Opinião

O que acontecerá se Lula ganhar?

Em momentos de crise, parte dos eleitores busca uma proposta salvacionista. E é justamente isso que o Lula irá oferecer. No curto prazo, talvez traga resultados sensíveis; no médio prazo, endividamento, quebradeira e mais desemprego. É um filme já visto, aqui e nos vizinhos. Estamos falando do velho populismo económico, mas com sua incrível capacidade de reapresentar-se como uma nova esperança.

O que acontecerá se Lula ganhar?

por Cleber Benvegnú
Jornalista, advogado e empresário – sócio-fundador da agência de reputação Critério. Analista de rádio e jornal, também foi Secretário-Chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul e Secretário da Comunicação do Estado do Rio Grande do Sul

Lula já lançou suas diretrizes para o futuro do Brasil. É um documento público, estruturado, disponível a todos. Mas, como a política deve ser interpretada também pelo que não foi dito ou escrito, é importante perquirir sobre seus verdadeiros planos nas entrelinhas desse material. Discursos de palanque e manifestações dos próceres do PT também devem ser analisados. E, claro, adicionar esses dados ao acúmulo histórico sobre crenças e receitas da esquerda brasileira e latino-americana.

Os amores políticos do continente revelam bem mais do que um texto formal, calculado para gerar certa aparência de equilíbrio.

Comecemos por aí, bem simples: Lula e o PT cantam loas à Venezuela de Nicolás Maduro e à Cuba dos irmãos Castro. São referências claras, permanentes e ovacionadas pelo próprio candidato e pelos teóricos petistas nos congressos temáticos. Dos mais ortodoxos aos mais oxigenados, sempre há uma desculpabilização para regimes de exceção que portam ideias socialistas.

O que isso revela é translúcido: uma crença – antiga e inabalável – no deus-Estado como condutor dos destinos sociais. E, como estratégia para chegar aí, vem a formatação de lideranças com contornos heroicos e míticos, derivando para a idolatria pessoal e o populismo. Lula, na versão ‘pai dos pobres’, é a representação mais bem acabada disso – o que representa um poderoso ativo eleitoral. Justamente como fizeram com Kirchner, Chávez, Morales, Corrêa, Lugo, Fidel e outros tantos. É a mesma fórmula de persuasão.

Em momentos de crise, parte dos eleitores busca uma proposta salvacionista. E é justamente isso que o Lula irá oferecer. No curto prazo, talvez traga resultados sensíveis; no médio prazo, endividamento, quebradeira e mais desemprego. É um filme já visto, aqui e nos vizinhos. Estamos falando do velho populismo económico, mas com sua incrível capacidade de reapresentar-se como uma nova esperança.

Esse fenómeno social e político chega ao ponto de naturalizar e desculpar um dos maiores esquemas de corrupção da história do planeta, cuja façanha foi capaz de quebrar até mesmo a Petrobras. E, indo além, na narrativa produzida, os fatos ganham certo enlevo emocional, porque, afinal, foi feito em nome de uma causa, de uma utopia – em defesa dos pobres.

De fundo, portanto, é o velho ideário marxista de luta de classes, já renovado pelo gramscismo cultural. A cosmovisão de que o homem é uma realidade apenas material explica a ideia de que basta alcançar-lhe o sustento básico, ficando em segundo plano todos os direitos individuais, especialmente a liberdade. É a ‘caderneta’ cubana, ora pois – tudo se explica e se comunica. São formados um discurso e uma prática tendentes a tornar o cidadão dependente do Estado, sem porta de saída.

Na cultura, dirigismo estatal com dinheiro público. Na educação, ideologia de género e formação de ‘massa crítica’ militante – os ‘intelectuais orgânicos’. Na comunicação, um ranço represado pela regulamentação da media e das redes sociais. Essa, muito provavelmente, será a primeira grande frente de ataques. No plano internacional, retorno das parcerias de ordem ideológica. No meio ambiente, revigoramento do papel de organizações ativistas nacionais e globais. Na gestão, dirigismo dos preços públicos e cancelamento das privatizações.

Também teremos o fim da reforma trabalhista e do teto de gastos – isso está explícito. Provavelmente, o retorno do imposto sindical. Na área rural, revigor ao MST. Na segurança pública, desarmamento da população civil, maior controle da atividade policial e incentivo a leis mais brandas contra o crime – tudo sob o manto de uma alegada justiça social. Aumento de salário para as carreiras públicas. Gradativo e permanente esforço para liberação do aborto, seja pela lei, seja por meio de ato administrativo.

Há quem possa ver apenas juízo de valor nessa leitura – e tem, sem dúvida. Todavia, para resumir, aponto o caráter fático, recolhido em depoimentos como de Leonardo Boff, um dos teóricos mais influentes do petismo, amigo próximo de Lula, em recente conferência feita para seguidores. Contou ele que o ex-Presidente lhe teria dito: «Vou fazer um discurso político, para que todo mundo possa manter a unidade nacional. Mas a prática vai ser radical a favor de todos aqueles que são violados dioturnamente». O ex-católico disse ainda que Lula está ciente de que, se chegar à presidência, terá a última chance da vida para fazer «uma grande revolução». Mais claro, impossível.

 

 

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