Falar baixinho

Sítios onde as novas tecnologias não deviam entrar

Fiquei perplexa quando numa festa vi vários meninos de sete anos sentados numa cadeira a jogar Playstation alheados dos amigos que se divertiam juntos

Sítios onde as novas tecnologias não deviam entrar

Os telemóveis já fazem parte de nós e alguns jovens esquecem-se mais facilmente da mochila ou do casaco em casa do que do seu retangulozinho. Não há dúvida de que o telemóvel dá jeito, sobretudo para o seu uso primordial: comunicar.

No entanto, os mais novos usam-no sobretudo para ‘matar’ o tempo. E o objetivo é atingido: as horas passadas a olhar para o ecrã do telemóvel traduzem-se quase num vazio, numa ausência, passam de uma forma tão rápida, inútil e alienada que é quase como se não existissem.

Ainda assim, uma coisa é matar o tempo quando se está sozinho à espera. Claro que podia ser usado de uma forma mais interessante, como a pensar na vida, a escrever ou a ler, mas já nem vou por aí. O maior problema é quando este alienamento impossibilita viver o que está a acontecer, quando impede o contacto com os outros ou com alguma coisa.

Um exemplo gritante são as festas de aniversário. A primeira vez que me apercebi disso foi quando fui deixar o meu filho mais velho – na altura com nove anos – a uma festa onde as meninas estavam cada uma com o seu telemóvel a ver filmes no YouTube. Fiquei horrorizada. Depois disso fui-me apercebendo que se não têm uma atividade preparada alguns meninos conseguem ficar uma festa inteira isolados refugiados no telemóvel. Mas ao nível do absurdo estão os sítios que organizam festas de anos e que incluem nas suas atividades – como escalada, slide, escorregas, futebol, trampolins, etc. – os videojogos. Fiquei perplexa quando numa festa vi vários meninos de sete anos sentados numa cadeira a jogar Playstation alheados dos amigos que se divertiam juntos. Por acaso estavam na festa do amigo, mas para eles estarem ali ou trancados sozinhos num qualquer quarto interior no fim do mundo não fazia grande diferença.

Outro sítio improvável é a praia. Quantas crianças já vi deitadas na toalha a jogar no telemóvel em vez de estarem a brincar na areia ou na água? Quantas coisas estão a perder ali presas àquele pequeno ecrã de imagens e sons predefinidos em vez de irem descobrir e viver por si próprias o que as rodeia? É assustador. Como é também assustador ver os miúdos a passar de skate e bicicleta no meio da estrada a olhar para o telemóvel.

Outros locais propícios ao convívio e à relação para onde os telemóveis não deviam ser convidados são os recreios da escola e os restaurantes. Mas infelizmente são os convidados de honra e já faz parte da nossa realidade entrarmos num restaurante ou num daqueles food courts dos centros comerciais e depararmo-nos com um exército de zombies sentados à mesa com amigos ou familiares cada um a olhar para o seu telemóvel. E pior ainda é quando aquelas crianças minúsculas que mal sabem falar são sentadas nas cadeirinhas da papa ao mesmo tempo que lhes pespegam com um tablet ou telemóvel a um palmo dos olhos para passarem a refeição vidradas a olhar para ali sem gritos, birras, ou, melhor ainda, sem sequer se aperceberem de que estão a comer.

Bom, não sei o que é pior. Mas o que mais me preocupa são os pais que acham que têm filhos super modernos e high-tech porque estão sempre agarrados ao modelo mais recente de telemóvel ou de auscultadores nos ouvidos fechados no quarto a jogar. Logo às primeiras horas da manhã quando ainda estou a acordar é só vê-los a passar no carro a caminho da escola de cabeça baixa e olhos fixos no telemóvel. Se nem os pais veem o perigo disso, quem é que os vai trazer de volta à vida?

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