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Colo-Colo. A filosofia da revolta que pôs fim às vitórias do Magalhães

O clube chileno de maior sucesso leva o nome de um chefe mapuche do tempo da colonização espanhola. E foi fundado com os dissidentes do Magallanes.

Colo-Colo. A filosofia da revolta que pôs fim às vitórias do Magalhães

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Há nomes absolutamente extraordinários. Querem um? Club Social y Deportivo Colo-Colo. O nome mais bem sucedido do futebol chileno, fundado em 1925 em Macul, um bairro de Santiago do Chile. Querem outro nome extraordinário? Macul. Em quechua quer dizer “esticar o braço direito”. E outro? David Alfonso Arellano Moraga, um extremo direito, fundador do Colo-Colo, que morreu durante uma viagem do seu clube a Espanha, em Maio de 1927, apenas com 26 anos, no hospital de Valhadolid, assoberbado por uma peritonite. Mas querem que vos diga um nome ainda mais extraordinário do que todos estes: Colocolo, o chefe dos mapuches que lutou contra as invasões espanholas e ao qual David Arellano foi buscar a metáfora para dar vida ao seu clube.

“No se tardó en venir, pues, Elicura/Que al tiempo y plazo puesto había llegado/De gran cuerpo, robusto en la hechura/Por uno de los fuertes reputado:/Dice que ser sujeto es gran locura/Quien seis mil hombres tiene a su mandado:/Luego llegó el anciano Colocolo/Otros tantos y más rige éste solo”: é assim que surge, na grande literatura espanhola, Colo-Colo. Em La Araucana, um poema épico de Alonso de Ercilla y Zuñiga que relata a luta entre os espanhóis e os mapuches durante o período de colonização da América do Sul.

Colo-Colo tornou-se, por via dos que escreveram a sua história, num símbolo de heroísmo, de coragem e de resistência. E, por isso, na obra de Ercilla, se conta que atingiu um poder maior do que todos os líderes mapuches do seu tempo, essas outras personagens de mais nomes extraordinários que foram Paicaví, Lemo, Lincoyán, Elicura e Orompello. Do seu destino sabe-se, vagamente, que terá perecido durante a Grande Fome que se seguiu à epidemia de tifo que abalou a região entre 1554 e 1555.

Na língua mapudungún, ou seja, a língua falada pelo povo mapuche, Colo Colo (às vezes também grafado Colocolo ou Colo-Colo) significa uma espécie de gato das montanhas, um felino muito típico dos Andes. Gerónimo de Bibar descreve-o como um homem de enorme força física e um líder que se fazia respeitar por todos os seus súbditos. Parece que era um orador notável com uma capacidade rara de motivar as suas gente para os combates mais sanguinários e perdidos à partida. Percebeu cedo que as divisões internas entre os mapuches, com cada grupo a obedecer somente ao seu cacique, os tornava demasiado frágeis para aguentar os ataques dos soldados de ferro, como eles chamavam aos invasores que surgiam cobertos por armaduras.

A força de um nome! Alonso de Góngora y Marmolejo (o homem que criou o estilo gongórico e que também era soldado) na sua Historia de Todas las Cosas Acaecidas en el Reino de Chile y de los que lo han Gobernado, desde su Descubrimiento Hasta el Año 1575, anuncia que Colo Colo morreu na Batalha de Quipeo, em 1560, mas dá-o como ressurgindo para guiar o seu povo na Insurreição de 1563. Nesse momento, a história do mito ultrapassou definitivamente a do homem.

Desde 1925, a sua figura de cabelo curto e testa envolvida por uma faixa, passou a ser exibida no peito dos jogadores do Colo-Colo, quase todos eles vindos de uma secessão do Club Social y Deportivo Magallanes. Um pormenor que tem o seu significado político e social relevante se pensarmos que Fernão de Magalhães (Magallanes) é uma das figuras mais ligadas ao colonialismo espanhol na região. Arellano quis erguer um clube assente no orgulho da resistência contra o ocupante. Seria outro antigo jogador, Luis Contreras a desenhar o emblema do Colo-Colo, que conta com 32 títulos de campeão do Chile e foi, até agora, o único clube do país a conquistar a Libertadores, no ano de 1991.

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