corresponde a uma desintegração nuclear por segundo, pelo que num quilómetro quadrado pode haver 75 mil partículas radioativas, com uma concentração de 22 béquereis por quilo de areia, acima do que é expectável na geologia francesa (menos de um) mas ainda assim uma contaminação sem riscos acrescidos para a saúde. Acreditam que as conclusões vêm sobretudo alertar para a poluição em África e para a necessidade de a mapear.

“Esta poluição radioativa – ainda observável 60 anos após os lançamentos nucleares – recorda-nos a contaminação radioativa perene no Saara pela qual a França é responsável e sugere que as consequências devem ter sido particularmente elevadas durante a década de 1960”, disse a ACRO em comunicado. Ao i, David Boilley, presidente da associação, reforça as conclusões e admite que o fenómeno será também percetível em Portugal e em Espanha, sem consequências para a saúde. “A concentração da areia deve ser a mesma em Espanha e Portugal. No entanto, as precipitações podem ser diferentes e a contaminação da superfície no solo também pode ser diferente. Ainda assim, o risco permaneceria insignificante”, diz, sublinhando que para a ACRO a principal ilação a retirar é que é necessário fazer um mapeamento da contaminação e lixo radioativo francês que ainda permanece na Argélia.

Um tema a que o Governo francês tem dado mais atenção na última década na tentativa de reparar o passado mas que ativistas anti-nuclear continuam a apontar como insuficiente. E, no que toca à indemnização de vítimas, regulamentada em França em 2010, os próprios responsáveis têm admitido que tem sido lenta e chegado apenas a uma pequena parte das dezenas de milhares de pessoas, entre militares e argelinos, expostos a elevados níveis de radiação nos anos 60, como se viria a repetir nas ilhas da Polinésia francesa até à década de 90.

 

Abrir a “caixa radioativa”

Boilley remete para o levantamento publicado em 2020 pela ICAN France, braço do movimento anti-nuclear internacional. No prefácio, respondiam sobre porque é que se devia abrir agora esta espécie de caixa de Pandora radioativa: porque ensaios nucleares deixaram resíduos e a população de nada sabia; porque não são de descartar novos testes nucleares no século XXI, como apontavam na altura aos EUA e Rússia, e porque esta foi uma história de injustiça: “Não é coincidência que a França tenha testado a sua primeira arma nuclear na Argélia, que em 1960 ainda era uma colónia francesa. O guião para os testes nucleares seguia habitualmente o mesmo padrão: as decisões para fazer testes eram tomadas nos centros de poder do mundo industrializado – Washington, Moscovo, Paris ou Londres – enquanto os testes eram levados a cabo algures na ‘periferia’, em terras indígenas, onde os ‘Malditos da Terra’ (para citar o famoso filósofo político Frantz Fanon) viviam”, invoca no prefácio do relatório Giorgio Franceschini, da fundação ambientalista alemã Heinrich Boell.

Foram duas as zonas usadas para testes nucleares pelos franceses no Saara argelino na década de 60. Primeiro, a zona de Hamoudia, na vila de Regganne hoje com 20 mil habitantes, onde foram feitos testes nucleares atmosféricos entre 13 fevereiro de 1960 e 25 de abril de 1961 – um projeto decidido na metrópole em 1957, vivia-se a guerra fria e a França testava as suas bombas atómicas.

Segundo a ICAN, os quatro testes feitos neste período provocaram depósitos de partículas radioativas não só no Norte de África mas na África subsaariana, havendo relatos na altura de precipitação de partículas radioativas na costa de Espanha. A segunda leva de testes, entre 1961 e 1966, operações envoltas em secretismo, teve lugar perto da vila de In Ekker, no sul da Argélia. Quatro testes foram associados à libertação de gases radioativos, sendo o momento mais marcante o acidente de Beryl a 1 de maio de 1962.

Com o desmantelamento e independência da Argélia, acusa o ICAN, a situação nunca foi devidamente mapeada ou mitigada nem pela Argélia nem por França. “Para assegurar a segurança sanitária das populações locais e criar um ambiente mais saudável, devia ser feita uma investigação extensiva da área para localizar e recuperar o lixo não radioativo e radioativo dos testes nucleares (lava, rocha e areia contaminada), bem como ferramentas e outros equipamentos potencialmente radioativos abandonados pelas autoridades francesas e pelos militares na altura, que simplesmente os enterraram no chão”, reclamava o ICAN-France, no único levantamento sistemático disponível sobre os ensaios.

Na última década, França começou a fazer reparações individuais por danos de saúde, comprometendo-se a indemnizar pessoas que tenham estado nestes locais e na década 90 na Polinésia – com coordenadas e os raios elegíveis precisos –e tenham sofrido de vários cancros, de uma lista de 23 listada no site da CIVEN, acrónimo de Comissão de Indemnização às Vítimas de Ensaios Nucleares.

O último relatório da comissão criada em 2010, publicado no ano passado, revela que nos primeiros dez anos – e com várias alterações de regulamentos pelo meio – foram recebidos um total de 1747 pedidos, a maioria de militares (1130) e apenas 53 de cidadãos argelinos e 356 de população residente na Polinésia francesa. Até 2020, foram indemnizadas 506 pessoas no valor de 36,2 milhões de euros, com indemnizações médias de 73 mil euros. Uma pequena parte dos lesados quando se estima que os ensaios franceses trazidos agora de novo à tona pelas poeiras do Saara que pintaram o céu de laranja na Europa poderão ter afetado 27 mil a 60 mil pessoas, consoante as contas francesas ou argelinas, noticiou a Al Jazeera em 2020, quando passaram 60 anos do primeiro teste nuclear francês levado a cabo a mais de 3 mil quilómetros de Paris.

“Há muitos poucos pedidos e só podemos julgar os que recebemos”, disse na altura o então presidente da comissão Ludovic Gerin, admitindo que alguns pedidos argelinos não preenchiam os critérios. “Não podemos procurar ativamente pelas vítimas por isso estamos um pouco bloqueados”, concluía.

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