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Os valores, afinal, ainda têm valor?

Agitar o fantasma do regresso do fascismo de Mussolini ou dos perigos para a democracia e para o Estado de Direito de um Governo liderado por Giorgia Meloni é um enorme disparate.

Os valores, afinal, ainda têm valor?

A vitória de Giorgia Meloni e da coligação de direita em Itália provocou uma reação da esquerda europeia, e para não variar também da nacional, muito interessante.

Descontando, claro, os exageros dos mais radicais.

Incluindo nestes, infelizmente, os do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, para quem valeu sempre tudo para o PS chegar ao poder e conservar o poder: desde montar a ‘geringonça’ para evitar que quem venceu as eleições (em 2015) legitimamente continuasse no Governo, a desfazer a aliança com a extrema-esquerda para o PS poder conquistar a maioria absoluta e elegê-lo segunda figura do Estado – lugar que já não o faz sonhar com voltar a dar aulas antes de se reformar e até o leva ainda a fantasiar com a hipótese de um dia poder chegar a Belém e ao mais alto cargo da Nação. Político desbragado na atividade partidária, Santos Silva moderou-se nas suas intervenções públicas enquanto desempenhou funções de ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas a contenção diplomática desapareceu mal saiu das Necessidades e assumiu a presidência da Assembleia da República, transformando a mesa do Parlamento num palanque comicieiro de um protocandidato a Belém.

Itália é dos países da Europa com maior instabilidade política. Mas, desde que me lembro, sempre funcionou independentemente das crises políticas ou, em última análise, até de quem está no poder central. Por isso, apesar da constante instabilidade política, é uma das economias mais fortes do mundo e integra o grupo dos sete países mais industrializados.

Agitar o fantasma do regresso do fascismo de Mussolini ou dos perigos para a democracia e para o Estado de Direito de um Governo liderado por Giorgia Meloni é um enorme disparate.

Basta atentar que o primeiro-ministro com mais tempo de exercício no cargo nas últimas décadas foi Sílvio Berlusconi para toda a argumentação daqueles radicais ou oportunistas de esquerda, nacionais e europeus, cair por terra.

O mais interessante da reação provocada pela vitória de Meloni e da direita em Itália foi a recuperação da defesa dos valores e das referências da Europa e do Ocidente.

Ora aí está.

A viragem da Europa à direita, consumada agora em Itália, na linha de outros países do Velho Continente, de norte (Suécia) a sul (Grécia), passando pela França e pela Alemanha, fez saltar imediatamente para o debate público – e para a agenda mediática – os receios da esquerda de que possam estar em causa direitos dados por adquiridos ao fim de uma vintena de anos de supremacia da esquerda na Europa.

O direito ao aborto, direitos das minorias, direitos políticos, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a separação de poderes... agora, e num repente, ficam todos em causa? Porque a direita ganhou em Itália e Meloni é primeira-ministra?

Convenhamos...

Em democracia, por um voto se ganha e por um voto se perde. E há que respeitar o veredicto popular.

Os arranjos ou coligações informais ou formais, pré ou pós-eleitorais, os acordos de Governo ou meramente parlamentares, são legítimos e democráticos. Sejam de centrão, de esquerda ou de direita.

Em Portugal, a ‘geringonça’ de 2015 quebrou a tradição de décadas da democracia em que o partido mais votado em eleições gerais era aquele que indicava o primeiro-ministro e formava Governo.

António Costa e seus parceiros, de Santos Silva a Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, logo pugnaram pela legitimidade da esquerda e da extrema-esquerda, com maioria parlamentar, tomarem o poder. Vangloriou-se, aliás, o líder do PS de alargar o arco da governação ao PCP e ao BE.

Em Portugal como na Europa e no mundo Ocidental, desvalorizou-se a moral e a norma, confundiram-se os planos da liberdade e da igualdade, destruiu-se a inviolabilidade da vida enquanto postulado fundamental.

Com ou sem referendo, as escolhas foram sendo impostas por quem no poder.

E por algum motivo os ventos sopram para a direita na Europa.

A esquerda tem razão quando teme pelo risco dos valores (ou da sua ausência) hoje vigentes – não foi a esquerda quem orgulhosamente festejou a quebra de tabus, de regras, de leis e da norma?

E também quando clama que a democracia está em crise. Porque é um facto.

A culpa será de quem? Da direita que emerge e conquista o voto popular ou da esquerda no poder que desilude o eleitorado e assim contribui para que a direita cresça?

Quando acontece o contrário, também é verdade. Essa é, aliás, das poucas virtudes sobrantes destas degradadas democracias.

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