O mundo em calções

Os doces pássaros do paradoxo

Na curiosa história dos irmãos Robledo, um deles desenhado por John Lennon, Jorge foi estrela e Eduardo foi mistério

Os doces pássaros do paradoxo

Basta ouvi-lo. Não restam grandes dúvidas que que John Lennon se divertiu, e muito, a produzir Walls & Bridges, um disco que saiu em 1974. «A bird of paradise/The sunrise in her eyes/God only knows such a sweet surprise/I was blind she blew my mind think that I», cantou em Surprise, Surprise (Sweet Bird of Paradox). A capa do álbum ficou famosa porque John lembrou-se de a encher de desenhos feitos por ele próprio no início da adolescência. Um desses desenhos retratava um lance da final da Taça de Inglaterra de 1952, na qual o Newcastle bateu o Arsenal por 1-0 em Wembley. Dois jogadores do Newcastle aparecem em destaque junto à baliza do Arsenal: Jack Milburn, o n.º 9, que acabara de fazer um passe decisivo, e George Robledo, n.º 10, que o recebera e fizera o golo. George só foi George quando os país resolveram deixar Santiago do Chile para emigrarem para Inglaterra. Até aí fora Jorge. O irmão mais novo, Eduardo, passou a ser muito mais britanicamente Ted. E também jogou nessa final de Wembley, mais atrás no campo, com a camisola n.º 6.

George, ou Jorge, como preferirem foi um avançado de qualidade e veio a representar a seleção do Chile (embora a sua mãe fosse inglesa) e a participar no Campeonato do Mundo de 1950, tendo apontado um golo aos Estados Unidos. Ted foi fazendo a sua carreira na esteira do irmão que, depois de se ter iniciado no Huddersfield assinou o seu primeiro contrato profissional com o Barnsley, da II Divisão. Assinaram ambos, melhor dizendo, porque não viviam um sem o outro. 

Em 1949, os irmãos Robledo chegavam a Newcastle. George como menino bonito dos adeptos, Eduardo praticamente ignorado, o que não lhe fazia grande mossa já que tinha uma adoração e um orgulho tremendos pelo irmão e aceitava de boa catadura viver à sua sombra. Curiosamente, foi o mais velho que, apesar do sucesso que tinha em Newcastle, se viu na situação de ter de fazer uma escolha complicada a partir do momento em que Ted resolveu aceitar um convite para regressar ao Chile e assinar um contrato bastante generoso com o Colo Colo. Foi o momento em que ambos, pelas palavras de Lennon, se transmutaram em pássaros do paradoxo. E, mais apertado pelos laços do sangue do que propriamente pelos laços do profissionalismo, a história inverteu-se e foi Jorge que seguiu Eduardo de volta a Santiago.

Outra vez no lugar onde tinham vindo ao mundo, trataram de ser felizes enquanto podiam. Nunca John Lennon alguma vez adivinharia que o seu desenho meio rabiscado de adolescente acabaria por traçar um dos mistérios jamais resolvidos da história do futebol. Enquanto Jorge foi gerindo melhor ou pior a degradação das suas qualidades físicas que tinham feito dele uma das figuras mais estimada do Newcastle, jogando pelo O’Higgins antes de se reformar e se instalar num completo anonimato em Viña del Mar ao lado da esposa americana, Gladys, Ted saiu da sombra do irmão. Casou-se com uma bailarina famosa no Chile, Carmen Calé, e em 1956 decidiu que o futebol chileno continuava a ser demasiado pequeno para um Robledo, fosse ele qual fosse. Não tardou a apanhar um navio de regresso à Grande Ilha para lá da Mancha, desta vez para jogar pelo Notts County, o clube mais antigo do mundo. Foram dois anos exigente mas compensadores, e ganhou a consideração dos adeptos e da imprensa como um centro-campista defensivo abnegado e trabalhador, algo que costuma agradar de sobremaneira aos aos britânicos em geral. Dois anos após a chegada a Nottingham anunciou que já não tinha muito mais para dar. Seguir-se-ia a reforma. Pelo menos do futebol já que Eduardo era um verdadeiro pássaro do paradoxo.

Ted fora um bom estudante mas não deixou de ser absolutamente surpreendente que, depois de deixar o futebol, tenha conseguido um trabalho como técnico eletrónico da NASA, a agência espacial norte-americana. O trabalho esteve longe tanto de o entusiasmar como de lhe preencher a vida. A sua verdadeira paixão era o futebol e ao futebol voltou, agora como treinador da equipa do Once Principal de El Salvador. Inquieto por natureza, meteu-se no universo da energia petrolífera e vamos encontrá-lo, depois, em vários dos países do Golfo Pérsico procurando estabelecer-se no negócio. Finalmente, no dia 5 de dezembro de 1970, entrou a bordo do barco de cruzeiro que era propriedade de um alemão chamado Hans Besseinich. Ah! Como foi curta a sua última viagem. No dia seguinte caiu ao mar junto à costa de Omã e o oceano fez questão de não devolver o seu cadáver. Dezenas de teorias sobre a sua morte foram desenvolvidas: desde que pertencia aos serviços secretos britânicos e incomodara gente sem escrúpulos a que se limitara a passar uma madrugada a beber e a jogar cartas e se limitara somente a perder o equilíbrio junto à amurada. Lá longe, em Viña del Mar, Jorge chorou como se fosse ainda criança trazendo o irmão mais novo pela mão.
afonso.melo@newsplex.pt

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