Opiniao

Este país não é para estádios de futebol

O futebol assenta em emoções descontroladas, num irracionalismo capaz de transformar o mais pacato ser humano numa máquina de guerra, regressando à normalidade quando se liberta das frustrações pessoais nos recintos desportivos.

Este país não é para estádios de futebol

por Alexandre Faria

Os recentes acontecimentos ocorridos em estádios de futebol escondem razões mais profundas que não podem ser negligenciadas, sobretudo por quem tem a obrigação de atuar. Só assim será possível erradicar, de uma vez por todas, o que não pertence aos valores do desporto e aos princípios que o deveriam nortear.

Todos os episódios de violência são graves, absolutamente reprováveis, devendo ser censurados sem complacência e as medidas a adotar terão de respeitar o contexto histórico, social e cultural, assim como a essência do problema. Há décadas que se permite uma impunidade insustentável a quem pratica atos provocatórios e propositados, alimentando um clima de guerra sem limites. Quem tiver a memória mais afinada, recorda-se dos tristes episódios dos anos 80 e 90 do século passado e que, desde então, têm beneficiado de uma ausência sancionatória eficaz e do silêncio cúmplice de instituições que apenas se pronunciam quando os temas atingem certos níveis na opinião pública. É assim há demasiado tempo e, no limite, até podemos recuar ao filme O Leão da Estrela, de 1947. Nos nossos dias, a intolerância no desporto tem terreno fértil nas irresponsáveis redes sociais, na proliferação de programas televisivos que apelam ao ódio e numa certa comunicação social populista que cresce as suas audiências nas mentiras difundidas sem contraditório e rigor informativo, contribuindo para aumentar o problema social subjacente, a caminho de se tornar cultural.

Este estado das coisas não convém à esmagadora maioria dos clubes e das sociedades anónimas desportivas, sob pena de continuarem a perder patrocinadores e diminuir de forma drástica a assistência nos seus estádios, prejudicando uma indústria global incapaz de resolver a fragilidade de um dos seus principais alicerces.

As campanhas internacionais contra a violência, contra o racismo e xenofobia ou a favor da inclusão, são muito importantes e não podem deixar de acontecer, mas, como se vê pelo mundo, assim que o apito inicia o jogo, tudo é esquecido dentro e fora do campo. O futebol assenta em emoções descontroladas, num irracionalismo capaz de transformar o mais pacato ser humano numa máquina de guerra, regressando à normalidade quando se liberta das frustrações pessoais nos recintos desportivos. E o comportamento isolado ganha proporções ainda mais perigosas quando se encontra inserido num grupo, tornando-se letal e atingindo limites intransponíveis.

Para solucionar de uma forma progressiva a questão, não é necessário inventar, bastando aplicar os exemplos com sucesso na Europa, onde a situação inglesa é a mais paradigmática. A criação de tribunais especiais nos estádios com a aplicação imediata da justiça e cumprimento das sentenças, afastando os prevaricadores em definitivo desde que se implementem formas de identificação nas entradas, assim como a obrigatoriedade do aumento de seguranças entre as bancadas, foram determinantes. Quanto à punição das multidões, os jogos à porta fechada têm resultado.

Neste esforço nacional, para além da sensibilização com efeitos a longo prazo, precisamos de medidas imediatas e de responsáveis que não estejam preocupados com a sua vaidade ou com a possibilidade de perderem as suas cadeiras de poder, que não se precipitem sem conhecerem os factos e que tenham a coragem de decidir. É para isso que lá estão.

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