Opiniao

A perseguição aos católicos na RPC

O regime comunista chinês, com a sua ideologia materialista, perseguiu desde sempre os cristãos na China, acusando-os de serem cúmplices e agentes do imperialismo, enviando centenas de milhares para campos de trabalho forçado. Por outro lado, o regime comunista criou em 1957 uma organização – a Associação Patriótica Católica Chinesa – com o objectivo de controlar os católicos chineses.


por T.J

Aproveitando discretamente as atenções ocidentais focadas sobre a guerra russo-ucraniana, a China de Pequim vem progressivamente consolidando o seu controle sobre qualquer dissidência interna. O caso mais flagrante tem sido o não cumprimento dos Acordos sobre Hong-Kong: a epidemia Covid-19 já dera sobejos pretextos para acelerar a repressão dos movimentos democráticos na antiga possessão britânica, mas a guerra, ao fazer convergir a opinião internacional na Europa Oriental e ao concentrar as críticas sobre Moscovo, tem servido bem as autoridades chinesas nos seus esforços para asfixiar resistências.

A prisão, por horas, em Maio, do cardeal Zen, um prelado católico de 90 anos, vem nessa linha. O cardeal foi preso com mais três cidadãos de Hong-Kong – a cantora Denise Ho, a advogada Margaret Ng e o académico Hui Po-Keng – sob a acusação de pertencerem aos curadores do 612 Humanitarian Relief Fund, uma fundação encerrada pelas autoridades comunistas no ano passado. A fundação tinha por objectivo apoiar o movimento democrático, ajudando os seus integrantes a pagar multas e outras coimas que lhes fossem impostas na sua actividade resistente.

O cardeal é apenas um símbolo da hostilidade e perseguição das autoridades chinesas em relação às igrejas, particularmente à Igreja Católica. O cardeal mostrou-se crítico, publicamente das negociações e acordos da Santa Sé com o Governo Chinês, considerando que o cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, agiu de boa fé, mas erradamente, pois que os acordos são uma “decisão pouco sábia”. Numa missa celebrada em Hong-Kong perante 300 fiéis, depois da sua libertação, o cardeal lembrou que em muitas regiões da China os fiéis católicos não podem assistir à Missa.

Os recentes confinamentos Covid-19 em Pequim e em Xangai serviram de pretexto às autoridades para proibir a circulação nas ruas – inclusive para assistir aos serviços religiosos – e, também, todos os menores de 18 anos de participarem no culto público cristão.

O regime comunista chinês, com a sua ideologia materialista, perseguiu desde sempre os cristãos na China, acusando-os de serem cúmplices e agentes do imperialismo, enviando centenas de milhares para campos de trabalho forçado. Por outro lado, o regime comunista criou em 1957 uma organização – a Associação Patriótica Católica Chinesa – com o objectivo de controlar os católicos chineses. É uma organização que não é reconhecida pela Santa Sé nem tem quaisquer relações com Roma. Em 1958, o Papa Pio XII denunciou a perseguição e não reconheceu as ordenações dos bispos feitas por esta igreja chinesa autocéfala.

Depois da morte de Mao Tsé Tung, houve algum abrandamento no tratamento aos cristãos inclusive dos católicos, mas persistiu a distinção para os fiéis ao Papa, que formaram uma espécie de igreja das catacumbas. Em 2018 celebrou-se um acordo entre a Santa Sé e Pequim, o tal criticado pelo cardeal Zen.

Não há dados exactos sobre o número de cristãos e de católicos na China; uns 50 milhões de cristãos, dos quais 10 milhões de católicos é um número possível, mas sem especial rigor.

Em Taiwan, 4% da população de 24 milhões, é cristã, metade católica, metade protestante, isto é, cerca de um milhão de cristãos, e ali desfrutam de total liberdade. Teoricamente, o mesmo devia acontecer em toda a RPC, pois segundo a Lei Básica da Região Administrativa Especial da China, aprovada pelo Congresso Nacional do povo em Pequim, em 1990, e em vigor desde 1 de Julho de 1997, quando a Grã-Bretanha cedeu o controlo de Hong-Kong à RPC, os direitos e liberdades religiosas na “região especial” deviam ser respeitados.

Só que, desde as leis de segurança para Hong-Kong, aprovadas em 2020, que criminalizaram as actividades pró-democracia equiparando-as a “crimes de subversão” e “cumplicidade com organizações estrangeiras”, permitindo que os indiciados por tais “crimes” fossem extraditados para a China Continental e aí julgados e condenados, que a mudança foi radical. Até porque a pena por estes crimes pode ir de três anos à prisão perpétua.

Embora não seja de admitir que o Cardeal Zen venha a estar sujeito a estes riscos – ele tornou-se, pelas suas críticas não só às descriminações e perseguição à Igreja, como ao acordo de 2018 entre Pequim e o Vaticano, num alvo permanente dos ataques dos media oficiais – a sua detenção em Maio, numa esquadra de polícia, ainda que por breves horas, foi um sinal da escalada na intimidação.

Veremos onde para, tanto mais que por estes dias tem subido a tensão no estreito da Formosa, entre norte-americanos e chineses.

 

 

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