Carta de Wall Street

O sagrado e o profano

Para a nossa sociedade atual que tanto se alimenta da imagem pública, como vemos nas redes sociais tal seria uma catástrofe. Tantos adolescentes se suicidam todas as semanas por humilhações públicas.

O sagrado e o profano

Nova Iorque, abril 2022

«Tudo pode ser tirado ao homem exceto uma coisa: a última das suas liberdades – escolher a sua atitude em cada circunstância».
Viktor E. Frankl [sobrevivente de Auschwitz], Man’s Search for Meaning

«A vida não examinada, não vale a pena ser vivida».
Sócrates

«A linha entre o bem e o mal não separa países, nem partidos políticos nem mesmo classes sociais; esta linha passa por cada coração humano».
Aleksandr I. Solzhenitsyn

O Arquipélago Gulag

 

por Pedro Ramos

Queridas Filhas,

 

Os três autores citados acima foram perseguidos, presos e julgados pelo que pensaram. Um deles (Sócrates) morreu os outros dois miraculosamente sobreviveram apesar de milhões mortos junto deles tanto em campos de concentração Nazis como nos Gulags da Sibéria. Não mataram ninguém. Não roubaram nada. O crime deles? Não abdicarem da sua própria consciência.

Jesus avisou-nos disso quando disse: «Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me» [Lucas 9:23] Ele próprio foi condenado à morte pelas suas ideias depois de uma entrada triunfal em Jerusalém no Domingo de Ramos. Talvez o caso mais espetacular de passar de herói a zero num curto espaço de tempo.

Para a nossa sociedade atual que tanto se alimenta da imagem pública, como vemos nas redes sociais tal seria uma catástrofe. Tantos adolescentes se suicidam todas as semanas por humilhações públicas.

Esta pressão social não desaparece depois da juventude. Amigos julgam pelo partido que se segue, pela religião que se professa, ou até o simples facto de ser religioso. Aqui nos USA nos últimos anos temos explorado novos limites deste sentimento: ser acusado de ser racista pelo simples facto de ser caucasiano, pressuposto de ser privilegiado por ser homem, ou mesmo o julgamento de quem decide ou não tomar a vacina. Sociedades, escolas e cidades decidem banir opiniões, livros e pessoas. No mundo em desenvolvimento vemos antipatia pelo ocidente dado o passado colonialista. Isto apesar de nenhuma das pessoas vivas ter sido dona de escravos ou colonialista.

Mas todas estas posições alimentam a narrativa de muitos que gostam de dividir o mundo entre os ‘Nós e os ‘Outros’ malignos. Mas a realidade é que o mal está dentro de cada um de nós como bem observou Solzhenitsyn.

Aqui surge uma pergunta bem razoável: porque não jogar o jogo deles? Porque não repetir a opinião prevalente de forma acolhedora? Porque não adotar a cor do momento? Porque não virar para onde sopram os ventos?

Muitos seguem essa filosofia com muito sucesso. Em política, em empresas e organizações grandes e mesmo em grupos de amigos. Na realidade, parece ser até a estratégia mais racional e eficaz. Qual o problema desta filosofia?

Depende da conceção de vida de cada um. Se acreditamos que o objetivo é viver sem problemas e confortavelmente, trata-se de uma opção razoável. Se queremos dinheiro, poder e fama, a estratégia funciona bem. Trocamos as nossas opiniões e as nossas convicções por isso. Muitos nos elogiarão. Seremos felizes, realizados? Só cada um pode responder a isso.

Por outro lado, se acreditamos que estamos aqui por uma razão que nos transcende, essa opção não é tolerável. Se acreditamos que somos únicos e irrepetíveis, então a nossa consciência é sagrada. Algo que ninguém tem controlo, nem pela força, sem a autorização de cada um de nós. Não podemos profanar a nossa consciência. Resistimos a propagandas e procuramos a verdade com honestidade aceitando as consequências disso.

Sim as consequências físicas e sociais disso serão desagradáveis. Temos que aceitar a nossa cruz. Mas protegemos a parte de nós que é sagrada. Apesar de humilhado, despido e privado da sua família, Viktor Frankl descobriu em Auschwitz que o mais sagrado dele era intocável pelos nazis.

Seguindo este caminho podemos ter a esperança de chegar à Páscoa: ressuscitar com Jesus para uma vida eterna. Deixando atras de nós as sementes de inspiração para os que nos seguirão. Vemos isso pelas páginas da história em muitos heróis. E vemos hoje em dia no povo ucraniano que aceitou pegar na sua cruz. Tenhamos a forca deles para escolher a nossa vida, a nossa cruz, confiantes na Páscoa que um dia nos esperará.

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