Cultura

O tríptico do não retorno

Ana Mesquita juntou imagens, fotografias, desenhos, João Gil compôs a música, Mia Couto escreveu os poemas. Chamar-lhe o quê: filme?, documentário?, exposição? Cabe em todas as designações. O ritmo parece lento mas, no fim, descobrimos que foi tão intenso que nos mexeu com as batidas do coração. Sobra a vontade de ver tudo outra vez. Demasiadas perguntas sem respostas. No MAAT até 5 de maio.


O verde da folha, verde fibra, faz-me lembrar que a vida tem sempre o ritmo incontrolável das seivas. Depois, do lado direito, um céu sem pássaros, só com nuvens.

Há céu para lá dos pássaros?

Os riscos da folha: veias.

Os buracos na folha: cicatrizes.

Disso estou certo, sempre certo, não preciso de perguntas: as cicatrizes falam. Quem cala são as palavras.

Três imagens, lado a lado, num tríptico de cinema/documentário. Os olhos caminham de um lado para o outro na esperança de nada perderem pelo caminho.

A voz: «É o pé que faz o chão».

A folha tem veias como o corpo dos homens e nas veias corre-lhes o sangue próprio das folhas.

Um voo sobre a cidade. Sobre as cidades.

«É o pé que faz o chão».

Silhuetas negras caminham enfileiradas. Cada um de nós que adivinhe o rumo que levam, o destino que lhes cabe.

Corpos bailam.

Corpos misturam-se.

Corpos separam-se, mas ficam os dedos juntos...

Eu regresso a Ouidah, esse lugar extravagante de África onde ainda existe uma fortaleza erguida pelos portugueses no início do Ponto do Não Retorno.

Para mim, as silhuetas são escravos a caminho do mar onde os esperam os barcos que os conduzem à sua escravatura. O Ponto do Não Retorno é uma estrada comprida, sempre a direito, de Ouidah até ao mar. Nas suas bermas as estátuas do vudu. No chão as cobras.

Para mim as cobras são grilhetas.

Eu sei para onde caminham as silhuetas no seu passo cadenciado. Caminham para o nunca mais.

Eu sinto o que vejo. Cada um sentirá coisas diferentes. Sentei-me para ver e acabei a pensar. E a sentir. Quero ver outra vez.

O chapéu que rola, empurrado pelo vento, fugindo da rapariga que o persegue, é Chaplin. A rapariga desiste, e ainda assim sorri. O chapéu prossegue na sua fuga de cabeças. Também ele sorri. É um chapéu livre, agora. O vento ofereceu-lhe a liberdade.

No Ponto do Não Retorno, o vento assobiava por entre os ramos das acácias. Não prometia liberdade. Não prometia nada. Era apenas vento assobiando por entre os ramos das acácias enquanto figuras negras, retintas, masculinas e femininas, punham um pé à frente do outro no caminho do mar cavado do Mar da Guiné.

«É o pé que faz o chão».

É o pé que faz o chão de todas as silhuetas que passam em frente dos riscos finos da folha larga. É a seiva.

O chão não tem volta.

É um chão sem regresso.

Em Ouidah, o pé deixou de ter importância. Em cada pé havia uma grilheta. Só se caminhava em frente, sempre em frente, a caminho do mar, talvez da morte.

Ponto do Não Retorno.

Vejo-o outra vez na minha frente nas três telas que observo com atenção.

A música marca o ritmo. Às vezes a sonoridade do piano, tecla a tecla. Outras um toque de marcha militar. E um fundo de tango também.

Homens hostilizam-se na rua a branco e preto. A branco e preto os homens, não a rua. Ou melhor, a rua também.

Estão vestidos de fato e casaco, usam gravatas e chapéus. Empurram-se. Discutem. Não há vozes. Só a música a fazer de vozes. Só falta Marcelo Mastroianni. Confusão italiana. «Ché casino!» Que rua é esta? De que cidade? Não sei. Só tenho espaço nos olhos para os homens que se empurram uns aos outros. Não se agridem. Só se empurram.

De repente dói. É o piano. O piano faz doer.

Nanni Moretti teve um piano assim para um filho morto. Um filho morto é um peso que a vida não consegue carregar.

Um filho morto é uma fenda. O pé fica preso, a vida continua, o pai do filho morto fica parado na eternidade do momento, como se fosse uma fotografia. Fotografia de pai.

A voz diz: «Não aguardes o Tempo».

Sim, ele passará de qualquer forma. Ninguém consegue contrariá-lo.

É o pé que faz a fenda. Um filho morto mata um pai.

Viagem Pelo Esquecimento.

Logo eu, que nunca esqueço.

A Ana conta: «Acreditamos que criámos uma peça, algo cinematográfica, capaz de traduzir o nosso tempo, procurando na lembrança do que esquecemos o mais importante de nós: a essência do ser humano ao longo da história, apontando os equívocos e as glórias que tantas vezes esquecemos com receio de lembrar».

Nunca me esqueço de lembrar.

Nunca me lembro de esquecer.

A folha é como a palma da mão. Tem riscos em ângulos correctos, quase ziguezagues. Nunca tinha visto a palma de uma mão através da folha. 

É a mão que faz o gesto.

A viagem...

A sala às escuras. Gente sentada em semicírculo. Alguns deitados em almofadas gigantes.

O embarque no Cais da Rocha de Conde de Óbidos. Soldados que marcham para uma guerra provavelmente sem retorno. Vendo bem: a vida tem retorno? Quando caminhamos de Ouidah para o mar, ao ritmo das grilhetas, sabemos que não voltamos, não voltaremos nunca. Uma criança chora ao colo da mãe. Lenços brancos, a amurada do barco cheia de homens com um buraco no peito ainda antes sequer de ouvirem o tiro. Chora o menino. Hoje, que idade tem?

Morreu já?

Não é o tiro que faz a morte. É o tempo.

Sempre que vejo nas telas imagens antigas, olho para as pessoas e pergunto, súbito, para mim mesmo: quantas delas estarão, ainda, vivas?

Não é a mão que faz o gesto. É a vida.

Soldados partem para a guerra.

Não, também não é a guerra que faz os homens. A guerra desfaz os homens.

A Ana diz: «Inauguramos a Viagem Pelo Esquecimento ao cabo de quatros anos de criação artística, no melhor lugar possível e na excelente companhia de artistas que o MAAT tem expostos. Só pode ser por termos a memória tão curta que repetimos erros como o desta guerra infame às portas de casa. Esta e outras tantas guerras invisíveis que enchem os telejornais...»

Não, não é o gesto que faz a guerra, são os homens.

Homens debruçados na amurada de um navio. O gesto, agora, é do adeus. O menino chora no colo de sua mãe.

Talvez não saiba sequer o que se passa. A tristeza é coletiva, espalha-se em redor. Como um cancro. Em silêncio. Em soluços. Nunca acreditem quando vos disserem que a tristeza se divide. De cada vez que repartimos a tristeza com alguém, esse alguém fica com um bocado dela. Ou seja, multiplica-se.

A mulher grávida hesita. Atravessa a estrada ou não? A barriga é a esperança. Mas tem medo do passeio. E receio do passado. A mulher grávida ensaia o passo, resiste. Não sei se é ela se é a câmara. Fico preso no movimento. Uma intenção dependurada. A intenção de atravessar a estrada com o filho por dentro. Filho vivo.

Não é o pé que faz a estrada.

Não é a barriga que faz a esperança.

A esperança está do lado de lá ou do lado de cá da rua?

Não é a rua que faz o pé.

Aprendi agora que o amor é uma coruja. Uma coruja e outra coruja e outra coruja e outra ainda. Primeiro num sentido, depois no sentido inverso. Primeiro solitária. Depois um céu cheio de corujas que se cruzam como aviões. 

O avião levanta voo de um aeroporto qualquer.

Fotografias. Postais. Londres e Paris. Nova Iorque e Moscovo. Subúrbios irreconhecíveis, iguais a todos os subúrbios, aos nossos subúrbios por dentro, lugares onde moram os restos de uma antiga existência que se misturou algures numa praceta da memória sem nome nem nada.

O verso de Mia Couto tem legendas em inglês: intitula-se Largo Horizonte.

«Não esperes a estrada:

é o pé que faz o chão.

Não aguardes o Tempo: 

é o amor que inventa o amante.

Poderás tombar, deserto,

na poeira do desespero: 

a ti voltará o sonho

que, calado, nos refaz a alma.

Não queiras o infinito. 

Basta que sejas outros, 

Esses outros que, sem saberes,

te habitam. 

Não esperas a estrada

É o pé que faz o chão». 

Confesso: preferia que a mulher grávida atravessasse a estrada. Não sei porquê, sentia-a mais segura do outro lado.
Não é a grávida que faz a estrada.

Eu estou do outro lado à sua espera. Mas já percebi que vou esperar em vão. Ela faz um pequeno arranque com os ombros, tem um vestido vermelho e uma barriga de, para aí, oito meses. Agora, que idade tem? Vou ficar à espera.

Vou continuar à espera para sempre. Amanhã ou depois regresso à sala escura onde se misturam poemas, imagens e música para ficar com a certeza de que a mulher grávida não atravessou a estrada. Angustia-me ficar sem saber se atravessou ou não. Angustia-me não saber novidades sobre a travessia. 

Atravessar é preciso. Viver não é preciso. 

Fotografias velhas de gente sem dias. Mães com filhos ao colo. Uma seriedade própria de quem quer ver-se encerrado em molduras. É assim que se atinge a eternidade?

A Ana fala: «Que a nossa Viagem Pelo Esquecimento abra caminhos para a criação de nova memória futura: a construção já hoje de um amanhã de que tenhamos orgulho de deixar às gerações vindouras. Como dizia e bem, o Mia, ontem, a História que aprendemos nas escolas está recheada de relatos sobre guerras e conquistas bélicas.

Esquecemos tudo o que fizemos entre nós por instituo solidário. Tem sido a entreajuda que nos tem salvo das vicissitudes da existência humana. Sendo a espécie frágil que somos, sobrevivemos milénios por termos sido capazes de incríveis actos de generosidade. Nós, os três autores, alimentámos o sonho de criar uma obra que faça a epopeia também do amor e da vida, malgrado todos os engulhos da História do Homem. Oxalá assim nos vejam».

Não sei o que vi. Sei o que pensei.

Uma jovem chinesa rodeada de velas é Fátima.

Um céu com as nuvens passando devagar não é esquecimento, é lembrança.

Crianças com as caras esborratas em pinturas de palhaços pobres. Riem, sorriem, espantam-se, confundem-se.

Não é o riso que faz o palhaço. 

São os meninos. 

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