Posfácio

A política da 'meia bola e força'

Está em todos os quadrantes políticos e em todos os níveis de decisão. Está nas decisões da política de Justiça, por exemplo, quando vemos menosprezar valores essenciais do Estado de Direito Democrático. Há alguns anos, Portugal quase passou a ter um sistema de ‘delação premiada’, recompensando uma qualquer confissão de um dito arrependido, com vista a arranjar uma prova, quando esta não existe.

A política da 'meia bola e força'

por Francisco Gonçalves

O facto de Portugal ser um país com pouca celeridade de decisão, ao ponto de um novo aeroporto levar duas ou três gerações a ser decidido, permitiu (não apenas por isso, mas também por isso) a ascensão de políticas de ‘meia bola e força’.

A política da ‘meia bola e força’ é praticada por aqueles políticos que, perante qualquer questão, querem resposta e decisão imediatas, retirando-se o tempo de ponderação a que as questões complexas obrigam. Naturalmente, por simplicidade ou urgência, há decisões que são imediatas, havendo outras tantas que necessitam de tempo, decorrente da sua complexidade e das suas consequências.

Esta forma de fazer política decorre, também, da simplificação e da preguiça intelectual. Não tem estudo nem reflexão, procura o imediatismo, procurando simplificar o que é complexo, retirando densidade, qualidade e perenidade às decisões.

A ‘meia bola e força’ está em todos os quadrantes políticos e em todos os níveis de decisão. Está nas decisões da política de Justiça, por exemplo, quando vemos menosprezar valores essenciais do Estado de Direito Democrático. Há alguns anos, Portugal quase passou a ter um sistema de ‘delação premiada’, recompensando uma qualquer confissão de um dito arrependido, com vista a arranjar uma prova, quando esta não existe. Observando os resultados noutras geografias, percebe-se o erro em que iríamos cair.

A política ‘meia bola e força’ está nas políticas sociais, quando se dá um cheque do Estado, igual a todos, numa qualquer crise, sem olhar às diferenças entre quem precisa e quem não precisa, ou nas caixas solidárias, colocadas na rua, tratando as pessoas ao nível de um animal errante que procura comida numa ‘caixa da vergonha’.

Está também, agora, nas recentes propostas de produção de trigo na Área Metropolitana de Lisboa, assumindo o princípio da aproximação da produção ao consumidor final. Será que estas propostas desconhecem a história da produção do trigo, em Portugal, durante o Estado Novo? Conhecerão as consequências socioeconómicas do mesmo no Alentejo? Saberão dos efeitos nos solos? Terão estudado a Política Agrícola Comum?

O tempo do político ‘meia bola e força’ é o tempo atual, das redes sociais e das respostas imediatas. Vale tudo para tirar umas fotografias e fazer umas publicações, parecendo ser o que não se é, deixando de ser pessoa para ser ‘persona’.

O extraordinário ex-presidente norte-americano, Abraham Lincoln, dizia que se «pode enganar uma pessoa por muito tempo, algumas por algum tempo, mas não consegue enganar todas por todo o tempo».

A política da ‘meia bola e força’ parece ter soluções, mas tem apenas pensos rápidos: coloca, tapa a ferida, mas não resolve verdadeiramente o problema. A resolução dos problemas das comunidades, locais ou nacionais, exige sempre mais do que a efemeridade que uma publicação nas redes sociais oferece. Querer ser o primeiro apenas para segurar a bandeira de nada serve. Aliás, serve os propósitos de curto prazo dos que praticam esse género de política, mas não serve os interesses do Povo.

Há pouco mais de dois anos, descobrimos que uma pandemia nos estava a mudar a vida. Imediatamente colocámos máscaras e praticámos o distanciamento social, resguardando-nos o máximo possível dos contágios. Todavia, apenas começámos a ultrapassar a pandemia quando nos vacinámos da doença.

Não é fácil vacinarmo-nos da política da ‘meia bola e força’, mas podemos começar por identificar quem a pratica e, como na pandemia, praticar distanciamento social. A vacina chegará mais tarde.

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