Sociedade

Raio X ao SNS: há três consultas com mais de mil dias de espera

O Nascer do Sol faz um ponto de situação de alguns indicadores em dia de discussão do novo orçamento.

Raio X ao SNS: há três consultas com mais de mil dias de espera

Consultas e cirurgias

•  O SNS bateu o recorde de atividade em 2019 - e depois veio a pandemia. Após a quebra em 2020, as consultas e cirurgias têm estado a recuperar.  Até março, último mês com dados disponíveis no Portal da Transparência do Ministério da Saúde, foram feitas 192 041 operações no SNS, mais 20 mil do que nos primeiros três meses de 2019 (+11%). A recuperação em 2021 e já este ano ainda não compensa a quebra de mais de 100 mil cirurgias no primeiro ano da pandemia. Já no que toca às consultas hospitalares, somam-se 3,2 milhões no primeiro trimestre, também já acima de 2019.

Listas de espera 

•  Com menos consultas de Medicina Geral e Familiar nos últimos dois anos, diminuíram as referenciações para os hospitais. Um indicador onde isso é notório é na lista de espera para cirurgia, que até à pandemia vinha sempre a subir, mesmo com o SNS a operar mais. No final de março, também segundo o Portal da Transparência, havia 208 033 pessoas inscritas para uma cirurgia no SNS. Há uma recuperação, mas a lista de inscritos para serem operados no SNS continua abaixo do que era normal antes da pandemia. Em janeiro de 2020, chegou a haver 247 mil inscritos, o número mais elevado de sempre. Em março, dos 208 mil utentes à espera de operação, 39 745 estavam a aguardar para lá dos prazos previstos na lei. Em 2019, o Governo chegou a traçar como meta eliminar esperas superiores a um ano, mas não foi alcançada.

Onde se espera mais por consultas

•  A diminuição de referenciações ajudou a baixar os tempos de espera, mas continua a haver consultas onde se espera um ano ou mais. Os dados oficiais, analisados pelo i, mostram que nos primeiros três meses de 2022 as especialidades de oftalmologia, dermato-venerologia, endocrinologia, ginecologia e urologia tinham dos maiores tempos de espera, em particular no interior do país. Há três consultas com uma espera média superior a mil dias. Duas são na Unidade Local de Saúde da Guarda: Dermatologia no Hospital de Seia (1391 dias) e Oftalmologia no Hospital da Guarda (1074, sendo o tempo de espera em Seia de 999 dias). O tempo de espera para Oftalmologia ultrapassa também os mil dias no Hospital de Portimão (1059 dias). Mais alguns exemplos: espera-se 610 dias por uma consulta de dermatologia no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. No Hospital de Chaves espera-se 717 dias por uma consulta de endocrinologia. No Hospital Garcia de Orta, em Almada, espera-se 442 dias por uma consulta de Ortopedia. Espera-se mais de 700 dias por consultas de Pneumologia em Portimão e em Chaves e 788 dias por uma consulta de Urologia no Hospital São Pedro de Vila Real. Desde 2016, é possível optar por  hospitais com menores tempos de espera, mas nem sempre são perto.

Onde se espera mais por cirurgias

•  Nas cirurgias o cenário também é muito diverso. As cirurgias menos prioritárias são, como é normal, as mais lentas. Há casos em que o tempo de espera é superior a um ano, nomeadamente na área do tratamento da obesidade (426 dias no Hospital Egas Moniz e 422 dias em Setúbal), mas na maioria é inferior. Há no entanto que ter presente que já foi preciso esperar pela consulta antes. Quando a espera é excessiva, os utentes recebem um vale em que podem optar pelo privado, mas nem sempre há muitas opções (ou são longe) e há quem prefira ficar no hospital que já conhece e no SNS.

Médicos de família

•  É a meta eterna e continua longe. No final de abril havia quase 1,3 milhões de utentes sem médico de família, o número mais elevado desde 2014. Reformas, saída de jovens médicos e mais inscrições são alguns dos motivos. Em Lisboa há agora 925 mil utentes sem médico, quase 25%. O Norte tem a maior cobertura.

Urgências

•  Voltaram ao pré-covid. Muitas continuam a ser por motivos não urgentes: nestes primeiros dias de maio, com 140 mil idas às urgências, 62 mil utentes foram triados como não urgentes (44%). 6772 pessoas acabaram por se ir embora a meio e 9427 ficaram internadas. A partir de agora só quem for às urgência sem referenciação e não for um caso urgente ou precisar de ficar internado pagará taxas moderadoras.

Recursos humanos

•  O SNS tem 152 257 trabalhadores, segundo o Ministério mais 2,71% do que há um ano. Em dois anos, 2500 enfermeiros e médicos terminaram ou rescindiram contratos.

Contas

•  Em 2021, o SNS já tinha tido o maior orçamento de sempre, mas o défice foi um recorde: 1100 milhões. Ainda a duodécimos, até março o saldo já ia num buraco de 314,7 milhões, mais do dobro do início de 2021. A despesa cresceu 8,4%, sobretudo com fornecimentos e serviços externos e pessoal e sobrepõem-se à descida de encargos com PPPs que acabaram. Os hospitais têm dívidas vencidas há mais de 90 dias no valor de 304 milhões, abaixo dos 311 milhões de há um ano. 

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