Sociedade

"Vou partir quando tiver de partir". Eunice Muñoz na primeira pessoa

Velório da atriz falecida aos 93 anos começa hoje à tarde. Amanhã realiza-se a missa de corpo presente e a cerimónia de cremação. Atriz pediu para que as suas cinzas fossem espalhadas no poço na Amareleja onde em pequena brincava com o irmão mais novo. Quanto à entrada no Panteão depende da Assembleia, ressalva Marcelo.


A morte de Eunice Muñoz, no hospital de Santa Cruz, Carnaxide, na passada sexta-feira, suscitou reações emocionadas de todos os quadrantes. “Nós habituámo-nos à ideia de que a Eunice Muñoz era eterna”, evocou o Presidente da República. “Fisicamente não é. Resistiu a uma, duas, três, quatro crises de saúde. Mas é eterna no nosso espírito, não a esquecemos”.

Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que esta terça-feira, 19 de abril, será dia de luto da nacional. A Câmara de Oeiras, por sua vez, decretou três dias de luto municipal.

O velório, na Basílica da Estrela, decorre entre as 17h e as 22h30 de hoje, prolongando-se por terça-feira, a partir das 10h. Pelas 15h terá lugar a missa de corpo presente, seguindo depois o cortejo para o cemitério do Alto de S. João, onde terá lugar a cerimónia de cremação. A atriz deixou instruções para que as suas cinzas fossem espalhadas junto a um poço, na Amareleja, terra que viu nascer a 30 de julho de 1928, onde em pequena costumava brincar com o irmão mais novo.

“Tive oportunidade de estar com Eunice diversas vezes ao longo do meu mandato, de a ver e ouvir, de a aplaudir, de com ela conversar, e de a homenagear, fazendo minhas as palavras de tantos portugueses na admiração e carinho que lhe tivemos e na grata memória que dela guardamos”, disse Marcelo na nota de pesar. O Presidente já informou que estaria presente em todas as cerimónias fúnebres. Quanto à possibilidade de a atriz vir a ser transladada para o Panteão, recusou fazer qualquer comentário. “Eu pessoalmente não acho nada. Era uma maneira de intervir na competência da Assembleia. Tenho de ter muito cuidado nisso”, disse aos jornalistas, durante uma visita ao mercado das Velas, na ilha de S. Jorge, Açores.

Além do chefe de Estado, foram muitas as personalidades que quiseram prestar homenagem a Eunice Muñoz, que em 2021 foi condecorada com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. A atriz brasileira Fernanda Montenegro louvou “o dom de carnificar uma dramaturgia escrita”. “Isto faz do seu corpo, da sua sensibilidade, da sua alma, um instrumento místico, Eunice, transcendente, que visa, sem trégua, alcançar, através da sua profissão, o que de melhor, como plateia, podemos atingir como criaturas humanas, como seres humanos. É o humanismo através da arte de uma grande intérprete, você, querida Eunice”.

Fernando Mendes, Herman José, Diogo Infante, Bruno Nogueira e Nuno Markl foram outros dos que a recordaram. “Que me seja permitido o atrevimento de a recordar pelo seu fantástico sentido de humor, um dos segredos responsáveis pela sua fascinante frescura intelectual. Um exemplo. Uma inspiração. Um encantamento”, escreveu Herman. Tiago Rodrigues, ex-diretor do Teatro Nacional D. Maria II, resumiu: “Eunice é sinónimo de teatro”.

Já o decano Ruy de Carvalho, um ano mais velho do que Eunice, partilhou no Facebook um vídeo onde surge a dançar com a atriz: “Minha irmã, minha amiga, partiste sem me despedir. Tu serás eterna”.

Eunice Muñoz estreou-se no teatro aos cinco anos e aos 13 pisava o palco do D. Maria II. Com uma carreira de mais de oito décadas na representação, em 2017, aos 88 anos, queixava-se em entrevista à TV Guia: “Temos uma reforma tão pequena que somos obrigados a trabalhar”.

Segundo a TVI, a atriz faleceu devido a uma paragem cardiorrespiratória, tendo ainda sido feita uma tentativa para a reanimar. Ao lado, recolhemos alguns dos melhores excertos da entrevista concedida por Eunice Muñoz ao Nascer do SOL quando completou 75 anos de carreira.

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