Posfácio

Quem quer ser democrata?

Por que não comemora o PS a vitória da democracia no 25 de Novembro, quando é ao seu fundador e primeiro líder a quem mais devemos o sucesso da data?

Quem quer ser democrata?

por Francisco Gonçalves

Todas as histórias bonitas têm flores. O facto do 25 de Abril de 1974, momento fundador da nossa democracia, ter, na sua mitologia uma flor, dá-lhe poesia e romantismo – tornando belo algo que, por natureza, é duro e violento. Convenhamos: ‘Revolução dos cravos’ soa muito mais a romance do que a movimento militar.

Sempre achei interessante como, particularmente nas últimas décadas, os políticos do PSD e do CDS deixaram de usar o cravo na lapela, nas celebrações daquela data. Interessante e particularmente asnático. Ao fazerem-no, afastam-se do dia desejado pela larga maioria dos portugueses, como se concordassem ou apoiassem a ditadura anterior.

‘As esquerdas’ (seja aquela que é democrática por convicção, seja as que o são por conveniência ou sobrevivência) cedo se apossaram do 25 de Abril, como se o golpe tivesse sido realizado por si. Não foi. O centro e a direita (alguns porque efetivamente não se revêm nos ideais de Abril) têm procurado refugiar-se no 25 de Novembro, escolhendo outra data para ser o ‘seu’ dia da Liberdade.

Quer o centro-esquerda, quer o centro-direita, manifestam aqui toda a sua confusão. O 25 de Abril é o momento fundador da democracia em Portugal. Ponto! Deve ser, como tal, celebrado como o dia que nos abriu as portas da normalidade.

O 25 de Novembro é uma data crucial da normalização do processo democratizador do país. Após o 25 de Abril de 1974, Portugal mergulhou num processo revolucionário, marcado pelo ascendente do PCP, era a única oposição organizada e tinha a dita ‘legitimidade revolucionária’, por se ter oposto à ditadura anterior. Todavia, o objetivo do PCP para Portugal não era um regime demoliberal, era um regime comunista, como os demais regimes comunistas. Para evitar que Portugal resvalasse de uma ditadura de direita para uma ditadura de esquerda foi necessária muita coragem, ousadia e inteligência política.

A liderança fundamental contra o avanço das forças não democráticas pertenceu, politicamente, a Mário Soares e ao Partido Socialista. Foi ele quem teve a coragem física e política de se opor aos grupos não democráticos, durante o ‘verão quente’ de 1975. Recorde-se que Francisco Sá Carneiro esteve fora da liderança do PPD/PSD até 28 de setembro, data da manifestação da maioria silenciosa, a última tentativa de Spínola e dos ‘spinolistas’ de se apossarem do poder.

Estas datas, o ‘25 de Abril’ e o ‘25 de Novembro’, são datas da democracia e dos democratas portugueses, e devem ser comemoradas por estes, com a dignidade que ambas merecem – honrando aqueles que as fizeram. A democracia portuguesa não pode permitir que sejam assumidas como património dos não democratas. Não é aceitável que tal seja permitido ou tolerado.

Como tal, por que não comemora o Partido Socialista a vitória da democracia no 25 de Novembro, quando é ao seu fundador e primeiro líder a quem mais devemos o sucesso da data? Paralelamente, por que razão o cravo vermelho foi abandonado pelo Partido Social Democrata, nas comemorações do 25 de Abril, quando o partido foi fundado por gente que se opunha ao Estado Novo que, desde o primeiro momento, apoiou o movimento?

Estes complexos dos partidos do centro não se percebem nem se explicam com facilidade, até porque dão espaço de afirmação a forças que não têm legitimidade para assumir aquelas datas.

Já passou tempo suficiente para que os democratas assumam, e honrem, as suas datas. É preciso que seja afirmada a superioridade moral da Democracia. Se os democratas têm vergonha de o assumir, quem o fará?

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