Sociedade

13 imagens da fé de Fátima

Completam-se 105 anos das Aparições que mudaram para sempre a história de três crianças portuguesas e puseram Fátima no mapa da devoção mariana. Neste 13 de Maio de 2022, tão distante do de há um século, fomos ao arquivo do Santuário recuperar imagens de décadas de peregrinação, comoção e fé. 

Todas as fotografias foram concedidas pelo Arquivo do Santuário de Fátima

Domingo, 13 de maio de 1917. O dia que mudaria a história de Fátima e de três crianças do lugar de Aljustrel, num país onde não havia ainda eletricidade e os homens partiam para a Guerra, completa 105 anos.

Os primos Lúcia, Jacinta e Francisco veriam a Senhora do manto branco em mais cinco ocasiões, a 13 de junho, 13 de julho, 19 de agosto – no dia 13 estavam presos pelo administrador do concelho de Vila Nova de Ourém e não puderam ir à Cova da Iria – 13 de setembro e 13 de outubro, data em que se juntaram milhares de peregrinos, com relatos de um sol a dançar aos olhos de todos.

São estas as primeiras imagens guardadas no arquivo do Santuário de Fátima, que disponibilizou à Luz registos do último século, em que muito mudou em Portugal e no mundo mas a comoção e a fé continuaram sempre a encontrar um lugar especial em Fátima e na natureza bucólica dos Valinhos, onde as crianças pastoreavam os seus rebanhos e acreditavam ter visto no ano anterior e por três vezes um Anjo – o que Lúcia, a única das videntes de Fátima que sobreviveu à infância, só revelaria em 1937. 

Filhos de Olímpia de Jesus e Manuel Marto, Francisco e Jacinta nasceram em 1908 e 1910. Lúcia nasceu em 1907 – com 10 anos, era a mais velha. Diariamente, percorriam os caminhos entre a aldeia de Aljustrel e os lugares de Valinhos e Cova da Iria, onde se ergueria a Capelinha das Aparições logo em 1919, no sítio exato onde estava a pequena azinheira, ou carrasqueira, em que as crianças relataram ter visto Nossa Senhora. Essa árvore desapareceu, possivelmente levada aos poucos pelos peregrinos, e a azinheira que hoje pode ser vista o santuário é uma azinheira grande que já ali estava, datada de há mais de 400 anos. 

O primeiro depoimento

O registo de um interrogatório no dia 27 de maio de 1917 feito a Lúcia pelo padre Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, é o primeiro depoimento escrito conhecido da primeira aparição. «A Lúcia disse que andavam todos... e todos viam uma mulher. O Francisco que só a viu quando ela partiu. A Lúcia disse que estavam assentados todos e que a mulher apareceu ficando para o lado da Fátima.

Primeiro viram um relâmpago, levantaram-se e começaram a juntar as ovelhas para se irem embora com medo, depois viram outro relâmpago, depois viram uma mulher em cima duma carrasqueira, vestida de branco, nos pés meias brancas, saia branca dourada, casaco branco, manto branco, que trazia pela cabeça, o manto não era dourado e a saia era toda dourada a atravessar, trazia um cordão de ouro e umas arrecadas muito pequeninas, tinha as mãos erguidas e quando falava alargava os braços e mãos abertas. Essa mulher disse que não tivessem medo, que não lhes fazia mal», lê-se na chamada Documentação Crítica de Fátima, com documentos entre 1917 e 1930.

«Perguntou a Lúcia:

– Que lugar é o de vossemecê?

Ela disse:

– O meu lugar é o céu.

– Para que é que vossemecê cá vem ao mundo?

– Venho cá para te dizer que venhas cá todos os meses até fazer seis meses e no fim de seis meses te direi o que quero.

– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?

– Não te posso dizer ainda enquanto te não disser também o que quero.

Perguntei-lhe se ia para o Céu e ela disse-me:

– Tu vais.

– E minha prima?

– Também vai.

– E meu primo?

– Esse ainda há-de rezar as continhas dele.

E depois disto abalou pelo ar acima.

Os outros dois ouviram as perguntas e as respostas mas não fizeram perguntas.»

Seguiram-se as restantes aparições, com a devoção e o mistério a adensar-se na Cova da Iria, sobretudo em torno do que fora contado às crianças, que Lúcia só revelaria em adulta. 

A primeira notícia impressa sobre os acontecimentos de Fátima é publicada n’O Século, a 23 de julho de 1917, redigida pelo correspondente do jornal na localidade de Meia Via, Torres Novas.

«Há muito tempo que nesta localidade corria com insistência o boato de que num determinado ponto da serra de Aire apareceria no dia 13 do corrente a mãe de Jesus Cristo a duas criancinhas, a quem já por diversas vezes tinha aparecido, e no mesmo local», começava a peça intitulada ‘Uma embaixada celestial... especulação financeira’.

«Este boato, como é de supor, despertou a curiosidade geral na vila de Torres Novas e subúrbios, entre os quais se conta esta localidade, arrastando ao referido ponto milhares de criaturas, umas, as descrentes, para assistirem a qualquer coisa interessante; outras, as religiosas, por credulismo e devoção. O caso é que o acontecimento foi tão empolgante que, em Torres Novas, vila, como todos sabem, abundante em alquilarias, no referido dia não se encontrava sequer um carro para alugar, chegando mesmo a fechar bastantes estabelecimentos.»

Não obstante as dificuldades, o repórter fora ao local dias depois da terceira aparição, não ficando convencido com o depoimento de uma ‘criatura’ que lá tinha estado, embora notando que a voz deixava transparecer emoção. 

«Nisto, ouve-se um ruído semelhante ao ribombar do trovão e logo a seguir as duas crianças, que estavam junto duma carrasqueira circundada por muitas florinhas, creio que paradisíacas, irromperam num choro aflitivo, fazendo gestos epiléticos e caindo depois em êxtase», relatou-lhe a criatura.

«A uma delas, a que tinha o privilégio de ouvir e ver a santa, fizeram várias pessoas muitas perguntas, às quais respondia dizendo que via uma espécie de boneca muito bonita, que lhe falava. Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça e chamava-a para junto de si, numa voz muito fininha e melodiosa. Entre muitas coisas que lhe disse, a principal foi anunciar-lhe a sua reaparição do dia 13 a um mês e no mesmo sítio, aparecendo ainda mais outra, para declarar o motivo por que tinha vindo ao mundo», rematou, com o repórter a tirar as suas conclusões, à atenção das autoridades.

«É minha opinião que se trata duma premeditada especulação financeira, cuja fonte de receita existe nas entranhas da serra, em qualquer manancial de águas minerais que recentemente tenha descoberto algum indivíduo astucioso que, à sombra da religião, quer transformar a serra de Aire numa estância miraculosa como a velha Lourdes». 

As dúvidas cresceram, mas segundo os pastorinhos a Senhora prometeu um milagre que faria com que todos acreditassem para outubro. 

A 15 de outubro de 1917, também n’O Século, sai a peça ‘Como o sol bailou em Fátima’, com um testemunho na primeira pessoa daquele estranho dia 13, em que choveu copiosamente mas o sol ‘dançou’ e muitos passaram a acreditar. «Pelas dez horas, o céu tolda-se totalmente e não tardou que entrasse a chover a bom chover. As cordas de água, batidas por um vento agreste, fustigam os rostos, encharcando o macadame e repassando até aos ossos os caminhantes desprovidos de chapéus e de quaisquer outros resguardos. Mas ninguém se impacienta ou desiste de prosseguir», descreve o repórter Avelino de Almeida neste artigo, com detalhes minuciosos, hoje um registo precioso da época.

«O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do lugarejo de Aljustrel, é dominado numa enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automóveis alguém contou e mais de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancaram a estrada, um deles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociais.»

E continua: «Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantástico. Os prudentes campónios, abarracados sob os chapéus enormes, acompanham, muitos deles, o desbaste dos parcos farnéis com o conduto espiritual dos hinos sacros e dasdezenas do rosário».

Depois, tudo aconteceu: « E os pastorinhos? Lúcia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flores, ao sítio em que se levanta o pórtico. A chuva cai incessantemente mas ninguém desespera. Carros com retardatários chegam à estrada. Grupos de fiéis ajoelham na lama e a Lúcia pede-lhes, ordena que fechem os chapéus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a mínima relutância. Há gente, muita gente, como que em êxtase; gente comovida, em cujos lábios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... »

«A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de súbito, a clarear no alto; a chuva para e pressente-se que o sol vai inundar de luz a paisagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste... A hora antiga é a que regula para esta multidão, que cálculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias às influências místicas computam em trinta ou quarenta mil criaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se – asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espetadores que se encontram mais perto se ouve gritar: – Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!»

Perto das 15 horas, o céu tinha ficado varrido das nuvens e o sol brilhava. Vaticinava o repórter: «Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fiéis e deixou naturalmente impressionados – ao que me asseguraram sujeitos fidedignos os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram à já agora celebrada charneca.»
62% dos portugueses acreditam 

Seguiram-se as décadas de devoção, debate e controvérsia. Em 2017, quando se comemorou o centenário das Aparições e Francisco e Jacinta Marto foram canonizados em Fátima pelo Papa Francisco, uma sondagem da Aximage revelou que mais de metade dos portugueses (62%) acredita que Nossa Senhora apareceu aos pastorinhos. 

Entre o total de inquiridos, 42% acreditam e já fizeram pedidos ou promessas à Virgem de Fátima e 20% acreditam, mas nunca fizeram pedidos Mais:  39% dos inquiridos afirmam que os pedidos ou promessas foram satisfeitos, e apenas 3% dizem não terem sido satisfeitos, noticiou na altura o Correio da Manhã. 

Para a maioria dos inquiridos (46%), o Santuário da Cova da Iria é um local de fé. Mas, para 41%, Fátima é um local de comércio, realidades que foram convivendo sempre lado a lado nos negócios que floresceram à medida que o santuário se foi erguendo como local de peregrinação. 

Em 1942, o 25º aniversário das peregrinações, celebrado pelo cardeal Cerejeira, foi assinalado em Fátima por uma multidão de peregrinos a perder de vista. Os cinquenta anos foram marcados pela primeira visita de um Papa a Fátima, Paulo VI, que presidiu às celebrações de 13 de maio de 1967. «Na noite de 12 para 13 de Maio de 1967, Fátima foi uma floresta de fogo. Quantas velas se acenderam? Impossível dizê-lo; mas, não será exagero afirmar que Fátima foi iluminada por mais de um milhão de luzes.

Em todo o caso, o que é certo, absolutamente certo, é que o número de peregrinos reunido na Fátima ultrapassara já, à meia-noite do dia 12, um milhão - na sua maioria, na sua esmagadora maioria, peregrinos humildes, chegados a pé ou nas camionetas que vieram de todo o Pais, desde Trás-os-Montes ao Algarve. Nunca a Cova da Iria conheceu uma noite semelhante - as condições climatéricas não lograram, nem um só momento, provocar a mínima hesitação entre os peregrinos apesar da idade de alguns deles», lê-se no jornal Voz da Fátima.

A 13 de maio de 1982, João Paulo II visita pela primeira vez o santuário, visita em que o Papa veio agradecer a Nossa Senhora a proteção no ataque cometido por Ali Agca em Roma no dia 13 de maio de 1981 e que acabou por ficar marcada por uma tentativa de ataque na noite de 12 de Maio no Santuário. 

João Paulo II regressaria no 13 de Maio de 1991, depois de ter consagrado pela primeira vez o mundo ao Imaculado Coração de Maria, cumprindo o desejo de Nossa Senhora manifestado a Lúcia na visão de Tui de 1929, parte do segredo de Fátima. A 13 de Maio do ano 2000, João Paulo II visita pela terceira e última vez Fátima, beatificando os pastorinhos e revelando a terceira parte do segredo. 

A 13 de maio de 2010, a visita do Papa Bento XVI volta a inundar o santuário. «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» foi a mensagem que o terceiro Papa a visitar Fátima deixou escrita no Livro de Honra do Santuário.

Há cinco anos, a alegria e o silêncio invadiram Fátima com a primeira visita de Francisco, que se apresentou como mais um peregrino no centenário das Aparições. Um dos momentos icónicos foi a oração de oito minutos em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima, acompanhada num silêncio arrepiante por um milhão de fiéis. Francisco quer regressar a Fátima em 2023, durante as Jornadas Mundiais da Juventude que se serão, pela primeira vez, realizadas em Portugal.