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Bolsonaro. "Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca"

Ao fim de dois dias, Bolsonaro falou pela primeira vez e prometeu cumprir a Constituição. Apelou a manifestações pacíficas, mas Lula da Silva não fez parte do seu discurso. E ainda prometeu continuar a ser o líder de milhões de brasileiros.

Bolsonaro. "Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca"

Abandonado pelos seus parceiros ideológicos internacionais e pelos seus apoiantes internos, como o novo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pelo presidente da Câmara dos deputados, Arthur Lira, e pelo antigo ministro Sergio Moro, que reconheceram a vitória de Lula da Silva na própria noite eleitoral, Jair Bolsonaro foi obrigado a dar sinais de vida ao fim de dois dias, quando o país está mergulhado num bloqueio causado por motoristas afetos à causa bolsonarista. Ao contrário de Donald Trump, que só ao fim de 15 dias aceitou a derrota, por momentos, diga-se, pois minutos depois voltou ao Twitter para dizer que a sua derrota não passava de uma golpada, Bolsonaro dirigiu-se aos brasileiros e ao mundo com uma curta declaração. Não deu os parabéns ao Presidente eleito, mas agradeceu aos 58 milhões de brasileiros que votaram em si – “continuarei a ser líder de milhões de brasileiros que defendem a liberdade económica, religiosa, de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da bandeira”. 

Nunca condenou diretamente o bloqueio dos camionistas, mas disse que os seus apoiantes não podem seguir os métodos da esquerda. “As manifestações pacíficas sempre são bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população. Como invasão de propriedade, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir”. Traduzindo, Bolsonaro defende as manifestações pacíficas, mas mostrou-se contra a impossibilidade de as pessoas circularem livremente, num sinal contra os bloqueios das estradas. E aqui as opiniões dividem-se, já que os apoiantes de Lula entendem que Bolsonaro não condenou abertamente o bloqueio dos camionistas, enquanto os seus defensores dizem o contrário.

Bolsonaro defendeu ainda que houve “injustiças no processo eleitoral”, mas que vai “defender os mandamentos da Constituição”. Notou ainda que sempre defendeu a liberdade de imprensa e que nunca quis controlar as redes sociais, numa indireta a Lula da Silva, que já admitiu ser necessário colocar um travão no que se publica livremente nas redes sociais.

Depois de Bolsonaro ter terminado a sua declaração relâmpago, o seu ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, anunciou que o processo de transição irá começar, estando já marcado o encontro com Gerardo Alckmin, vice de Lula da Silva. “O Presidente Jair Bolsonaro me autorizou, quando for provocado, com base na lei, nós iniciaremos o processo de transição. A presidente do PT, segundo ela, em nome do presidente Lula disse que na quinta-feira será formalizado o nome do vice presidente Geraldo Alckmin [para conduzir a transição pelo lado do futuro governo]. Aguardaremos que isso seja formalizado para cumprir a lei no nosso país.”

Jair Bolsonaro levou dois dias a fazer a sua comunicação ao Brasil, mas já sabia que mais de 90 países tinham reconhecido a vitória de Lula da Silva, dos EUA ao Reino Unido, da Arábia Saudita à Rússia, da Hungria a Itália, foram muitos os que parabenizaram o novo Presidente. E Bolsonaro sabe também que na próxima Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que se realiza entre 6 e 18 de novembro, o país organizador, o Egito, já endereçou um convite a Lula da Silva. Aliás, a agenda do novo Presidente já está repleta para essa conferência.

Mas é preciso não esquecer que Lula da Silva terá de governar com muitos aliados de Bolsonaro, que venceram em vários estados. “Formamos diversas lideranças pelo Brasil. Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso”, disse Bolsonaro na declaração ao país.
 
Forrobodó

As declarações de Bolsonaro surgem quando um pouco por todo o país os camionistas bloqueiam estradas, queimando pneus – nalguns casos –, paralisando as vias, deixando o país em suspense. Os supermercados ficaram com algumas prateleiras vazias e as bombas de gasolina sem combustíveis, além de que alguns voos foram adiados, até porque passageiros e tripulantes não conseguiram chegar a tempo aos aeroportos. Diz-se também que já falta oxigénio em alguns hospitais. A polícia federal foi acusada de conivência com os manifestantes, já que nada fez, num primeiro momento, para acabar com o bloqueio. O Jornal do Brasil fala mesmo em ameaças que sofreram aqueles que quiseram ‘fintar’ o bloqueio: “Segundo os estudantes, os ativistas ameaçaram queimar os estudantes. Também conforme os universitários, agentes da Polícia Rodoviária Federal testemunharam as ameaças e não intervieram. O Estadão não conseguiu entrevistar nenhum porta-voz da PRF sobre essas reclamações de estudantes em relação à suposta omissão de integrantes da corporação quando foram ameaçados pelos manifestantes”, escreve a publicação brasileira. Já segundo o Correio Brasiliense, alguns agentes colocaram-se ao lado dos motoristas, dando conta do que terão dito. “A única coisa que eu tenho a dizer nesse momento é: a única ordem que nós temos é estar aqui com vocês, só isso”, acrescentando: “Outro compromisso que eu faço com vocês aqui, nenhum veículo que está aqui na manifestação será alvo de qualquer notificação, diz agente da polícia federal”.

Com a confusão instalada, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, deu ordens a todas as polícias para porem cobro aos protestos, ameaçando o diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, nomeado pelo filho de Jair Bolsonaro, com uma multa de 100 mil reais, cerca de 20 mil euros, e detenção, caso não cumprisse a ordem. Parece que a ameaça surtiu efeitos, e os polícias começaram a desbloquear várias estradas, embora em alguns estados ainda se mantenham estradas bloqueadas. A própria polícia reconheceu que serão precisas muitas horas para desimpedir todas as estradas, pois se os camionistas não colaborarem serão precisos entre 30 a 60 minutos para remover cada camião. “Basta desligarem o sistema hidráulico e levarem as chaves para tornarem o desbloqueio muito mais complicado. E nem mesmo a polícia brasileira terá assim tantos carros para desbloquear esses camiões. Pode levar muito tempo”, explica ao i fonte da PSP.

Vítima lateral

Como no Brasil a realidade é muito diferente de Portugal – os camionistas são os caminhoneiros, por exemplo –, uma das vítimas da eleição de Lula da Silva poderá ser o presidente do Flamengo, que insistiu muito para que os jogadores fossem recebidos por Bolsonaro, quando chegassem do Equador, onde venceram a Taça dos Libertadores. No Flamengo já se fala no impeachment de Rodolfo Landim, que queria usar o futebol para beneficiar Bolsonaro, de quem esperava receber em troca a liderança da Petrobras.

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