Opiniao

O espaço social-democrata

O PPD/PSD há muito que deixou de ser social-democrata. Existe o dilema entre ser assumidamente de direita ou reclamar-se do centro esquerda.

O espaço social-democrata

por André Franqueira Rodrigues
Membro da Comissão Nacional do PS

Continua o cisma na direita portuguesa. O PPD/PSD há muito que deixou de ser social-democrata. O dilema existencial entre ser assumidamente de direita ou reclamar-se do centro esquerda, como, aliás, ainda hoje sucede com o seu militante número 1, é apenas uma das muitas contradições em que vive o maior partido da oposição. O pragmatismo político é indispensável aos partidos com vocação de governo. Estes compreendem bem a complexidade em que vivemos e reconhecem que os problemas da modernidade não têm, na maioria das vezes, soluções simples. Mas, o pragmatismo político não é um fim absoluto nem, tampouco, uma estratégia que possa resolver o problema identitário. E nenhum projeto político sobreviverá, a prazo, sem ter resolvido, na génese, a questão identitária. A dinâmica das sociedades híper-mediatizadas, nas quais nem sobre os factos há consenso e onde o escrutínio é lento demais para fazer face ao enxame de desinformação, contribuiu, em diferentes geografias, para implodir vários partidos políticos tradicionais. Em Portugal, o CDS, partido cofundador do regime democrático, foi vítima, entre outras coisas, da falta de clareza ideológica. Entre os que se diziam liberais, os que se afirmavam conservadores e os autoproclamados democratas cristãos, gerou-se um buraco negro que sorveu o espaço comum entre eles. O resultado está à vista. O CDS ficou à deriva, perdeu identidade e deixou de ser um partido competitivo face à emergência de outros fenómenos como a Iniciativa Liberal.

A reconfiguração da direita portuguesa faz-se, também, com o Chega. Um partido que, curiosamente, conta com vários ex-militantes do PSD e do CDS que, não satisfeitos com a sua falta de protagonismo e ausência de espaço político, acabaram por criar um novo. É o partido da indignação generalizada e que pesca em águas onde os partidos tradicionais não encontram eleitorado predisposto a ser cativado por um discurso moderado. Aqui, a questão identitária baseia-se na falácia antissistema. O Chega não tem preocupações – nem projeto – de largo espetro. Alimenta-se do (i)mediatismo e da permanente convulsão interna e externa. Ventura vive do puro aproveitamento político e não tem qualquer pejo em desdizer de tarde o que disse de manhã. Joga, por isso, um campeonato à parte, assente na lógica do quanto pior, melhor. É eficaz na comunicação, mas é, ele próprio, a quimera do Chega que nele se reflete e se esgota.

A Iniciativa Liberal aparenta ser o projeto político mais robusto na reconfiguração da direita. No entanto, tem pela frente o desafio de se afirmar a nível local, na tessitura autárquica, no qual não basta ser criativo nas campanhas de marketing. O espaço da social-democracia, dos moderados que acreditam no Estado Social, na promoção da igualdade de oportunidades, no papel regulador do Estado na Economia, não se encontra, obviamente, em nenhum destes partidos. Por ser este o seu espaço natural, é também por isso que o PS continua a merecer a confiança da maioria dos portugueses.

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