Opiniao

O exemplo de Ronaldo para a juventude

É preciso não esquecer o contributo de Ronaldo para a formação moral e ética desportiva dos milhões de jovens que o idolatram.

O exemplo de Ronaldo para a juventude

por João Cerqueira

Cristiano Ronaldo foi criticado pela entrevista que deu em Inglaterra na qual atacou o seu clube, o Manchester United. Consideraram-no ingrato, arrogante, egocêntrico e desestabilizador. Críticas semelhantes acompanharam a sua carreira. Em 2018, Sara Carbonero disse que ele era um jogador individualista e egoísta em campo. Em 2021 foi revelada uma gravação onde Florentino Pérez, além de lhe chamar malcriado, insinua que ele é louco. Ronaldo tem respondido às críticas com o argumento de que as fazem por ser rico, bonito e um grande jogador. Quanto a ser rico e grande jogador, não há a menor dúvida. Quanto a ser bonito, é uma questão estética subjetiva – tal como as vacas cortadas de Damien Hirst serem, ou não, arte.

Seja como for, é preciso não esquecer o contributo de Ronaldo para a formação moral e ética desportiva dos milhões de jovens que o idolatram. Há meses, Ronaldo deu uma palmada na mão de um jovem autista enquanto saía do relvado. O rapaz ficou em estado de choque, a mãe considerou insultuosas as explicações do jogador e foi pedida uma punição exemplar. Porém, o que numa primeira análise parece tratar-se de uma agressão inaceitável, foi, na verdade, um grande contributo para a inclusão social de pessoas com autismo ou outros transtornos mentais. Embora desconhecesse o problema do rapaz, com a sua palmada Ronaldo demonstrou que os autistas devem ser tratados como qualquer outra pessoa sem qualquer tipo de discriminação. Se em 2006 Ronaldo tinha cuspido e feito um manguito aos adeptos do Benfica, agora demonstrou que semelhante tratamento para adeptos que incomodam as vedetas pode também ser aplicado a cidadãos com transtornos mentais. No mundo do futebol, onde meio mundo se insulta e agride, e o outro meio instiga e aplaude, este foi um grande passo contra os estigmas que perduram fora dos estádios. Só falta agora, outra grande vedeta do pontapé na bola deitar abaixo de uma cadeira de rodas um adepto abelhudo para o futebol acabar de vez com a exclusão.

Outro importante contributo de Ronaldo para a formação da juventude é a sua revolta contra o poder patriarcal do treinador. Ronaldo insurge-se contra quase todos os treinadores e, na seleção nacional, já atirou por três vezes a braçadeira de capitão ao chão. Ainda que a sua atitude possa parecer um desrespeito aos colegas e ao país que representa, visa apenas o treinador. O treinador de futebol é um dos últimos resquícios da ditadura do patriarcado que, numa sociedade moderna, urge eliminar. Ainda que não pareça, todos os treinadores são simpatizantes de Mussolini porque recuperaram o seu lema «Acreditar, Obedecer, Lutar». Assim doutrinados, mandam os jogadores para o campo como se fossem para uma guerra e depois a violência eclode. Demais, que direito tem o treinador de dar ordens àqueles adultos milionários, dispô-los no campo como mecos, substituí-los e dar-lhes lições de moral? E por que motivo fica o treinador vestido no balneário, quando os jogadores se despem para o banho? E, já agora, porque não há mulheres a treinar homens? Em suma, como é que alguém a quem chamam «Mister» pode ser uma pessoa normal?

Com o seu exemplo de revolta contra os misteres patriarcais, Ronaldo deve ter inspirado milhões de jovens a revoltarem-se também contra os poderes que os oprimem: os misteres dos professores, os misteres dos contínuos e sobretudo os misteres dos pais. Porque, para estas crianças e adolescentes, se Ronaldo pode contestar autoridade de um treinador ou de um selecionador nacional, explodir em vez de controlar as emoções e, no fim, não mostrar qualquer arrependimento, então eles e elas também podem dar um grande chuto na educação que lhes estão a tentar incutir e marcar golos na ordinarice. Por fim, ante as críticas que lhes fizerem, podem ainda convencer-se de que estas resultam apenas de serem bonitos e bonitas, grandes jogadores de futebol no recreio da escola e, um dia, naturalmente virem a tornar-se ricos.

Como tal, espera-se que no mundial do Qatar Ronaldo não deixe os seus créditos por mãos alheias. No entanto, o alvo das suas fúrias não deveria ser o treinador, nem os adeptos de outros países que o irão vaiar. O Qatar, como todos os países árabes, é um oásis patriarcal e troglodita: não há democracia, nem direitos do homem (e muito menos das mulheres), os trabalhadores são explorados, os emigrantes são escravizados e há tráfico de crianças. Assim, que Cristiano Ronaldo, além de dar alegrias aos portugueses, saiba usar a sua influência mundial para que naquela vergonha de país algo comece a mudar. Um drible à censura e um golo a favor dos direitos humanos.

Ronaldo, que tantas causas humanitárias já patrocinou e gestos de solidariedade teve - um lado nobre que não seria justo omitir nesta crónica - decerto não ficará indiferente aos abusos que se cometem no Qatar.

Aconteça isso – um gesto, uma palavra -, e a minha ideia sobre um dos melhores jogadores de todos os tempos irá mudar radicalmente.

 

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