Política a Sério

A guerra não vai acabar assim

O dever de Zelensky era ficar no seu posto e apelar à resistência ao invasor – pois, em qualquer país do mundo, o chefe de Estado compromete-se no seu juramento a defender o território. Putin e Zelensky não podem, pois, ser considerados no mesmo plano. Um é o agressor, o outro é o agredido.


De todos os lados surgem apelos à paz na Ucrânia. É o Papa Francisco, naturalmente; é o secretário-geral da ONU; são chefes de governo e líderes políticos de todos os quadrantes; é a Amnistia Internacional; são os movimentos pacifistas.

Há países que se oferecem para mediar as negociações, como a Turquia.

Mas todas essas iniciativas esbarram contra dificuldades insuperáveis.

A maioria culpa Putin pela intransigência; mas há também quem responsabilize Zelensky, dizendo que, do mesmo modo que são precisos dois para dançar o tango, não basta haver um ‘teimoso’ para continuar uma guerra.

Defendem esta ideia os partidos comunistas, alguns comentadores militares e conhecidos políticos, como Nicolás Maduro e Lula da Silva.

Como tenho persistentemente escrito, quem diz isto ignora deliberadamente que foi a Rússia a invadir a Ucrânia e não o contrário.

E que a partir desse momento os ucranianos não tinham outra alternativa senão defender-se.

O dever de Zelensky era ficar no seu posto e apelar à resistência ao invasor – pois, em qualquer país do mundo, o chefe de Estado compromete-se no seu juramento a defender o território.

Putin e Zelensky não podem, pois, ser considerados no mesmo plano.

Um é o agressor, o outro é o agredido.

Recentemente, por declarações de um ideólogo próximo do Kremlin, ficámos também a saber que a Rússia considera que uma parte importante do povo ucraniano é intrinsecamente nazi.

Um conhecido analista russo, Timofei Sergeitsev, escreveu num artigo difundido pela agência oficial de notícias russa (a RIA Novosti) que «uma parte significativa da população ucraniana» apoia activa ou passivamente «o regime nazi», pelo que também merece ser punida.

E daí conclui que «a desnazificação será inevitavelmente a desucranianização» – ou seja, a ‘operação militar especial’ visa matar ou reeducar em campos de trabalhos forçados uma importante parte da população ucraniana que defende a independência do seu país.

Tudo isto é assustador – e mostra que estamos, de facto, perante um genocídio.

Perante a perseguição a um povo, por querer ser independente.

O bombardeamento de alvos civis não é um acaso: faz parte da estratégia de flagelar uma população supostamente hostil à Rússia.

Esta é uma guerra de vida ou de morte – que não acabará tão cedo e por mútuo acordo: só acabará quando um dos lados for derrotado.

Aliás, foi assim que acabaram todas as guerras.

Se pensarmos bem, nenhuma guerra acabou com uma situação militar indefinida.

Quer as guerras civis quer as guerras entre nações, acabaram sempre com um vencido e um vencedor.

A guerra franco-prussiana acabou com a vitória da Prússia e a derrota da França. As duas grandes guerras mundiais acabaram com a vitória dos aliados e a derrota da Alemanha; a Guerra de Secessão nos Estados Unidos acabou com a vitória do Norte contra o Sul; a guerra civil de Espanha acabou com a vitória dos franquistas sobre os republicanos; a nossa guerra civil terminou com a vitória dos liberais sobre os absolutistas.

E esta não será diferente: tal como as outras, a guerra da Ucrânia terá um vencedor e um vencido.

O problema é que a Rússia não pode perder a guerra – mas dificilmente a ganhará.

Os russos têm dado mostras de uma fragilidade militar insuspeitada.

Primeiro, foram incapazes de tomar Kiev; agora, estão a avançar no Donbass com uma impressionante lentidão. E em ambas as frentes têm sofrido enormes baixas, em homens e material.

E, mesmo que ocupem militarmente certas zonas, podem voltar a perdê-las, como tem acontecido.

Não podendo estar em todo o lado, quando as tropas russas reforçam um flanco desguarnecem outro, permitindo aos ucranianos recuperar território.

Até agora tem sido assim.

Mas, não podendo Putin reconhecer a derrota na guerra da Ucrânia – até porque isso não está no seu ADN – só terá uma saída se a não ganhar: eternizá-la.

Como?

Bombardeando as cidades ucranianas à distância, e reivindicando diariamente a destruição de ‘alvos militares’.

Em teoria, os russos podem continuar, como até aqui, a despejar mísseis sobre as cidades ucranianas a partir do seu território e da Bielorússia, prolongando a guerra indefinidamente e tornando a vida insuportável aos ucranianos.

Deste modo, nunca se poderá falar externamente de derrota. E internamente poderão continuar a ser anunciadas sucessivas vitórias.

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