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Deixem-no trabalhar

Há tempos, irritado com o descabelamento da oposição, Moedas reagiu e, alto e a bom som, disse que «passados meses sobre as eleições a esquerda ainda não se habituou à ideia de que perdeu as eleições». Ora, se isso é um facto, cabe-lhe a ele, enquanto presidente da Câmara, mostrar quem manda e deixar de cair em cada casca de banana que lhe vão colocando no caminho. E, como se tem visto, são muitas.

Deixem-no trabalhar

Carlos Moedas ganhou a Câmara de Lisboa porque estava no sítio certo e à hora certa no dia em que o eleitorado lisboeta resolveu castigar Fernando Medina e a coligação de esquerda que governava a cidade há 15 anos.

E se a vitória de Moedas colheu toda a gente de surpresa, incluindo com certeza o próprio, os primeiros meses de mandato serviram para que todos se adaptassem à nova realidade política da capital, de difícil governabilidade quando a maioria do Executivo e da Assembleia Municipal é formada pela ala contrária a quem detém o poder e, consequentemente, a oposição é quem dita as regras e a agenda.

Tirando Fernando Medina, nobre e democrata tanto no reconhecimento da derrota como na entrega e cedência do poder, a oposição até hoje ainda não engoliu o sapo que lhes continua bem atravessado na garganta.

Mas, do outro lado, a coligação vencedora e particularmente o seu líder também ainda não conseguiram ajustar o fato à medida de quem ganhou as eleições.

Instalado nos Paços do Concelho, Moedas tem revelado estar sempre mais preocupado em não hostilizar o eleitorado à sua esquerda do que em satisfazer quem votou em si – reflexo ainda de quem continua com o preconceito de ter ganho as eleições apenas por demérito do adversário.

Moedas recuou na promessa de acabar com as ciclovias absurdas (como a da Almirante Reis), aproveitou uma proposta estapafúrdia para manter o saque dos radares espalhados como cogumelos pelas ruas e avenidas da capital, permitiu que os brasões florais tivessem sido retirados da Praça do Império que continua entaipada em plena época mais alta do turismo de Lisboa, aceitou projetos obtusos de tentativas de reescrever a História que se ensina nas escolas do município, aderiu a modas e bandeiras de causas datadas que já é suposto fazerem parte de uma sociedade moderna e que não merecem tratamento discriminado (se não pela negativa, também não pela positiva), deixou-se enredar em manobras de diversão ou mesmo de boicote, como a falha técnica que não permitiu o pagamento atempado dos vencimentos dos funcionário da CML ou a inacreditável homenagem a Vasco Gonçalves.

E é por isso que, ainda nem passado um ano, o estado de graça de Carlos Moedas acabou.

E é chegada a hora de mostrar de que fibra é feito. Para se afirmar como líder com futuro, na capital e no país. Ou hipotecar de vez as ilusões que legitimamente tem.

Há tempos, irritado com o descabelamento da oposição, Moedas reagiu e, alto e a bom som, disse que «passados meses sobre as eleições a esquerda ainda não se habituou à ideia de que perdeu as eleições».

Ora, se isso é um facto, cabe-lhe a ele, enquanto presidente da Câmara, mostrar quem manda e deixar de cair em cada casca de banana que lhe vão colocando no caminho. E, como se tem visto, são muitas.

Por mais razões que possa ter, e tem, o presidente da Câmara de Lisboa não ganha nada em andar a chorar que nem um pintainho por não ter condições para governar a cidade.

Calimero (célebre e pobre pintainho a quem tudo acontecia na BD animada no tempo da TV ainda exclusivamente pública) podia suscitar pena e até simpatia, mas ninguém lhe confiava os seus próprios destinos.

Continuando na linguagem dos bonecos animados do século passado, também não lhe adianta armar-se em super-herói, porque em política dá normalmente mau resultado, como é fatal andar de olhos fechados, qual Mr. Magoo.

Numa altura em que volta a falar-se na necessidade de reforma das leis eleitorais – e há condições no Parlamento para as revisitar – o que está a passar-se em Lisboa deve servir de lição.

Nas autarquias, como no país, os eleitores devem ser chamados a escolher a pessoa a quem querem entregar o governo da cidade. E este, depois de eleito, deve ser livre de escolher os elementos da sua equipa de gestão. As negociações ou equilíbrios que tiverem de existir, em função do voto do eleitorado, devem ter lugar na Assembleia Municipal e não no próprio Executivo.

Os executivos multicolores, como se vê no caso de Lisboa, só servem para boicotar, minar e armadilhar a governabilidade da cidade.

Carlos Moedas tem de saber fugir às minas e armadilhas e passar à ação. De acordo com o mandato que recebeu dos seus eleitores e não de quem não votou nele.

Conquistou o direito a ter essa oportunidade, por mais que a esquerda não o queira.

Mas, se quer ter futuro político, tem de saber aproveitá-la. E_não andar com a esquerda ao colo nem a pedir-lhe desculpa por ter ganho as eleições.

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