Pátio das Cantigas

À beira do pântano…

Quer no debate parlamentar sobre o Orçamento, quer numa entrevista televisiva, tanto António Costa como Santos Silva semearam várias ‘deixas’ para ‘branquear’ Sócrates.

À beira do pântano…

Está provado que António Costa finge horror à palavra ‘austeridade’, quando a exerce em larga escala. Em contrapartida, Marcelo Rebelo de Sousa recusa-se a ficar mais confinado ao Palácio de Belém – apesar das polémicas em que esteve envolvido com a Igreja de permeio –, e prometeu que irá «continuar na mesma linha» porque «é o meu estilo». Teme-se o pior.

Ou seja, vai banalizar ainda mais a palavra presidencial, ‘comentando’ os fait-divers como se fossem assuntos sérios e vice-versa, num exercício que já o penalizou nas sondagens. Por seu lado, o primeiro ministro resolveu imitar no Parlamento o desdém e o tom provocatório de Sócrates, ao tempo da primeira maioria absoluta do PS.

O pouco subtil apreço (reaparecido…) pelo ‘animal feroz’, contaminou, também, Augusto Santos Silva. O presidente da Assembleia da República, habitualmente tão fogoso e determinado em relação ao Chega e a André Ventura, revelou não ter ainda percebido a Operação Marquês. E, não obstante, ter acompanhado Sócrates de perto, confessou, com candura, ser «uma das pessoas que quer saber o que se passou». Precisa de meter explicador…

Antes, talvez fosse oportuno, Santos Silva esclarecer-se junto do Ministério Público ou do Tribunal da Relação (embora este continue mudo, volvido um ano sobre o recurso interposto pelos procuradores que investigaram Sócrates e outros), ou, simplesmente, consultar o processo, que soma muitas páginas pouco abonatórias para os arguidos.

Mas se quiser poupar-se a essa maçada, Santos Silva poderá, em alternativa, perguntar ao atual primeiro-ministro quando e como se apercebeu de que «Sócrates aldrabou-nos». Afinal, António Costa e o PS sentiram-se enganados.

Ora, a menos que Costa dê outra cambalhota, mudando radicalmente de opinião sobre Sócrates - como aconteceu com a atualização das pensões de reforma ou a privatização da TAP –, Santos Silva poderá, decerto, encontrar nele o interlocutor informado de que necessita…

Por coincidência, Santos Silva e António Costa acertaram no mesmo timing sobre a avaliação da ‘herança’ política de Sócrates, «muito reformista» para o primeiro, enquanto o segundo pareceu feliz por se incluir no elenco de governantes socialistas que exerceram o poder durante duas décadas nos últimos 27 anos. O saldo está longe de ser brilhante, mas enfim...

Infelizmente para os portugueses em dificuldades, a realidade só é ‘cor de rosa’ se filtrada pelo PS. E quando ambos invocam, descaradamente, a ‘austeridade’ de Passos Coelho, omitem que a responsabilidade da situação de falência a que o país chegou, em 2011, se deveu, sem atenuantes, aos governos de Sócrates que partilharam.

Convirá, pois, não iludir a verdadeira questão que é o estado de penúria – ou de remedeio no limbo – que afeta cerca de metade dos portugueses, a julgar pelo estudo da Pordata.

Perante esta situação concreta, de pouco adiantará, salvo por mero populismo, um novo imposto sobre os chamados ‘lucros excessivos’ das grandes superfícies.

Entretanto, com o debate do Orçamento em pano de fundo, o Presidente convocou o Conselho de Estado, a pretexto de analisar a situação económica e social em Portugal. A julgar pelo comunicado final da reunião, os resultados terão sido parcos.

De facto, as incertezas resultantes da invasão russa da Ucrânia estão para durar, e as suas consequências desenham-se complexas e imprevisíveis.

Após os erros e os abusos cometidos durante a pandemia, que não está erradicada, o governo tem procurado usar, no entanto, a guerra como ‘escudo protetor’ para mascarar as suas insuficiências e incompetências,

Faz parte do ADN socialista ‘sacudir a água do capote’, sem admitir qualquer culpa no cartório. E as crises internacionais dão sempre muito jeito. Ontem com Sócrates, hoje com Costa.

Aliás, quer no debate parlamentar sobre o Orçamento, quer numa entrevista televisiva, tanto António Costa como Augusto Santos Silva semearam várias ‘deixas’ para ‘branquear’ Sócrates.

E fizeram-no num contexto de recuo significativo nas sondagens, por muito que Costa queira negar a austeridade instalada.

Ao contrário de Mário Soares que, em maio de 1984, assumiu, corajosamente, que a situação do país exigia «apertar o cinto», Costa teima em excomungar quem o critica, simulando que está tudo bem. Exceto o que corre mal por culpa de terceiros. O pântano de que fugiu Guterres, em 2001, não se extinguiu.

Sem nunca beliscar o Governo, Marcelo desdobra-se em ‘comentários’ como se precisasse de ocupar, em permanência, o espaço mediático, elemento estruturante da sua popularidade que já conheceu melhores dias. O ‘comentador’ impôs-se ao Presidente.

Ao contrário de Zelensky, que desempenhou primeiro na ficção o papel de Presidente, Marcelo, enquanto Presidente, parece, às vezes, preferir a ficção…

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