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Lisboa em contramão

Pela humildade democrática como soube aceitar a derrota e passar a pasta a Moedas, Medina terá sido mesmo o único a tirar as devidas ilações.

Lisboa em contramão

Lisboa foi a principal surpresa das últimas eleições autárquicas, mas mais de meio ano passado sobre as eleições que apearam Fernando Medina da presidência da Câmara, o PS e os seus parceiros da extrema-esquerda ainda não se habituaram ao facto de terem passado à condição de oposição.

E o PSD e a coligação de direita vencedora, liderada por Carlos Moedas, também parecem não ter percebido o que verdadeiramente aconteceu na cidade e o mandato que receberam do eleitorado.

Carlos Moedas tem o seu indiscutível mérito, mas no passado dia 28 de setembro de 2021 o que o povo fez foi penalizar Fernando Medina pelas desastrosas decisões de inundar a cidade com ciclovias e radares, voltando-a totalmente para os turistas e quem a visita e limitando-a a quem nela vive e/ou trabalha e por atuar com uma arrogância insuportável, tal como os seus pares no executivo e nos das juntas de freguesia – com Margarida Martins a passar todos os limites da decência, o que foi fatal.

Mas, pela humildade democrática como soube aceitar a derrota e passar a pasta a Moedas, Medina terá sido mesmo o único a tirar as devidas ilações.

No mais, o PS e a oposição de extrema esquerda continuam a julgar-se donos e senhores da cidade e Moedas e a coligação de direita servos de uma política derrotada nas urnas, de cujos ativistas se julgam reféns ou prisioneiros.

Como se uns e outros não tivessem tido já  mais do que tempo para se refazerem da surpresa, impreparados que estavam para a derrota, os primeiros, ou para a vitória, os segundos.

A história da ciclovia na Av. Almirante Reis, que continua um caos de evitar a qualquer hora do dia, foi paradigmática da ditadura das minorias que se instalou em Lisboa.

Só que o cúmulo da expressão desta ridícula forma de governação, que amesquinha e goza com os cidadãos que se dão ao trabalho de ir às urnas, estava ainda por se revelar em todo o seu esplendor, o que veio a acontecer com a coligação negativa no executivo camarário, com o Livre a dar o pontapé de saída e a restante esquerda a impor a redução em 10 km/h da velocidade máxima de circulação na capital – transformando muitas zonas residenciais e não residenciais em esdrúxulos 20 km/h para os veículos automóveis.

O que devia ser obrigatório, sim, era que bicicletas e trotinetas circulassem a um máximo de 10 km/h não só nessas zonas mas em todas as ciclovias que confinam ou invadem os passeios de Lisboa e onde os acidentes e sobressaltos para os peões e até para os demais utilizadores destes meios de transporte tão em voga se sucedem com frequência inusitada.

Isso, sim, era bem feito.

De resto, a proposta do Livre, que a vingar faria disparar os índices de poluição de uma Lisboa já de si muito pouco aconselhável para andar de bicicleta ou de trotineta – ao menos arranjem-lhes artérias dedicadas de Cascais a Vila Franca de Xira, junto ao mar e ao Tejo, que aí, sim, teriam todo o sentido –, é uma aberração que só veio dar conforto a Moedas e à coligação por si liderada.

É que, deste modo, já pode mandar avançar a ativação dos radares de caça à multa instalados por toda a cidade. Desde as verdadeiras autoestradas urbanas onde só pode circular-se a 50 km/h (e são vários os exemplos da incongruência da limitação onde não há nem uma porta nem uma passagem de peões) até à 2.ª Circular, onde chega a ser proibido circular em plena faixa de rodagem (troços de 50 km/h) a mais velocidade do que em faixas de desaceleração (60 km/h) – é só passar e ver os sinais, parece uma montanha russa, pronta a faturar e deixar um mar de condutores (lisboetas e não só) sem carta.

Na campanha eleitoral, Moedas comprometeu-se a ser diferente. Afinal, e tal como acabou por fazer na Av. Almirante Reis, borrifou-se para quem votou nele, baralhou e deu de novo. Deixando tudo praticamente na mesma.

Mas, agora, passou a ter o argumento de que com a esquerda ainda seria pior, porque ele vai lutar com tudo o que estiver ao seu alcance para que a proposta do Livre aprovada em reunião do executivo camarário – de baixar em mais 10 km/h a circulação máxima nas ruas de Lisboa – não vá avante.

A questão que se coloca – e que vai contra a vontade de muitos autarcas país fora – é que a lei eleitoral autárquica já devia ter sido mudada há muito, para impor nos municípios as regras que servem para o país: os munícipes deviam eleger uma lista única e escolher o seu presidente de Câmara, que deveria formar um Governo de técnicos e gente capaz de governar a cidade, sob escrutínio político da assembleia municipal.

Enquanto não for assim, e se derem asas às geringonças e acordos de secretaria (com distribuição de pelouros e pequenos/grandes poderes), os eleitores que se dão ao trabalho de ir às urnas vão continuar a ser gozados e desprezados por aqueles que elegem.

E isso não é democrático.

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