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Dínamo de Kiev. Sob o signo do D

Será em Lodz, na Polónia, que o Benfica defrontará os párias ucranianos que foram a melhor equipa de todas as Rússias.

Dínamo de Kiev. Sob o signo do D

Depois de um adversário sem história, um adversário histórico. E assim corre a vida do Benfica neste esforço de estar presente na fase de grupos da Liga dos Campeões, algo que só por absoluto desleixo – não faço aqui distinção entre jogadores e treinadores – só não conseguiu obter directamente no final dos últimos campeonatos. Sabem, para já, os encarnados que não jogarão na capital da Ucrânia, país hoje em dia devastado pela guerra estúpida, uma guerra eternamente latente com os russos que, de um dia para o outro, a trouxeram a terreiro. Irão a Lodz, essa cidade industrial do centro da Polónia, 120km a sudoeste de Varsóvia, para disputarem a primeira mão deste play-off, no dia 17 de Agosto, e serão recebidos no estádio de Wladyslawa Króla.

Por várias vezes, Benfica e Dínamo de Kiev estiveram frente a frente nas competições europeias, com uma única derrota portuguesa até agora, aquela que marcou a dramática noite de Rui Águas, de perna partida, dobrada a meio da canela, imagem que perdurará para sempre, angustiante, na foto do extraordinário fotógrafo que foi o meu querido Nuno Ferrari. A partir daí, apenas um empate, precisamente na fase de grupos da Liga dos Campeões da época passada, e nem sequer mais um golo consentido. Se serve para afirmar um favoritismo? Eu diria que sim. Afinal, convenhamos, apesar do nome, o Dínamo de Kiev não tem sequer um campeonato para jogar e limita-se a manter-se em forma à custa de jogos particulares. Só por isso, o Benfica tem obrigação de acentuar alguma diferença.

Quanto ao nome, ele surgiu em 1927, no tempo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ano da fundação daquele que não se tornou apenas o mais forte de todos os clubes ucranianos mas também, durante certa altura, o mais forte dos clubes de todas as Rússias. A II_Grande Guerra seria absolutamente dramática para o Dínamo, arrasado pelos nazis. Um grupo de resistentes juntou-se sob o nome de Star, e teimou em continuar a jogar contra conjuntos de outras comunidades, como as de checos e húngaros. O episódio macabro de vários antigos jogadores do Dínamos detidos em campos de concentração que, no ano de 1942, foram constrangidos a defrontar uma equipa de soldados da Wehrmacht e, tendo o descaramento sem paliativos de a vencerem, condenando-se assim à tortura e à morte, ficou nos anais da história do futebol e da guerra.

 

Reerguendo-se

A partir de 1954, o Dínamo começou a marcar uma era no futebol soviético ao vencer pela primeira vez a Taça da URSS. Nos anos-60, entrou como uma tempestade e transformou-se no clube de futebol mais poderoso do país, conquistando quatro títulos de campeão da URSS, três deles consecutivos. Daí até à dissolução da política dos sovietes, continuaria a ganhar, conquistando mais de metade dos títulos em disputa.

Foram figuras emblemáticas como Oleg Blokhine, Igor Belanov ou o treinador Valery Lobanovsky que deram ao Dínamo a dimensão internacional da qual ainda hoje goza, embora sem proveitos. Ainda foram, no entanto, a tempo de ganhar duas Taças das Taças (1975 e 1986), uma Supertaça Europeia (1975) e de atingirem por duas vezes as meias finais da Taça/Liga dos Campeões (1987 e 1999).

Depois de reconquistada a independência da Ucrânia, o Dínamo sofreu as custas de um fenómeno previsível: falta de competitividade interna. De tal ordem que tratou de vencer os primeiros nove campeonatos consecutivos da Ucrânia ao mesmo tempo que as suas participações internacionais iam baixando de qualidade. Nos últimos anos tem sido o Shaktar Donetsk a assumir a preponderância do futebol ucraniano. Ainda assim, na época passada, o Dínamo de Kiev superiorizou-se aos seus rivais, atirando-os para os play-offs e caminhando directo para a fase de grupos na qual defrontou precisamente o Benfica. 0-0 e 0-2, se bem se lembram.

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