Cultura

As Siamesas - Parte II

A certa altura vimos uma mãe com duas filhas, duas meninas da nossa idade, da nossa altura, morenas como nós. Elas usavam uns vestidos cor-de-rosa muito bonitos e a mãe usava um vestido branco que combinava com um chapéu azul claro...


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Na manhã seguinte fomos passear num jardim perto do circo. O sol brilhava e tudo parecia carregado de cor; borboletas esvoaçavam e pássaros cantavam nas árvores. A certa altura vimos uma mãe com duas filhas, duas meninas da nossa idade, da nossa altura, morenas como nós. Elas usavam uns vestidos cor-de-rosa muito bonitos e a mãe usava um vestido branco que combinava com um chapéu azul claro.

A mãe levava-as pela mão e elas iam a comer gelados. As três passaram por nós sem nos verem, tão entretidas iam a conversar e a rir. Eu e a Mara ficámos a olhá-las, como se fossem elas as aberrações de circo. Para onde iriam? Teriam em casa um pai que as beijaria em vez de bater na mãe? Aquela felicidade duraria para sempre? Quando elas desapareceram da nossa vista já não ouvíamos os pássaros. Sentíamos um nó na garganta e uma dor no peito; quase ao mesmo tempo, começámos a chorar.

Quando nos dominamos, decidimos ir ter com Madame Rita.

Mal batemos à sua porta, ela mandou-nos entrar. Madame Rita estava vestida com uma espécie de pijama, o seu cabelo parecia a juba de um leão e andava descalça. Cheirava a tabaco e a álcool. Quando nos viu ficou mais admirada do que se um morto a viesse visitar.

- Precisamos da sua ajuda – disse eu.

Madame Rita sorriu.

- Eu não tenho o poder de vos separar, meninas.

- Não é isso – disse eu. Queremos saber onde anda a nossa mãe.

Madame Rita deixou de rir. O seu rosto tornou-se sério e dezenas de rugas e marcas escondidas apareceram, como se tivesse sido na sua cara que Peng treinara o lançamento de facas.

- Então meninas… vocês sabem muito bem que…

- Tente, por favor, tente – disse eu.

Então Madame Rita aproximou-se de nós e abraçou-nos. Um abraço forte e meigo contra o seu peito como nunca tínhamos sentido. Um abraço longo, tão bom que desejamos que não terminasse. Mas, por fim, soltou-se delicadamente e ficou a olhar para nós em silêncio. Pela primeira vez vi um rosto que estava alegre e triste ao mesmo tempo, pois se nos lábios havia um sorriso, corria uma lágrima pelo canto do olho.

- Está bem, vou tentar – disse ela.

Então Madame Rita, mesmo naquela figura, colocou as mãos nas fontes e fechou os olhos. Passado um pouco falou.

- Sim, estou a ver a vossa mãe…

- Onde é que ela está? – gritei.

- Está… numa cidade do sul, muito longe daqui…, mas ela está bem, não se preocupem…

- E virá algum dia buscar-nos? Pergunte-lhe, por favor.

Madame Rita mordeu os lábios e depois respirou fundo.

- Sim, sim… um dia ela virá buscar-vos, mas de momento não pode. Ela pede-vos para terem paciência, serem boas raparigas e tudo se irá resolver. E agora perdi o contacto…, não vejo mais nada…

Saímos dali contentes. Agora tínhamos a certeza de que a nossa mãe, um dia, viria buscar-nos e então passearíamos pelas ruas comendo gelados e depois, quando regressássemos a casa, o nosso pai talvez não lhe batesse.

Além de viajarmos, muita coisa mudou na nossa vida; de todas, a mais importante foi terem começado a falar connosco. Não estranhamos por isso que Hector, o único que nunca nos dirigia a palavra, um dia aparecesse sorridente e nos convidasse para ir à sua caravana comer chocolates. Era um fim de tarde de Verão e uma enorme lua alaranjada despontava no horizonte azul. Mosquitos zumbiam por todo o lado. Eu e Mara estávamos a olhar a jaula dos leões quando ele apareceu. Antes de o vermos ou ouvirmos, sentimos o cheiro a álcool.

Na caravana do Hector estava tudo desarrumado: a cama por fazer, pratos sujos na mesa e roupa espalhada pelo chão.

Numa parede havia uma fotografia de uma mulher nua a dar chicotadas num homem. Ele abriu uma gaveta e tirou de lá uma caixa com bombons. Depois pôs-se a olhar para nós com o seu olho azul e a abanar a caixa. Naquele momento, o seu rosto de pudim esmagado que tanto horror nos causava quase nos pareceu normal. 

- Querem o chocolate, querem?

Nós abanamos com a cabeça e demos um passo para pegar na caixa, mas Hector escondeu-a atrás das costas.

- Calma meninas, tudo tem um preço. Eu dou-vos o chocolate se vocês me fizerem umas coisas – e baixou as calças.

Ponham-se de joelhos e abram a boca…

Apesar de estarmos habituadas a obedecer, não nos movemos. O Hector ficou furioso e agarrou num braço da Mara.

- De joelhos, já disse.

Então começamos as duas a gritar e a bater-lhe com os nossos quatro braços e as nossas quatro pernas. Mas como ele era mais forte, deitou-nos ao chão e atirou-se para cima de nós. Hector estava prestes a conseguir os seus intentos quando a porta se abre num estrondo. Era Sílvio e vinha com uma moca na mão. Então, como se ele fosse um domador e Hector uma fera, deu-lhe várias pancadas até ele largar a presa. Cheio de sangue e a gemer, Hector arrastou-se para um canto. Se a caixa de Nina estivesse ali, meter-se-ia nela como um animal assustado que se esconde numa toca.

- Se voltas a tocar nas miúdas, mato-te – disse Sílvio.

Ao olhar para Sílvio, tão belo e tão forte, tive a certeza de que ele era mesmo um anjo, o nosso anjo da guarda que nos iria proteger enquanto a nossa mãe não voltasse.

Uma noite em que não houve espectáculo andávamos a passear antes de irmos dormir quando descobrimos, junto à caravana de Tico, que ele estava a falar, como se estivesse zangado, com Sheila, Nina e Peng. Ele dizia coisas estranhas de que nunca tínhamos ouvido falar: desigualdades sociais, exploração do homem pelo homem, racismo, e falava de um sábio alemão qualquer.

Quando nos viu, fez-nos sinal para nos aproximarmos.
- Venham cá gémeas, porque isto também vos diz respeito. Nós somos os anormais que a sociedade explora. O anão, a mulher barbuda, as siamesas, mas também a negra e o amarelo, somos todos vítimas do capitalismo. Como não temos lugar na sociedade, como não somos considerados seres humanos, somos forçados a trabalhar num circo como animais.

Na verdade, somos tratados ainda pior do que os animais porque ninguém se ri de um leão ou de um elefante. Mas, atenção, isto está prestes a acabar. O sistema capitalista está condenado e em seu lugar virá o comunismo. E então seremos todos iguais e não haverá mais circos nem nenhum ser humano será considerado uma aberração. Se lutarmos pela liberdade, nada será impossível…

Sheila e Nina escutavam-no atentamente como se tivessem ouvido a revelação mais importante das suas vidas e pareciam mesmo convencidas de que estas iriam mudar. Mas Peng abanava a cabeça, descrente, como se estivesse a ouvir um conto de fadas onde no fim o príncipe mata o dragão e casa com a princesa. A mim, isto fazia-me lembrar o sermão do padre na missa, com essa vinda do comunismo a substituir o paraíso. E tive então vontade de perguntar a Tico se era por causa desse sistema capitalista que nos explorava que as mães abandonavam os filhos. Mas, vendo-o tão sério, com os seus olhos azuis perdidos no horizonte, não tive coragem de perguntar nada.

Uma noite, depois de actuarmos, fomos chamadas à caravana do senhor Knut. Quando entramos, vimos que ele estava com um senhor muito bem vestido. Usava uma cartola, um fato preto, uma camisa branca, um lenço roxo e uns sapatos brilhantes. Tinha os olhos cinzentos, o cabelo castanho e umas suíças da mesma cor. Era alto e magro e deveria ter à volta de trinta anos.

- Meninas – disse o senhor Knut. Apresento-vos o doutor Stein, ele está muito interessado em vós.

Os olhos dele brilhavam como lâminas a olhar para nós.

- Que maravilha, são tão perfeitas. É o primeiro caso que conheço assim. Posso examiná-las?

- Sim, claro. Meninas, dispam-se – ordenou o senhor Knut.

Fosse por ele ser o nosso dono, fosse por o doutor Stein nos inspirar confiança, obedecemos. Então ele aproximou-se e apalpou o nosso corpo, mas de uma maneira diferente da dos outros homens. Tinha umas mãos macias e não sentimos nenhuma vergonha ou que ele nos estivesse a fazer mal. Depois encostou o ouvido ao nosso peito e nas nossas costas, talvez para se certificar de que tínhamos dois corações.

- Extraordinário – dizia de vez em quando.

- O doutor Stein quer levar-vos para vos separar. Entendem? Agora esperem lá fora um pouco que já vos volto a chamar.

A ideia de sermos separadas deixou-nos perplexas. Devíamos ter ficado contentes, mas, na verdade, saímos da caravana aterradas, como se nos tivessem dito que nos iam cortar um braço ou uma perna. Cá fora, pusemo-nos debaixo de uma das janelas para ouvir o que eles diziam. 

- Duzentos dólares? Está bem, aceito – disse o doutor Stein.

- Diga-me doutor, afinal como é que as vai separar? Vai serrá-las ou tem alguma espécie de guilhotina? Isto é como cortar uma carcaça de um boi, não é assim? – perguntou o senhor Knut.

O Dr. Stein pigarreou.

- São experiências científicas muito complexas, um leigo não pode entender. O que lhe posso dizer é que, como elas parecem ter órgãos independentes, as possibilidades de sucesso são razoáveis.

- Quantas já separou? 

- Bom, esta vai ser a minha primeira tentativa, mas os meus colegas já o conseguiram fazer algumas vezes com animais.

O importante, senhor Knut, é que haverá um grande progresso para a ciência.

- O nome do meu circo será mencionado, não é verdade?

- Dou-lhe a minha palavra de honra.

Na manhã seguinte acordamos sem medo pois tínhamos compreendido que só deixaríamos de ser exploradas quando nos separassem. Afinal, sempre fora isso que a nossa mãe desejara. Dali a pouco, os nossos amigos vieram despedir-se de nós. Sílvio e Zita abraçaram-nos e disseram-nos que íamos começar uma nova vida. Sheila deu-nos um beijo e pediu-nos desculpa por às vezes nos ter batido. Nina abraçou-nos e disse-nos que éramos irmãs. Peng saudou-nos com uma vénia e desejou-nos boa sorte. Tico sorriu-nos pela primeira vez e disse-nos para lutarmos pelos nossos direitos. Mas quando chegou a vez de nos despedirmos de Madame Rita, ela agarrou-se a nós de uma maneira que nos sufocou e começou a chorar como se tivesse visto algo que escapava aos outros. 

Horas depois, o doutor Stein levou-nos para a sua clínica e entregou-nos a uma enfermeira. Era uma mulher gorda com olhos tortos que usava o hábito de freira com uma cruz ao peito. 

- Esta é a irmã Benedita e vai tomar contar de vós até à operação.

A irmã Benedita preparou-nos um banho e deu-nos comida sem nos obrigar a fazer nada. Depois levou-nos para um jardim e deixou-nos brincar a tarde toda. Nunca tínhamos ouvido cantos de pássaros tão bonitos, nem visto flores e borboletas tão coloridas. A certa altura, encontramos duas joaninhas a acasalar. Estiveram unidas durante alguns segundos, mas, quando parecia que se iam separar, apareceram dois rapazes a correr e esmagaram-nas. Entretanto, a irmã Benedita adormecera deitada na relva. Sentamo-nos ao seu lado e, ao olharmos para o seu rosto tão bondoso, pensamos que ela devia ser comunista e que a nossa vida ia realmente melhorar.

Nos dias seguintes fomos submetidas a vários exames e apareceram outros médicos para nos observarem – parecia que estávamos de novo no circo. Alguns discutiam na nossa frente com o doutor Stein, como se não estivéssemos presentes, e percebíamos que não concordavam com a separação. Um deles, um médico mais velho, soltou chamas pela boca: falou em cobaias, em impossibilidade científica e disse-lhe que ele seria responsabilizado pelos seus actos. Mas nós sabíamos que nada era impossível e que o doutor Stein nos iria dar a liberdade. Além disso, depois dessas discussões, ele oferecia-nos chocolates e garantia-nos que iria encontrar a nossa mãe. 

No dia da operação a irmã Benedita deu-nos um abraço tão forte contra o seu peito que quase nos separava antes do tempo, disse-nos que Deus nos iria proteger, mas nos seus olhos tortos também havia lágrimas.

Duas outras enfermeiras raparam-nos, lavaram-nos e deram-nos algo para beber que nos provocou sonolência. Depois fomos deitadas numa maca com rodas, cobertas por um lençol e levadas para a sala de operações. Era um local com paredes brancas, um tecto com luzes fortes, um armário com remédios, uma botija de gás, a mesa das operações e uma mesa com instrumentos cirúrgicos parecidos com as armas de Peng. Havia um cheiro que nos causou frio.

Com a cara tapada com máscaras, estavam lá o doutor Stein e dois assistentes; mais atrás, numa espécie de degrau, estavam sentadas oito pessoas a observar – agora tínhamos a certeza de que isto era outro circo. As duas enfermeiras, como Sílvio quando lançava Zita para o seu trapézio, fizeram-nos voar para a mesa das operações. O doutor Stein piscou-nos o olho, um dos assistentes colocou-nos um tubo que nos cobria a boca e o nariz e começamos a respirar um gás. 

Sentimo-nos a flutuar e as pálpebras cerraram-se. Uma espécie de nevoeiro envolveu-nos e então, por entre as brumas, vimos aparecer o rosto da nossa mãe. Tão linda. Finalmente ela regressara e, depois de assistir ao nosso último show, iria levar-nos para casa.

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