Política a Sério

O próximo Presidente

Repudiava com veemência ter ambições políticas: estava ali como estaria numa operação militar. Mas o seu discurso mudou. Agora diz que uma candidatura à Presidência a seu tempo se verá – o que quer dizer que vai mesmo candidatar-se. Não sei se Gouveia e Melo é da esquerda, do centro ou da direita, nem é isso que importa para a maioria: é militar e basta. Só Marcelo Rebelo de Sousa o poderia derrotar. Mas Marcelo não se pode recandidatar.

O próximo Presidente

Um comentador dizia um dia destes que o almirante Gouveia e Melo está bem colocado para vencer as próximas eleições presidenciais, «mesmo sendo militar».

Ora, eu diria exatamente o contrário: «por ser militar».

A imagem dos políticos está muitíssimo desgastada.

As promessas que fazem e não cumprem; o abuso das palavras em detrimento das obras; os ataques gratuitos em que se desacreditam mutuamente; os exaltados debates parlamentares que não se traduzem em nada, levaram as pessoas a acreditar cada vez menos na classe política.

Veja-se a afirmação de um ex-ministro da Agricultura feita há mais de 4 anos, dizendo que o Governo tinha feito «a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis».

Está-se a ver...

Os políticos falam muito, mostram-se muito, discutem muito – mas o que resulta de tudo isso? O que se ganha com toda essa agitação? Quase nada ou mesmo nada.

O país não sai da cepa torta.

Perante esta realidade, as pessoas votam no menos mau, naquele que conhecem melhor, mas não votam com entusiasmo, com crença, com convicção.

Ou então votam por clubismo, como se o partido fosse um clube de futebol.

É um voto irracional, que não se fundamenta em nada de objetivo.

Votam no PS, no PSD, no BE, no PCP, sem saberem bem porquê. Votam por hábito.

Nas últimas eleições, os votos mais convictos terão sido no Chega e na Iniciativa Liberal.

Porque são partidos novos, que ainda não sofreram o desgaste dos outros, e as pessoas têm esperança de que possam trazer alguma coisa de diferente.

É um pouco um tiro no escuro, a ver se acertam; e também um sinal de descrença nos partidos que existem.

Quem votou na IL ou no Chega é porque deixou de acreditar no PSD ou no CDS.

Mas também estes partidos acabarão por desacreditar-se – porque o problema está no sistema.

Não há democracia sem partidos – isso é uma evidência.

Mas é também verdade que os partidos condensam o que há de pior na democracia.

O clientelismo, o facciosismo, o carreirismo, a divisão do país em quintas, o favorecimento, as nomeações com base em critérios partidários e não de competência – tudo isso está associado aos partidos políticos.

«No jobs for the boys», advertiu António Guterres depois de ganhar as eleições em 1996.

Ele lá sabia por que o dizia…

Mas nunca terá havido tantos jobs for boys como nessa altura.

O PS nisso é o mais ‘forte’, pois é o partido que tem estado mais tempo no poder – e, portanto, o que pode oferecer mais empregos.

Tendo em conta o que fica escrito, não é difícil perceber que as pessoas estejam um pouco fartas dos políticos e dos partidos – e confiem mais nos militares.

Isso foi visível no tempo da pandemia.

Ao contrário dos partidos, que dividem e enfraquecem a Nação, as Forças Armadas são uma emanação da Nação, e portanto fortalecem-na.

Um oficial do Exército, da Marinha ou da Força Aérea não é um homem de fação – é o representante de uma instituição ‘nacional’.

Não está em princípio interessado em favorecer este ou aquele grupo – está focado no interesse do país.

Não tem de distribuir benesses, nem de dar empregos, nem de arregimentar clientelas.

Diga-se que este fenómeno não é novo nem é de agora.

Foi exatamente o que se passou no 28 de Maio de 1926, após dezasseis anos de República.

Os portugueses estavam cansados dos políticos, fartos dos partidos, exaustos das lutas estéreis, da instabilidade, das revoltas – e a intervenção militar tornou-se inevitável.

O fenómeno hoje não é tão grave, pois não há revoltas, a instabilidade não é tão grande, a luta política não é tão violenta.

Mas a questão de fundo é a mesma: os políticos não suscitam confiança e as pessoas voltam-se para os militares.

Confiam mais neles.

Por tudo isto, se nas próximas eleições presidenciais o almirante Gouveia e Melo se candidatar, ganhará com facilidade.

E estou certo de que se candidatará.

Quando liderou a task force da vacinação contra a covid 19, dizia que estava a cumprir uma missão – e que, mal a concluísse, regressaria aos quarteis.

Repudiava com veemência ter ambições políticas: estava ali como estaria numa operação militar.

Mas o seu discurso mudou.

Agora diz que uma candidatura à Presidência a seu tempo se verá – o que quer dizer que vai mesmo candidatar-se.

Não sei se Gouveia e Melo é da esquerda, do centro ou da direita, nem é isso que importa para a maioria: é militar e basta.

Só Marcelo Rebelo de Sousa o poderia derrotar.

Mas Marcelo não se pode recandidatar.

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