A OCDE, entidade que tradicionalmente é simpática para Portugal, anunciou há poucos dias, que a carga fiscal sobre os rendimentos dos trabalhadores atingiu um novo máximo de 41,8 % sendo a décima mais elevada dos países da Organização, onde a média é de 34,6%.
O Professor Marcelo, com as referências negativas à constituição e à orgânica do governo, com a assertiva denúncia da inexistência de objetivos claros (o desenvolvimento, a descentralização e o reformismo) e com a preocupação (quase pânico) manifestada com um eventual desperdício dos fundos europeus, fez, em poucas horas, aquilo que a oposição (oposições?) não conseguiu…
Com um Orçamento do Leão, do Medina ou sem progenitor legítimo atribuído, uma certeza fica: os próximos anos serão anos de convívio com a Inflação e a Austeridade.
Ninguém de bom senso, independentemente da sua fidelidade ideológica, consegue perceber como é que a economia portuguesa, apesar de usufruir de recursos financeiros avultados, com origem na União Europeia, esteja há cerca de vinte anos, a crescer muito pouco, deteriorando a sua posição relativa na hierarquia dos países europeus.
Durante estes seis anos, o Governo afirmou que a economia portuguesa cresceu acima da média europeia o que, sendo estatisticamente verdadeiro, de nada valeu pois a média europeia é influenciada pela desaceleração verificada no crescimento das economias mais robustas.
Enfim, um e outro sempre que falam, fixam-se em questões sobretudo laterais evitando afirmar que a invasão da Ucrânia é um crime contra a humanidade, que não pode ser explicado por nenhuns antecedentes, e ainda não condenaram, de forma inequívoca, as afirmações do BE e do PCP a propósito deste criminoso conflito.
A atividade frenética de Macron, o Presidente, neste semestre, do Conselho da UE, ainda não preencheu o vazio político deixado pela chanceler Merkel.
Entendeu o Chefe de Estado que, nas condições que então se verificavam, a rejeição do Orçamento , equivalia á verificação de um não «normal funcionamento das instituições democráticas» o que justificava, em seu entender, a interrupção da legislatura.
A maioria ‘estabelece’ as condições mínimas para a mudança de paradigma, que é indespensável para alinhar o desenvolvimento económico do país com os parceiros europeus.
Pergunta de um milhão de dólares (não apenas aos candidatos, mas também aos moderadores e comentadores): a prioridade para a escolha eleitoral não devia ser a discussão sobre as políticas que podem alterar esta dramática situação? Porque não o foi então?
Em suma, como é habitual quando não há soluções melhores, invocou-se o ‘abstracto interesse nacional’ com a certeza de que pouca gente, incluindo o líder da oposição, colocaria em causa tal sacrossanto princípio.
Sem respostas claras a estas questões, os eleitores correm o risco de voltar a ser enganados, como já o foram em 2015.
No meio de tudo isto passou despercebida, a aprovação do Orçamento da UE para 2022 (quase 170 milhões de euros em compromissos) o que permitirá a Portugal , com o PRR, dispor de cerca de 22 milhões de euros diários durante o ano.
Em democracia a palavra essencial é dos eleitores, pelo que será no voto dos cidadãos que tem de assentar a esperança para uma sociedade melhor.
A ‘geringonça’ apesar de ter durado 2178 dias (desde 10 de novembro de 2015 até 27 de outubro de 2021) foi sempre um acordo de egoísmos e agendas próprias e, infelizmente, em nada contribuiu para a transformação estrutural de que o país precisava
Neste momento a maioria das membros da UE não tem os seus orçamentos fechados, nalguns casos estão a formar ou a remodelar os seus governos e, pior que isso, ainda não possuem, sequer, Planos de Recuperação e Resiliência aprovados por Bruxelas.
Costa é o chefe do governo, lidera um partido que acaba de ter uma “vitoria poucochinho” nas eleições locais e pode aspirar a ganhar as próximas legislativas com um resultado a rondar os 40%, o que torna quase legítimo o excessivo interesse da comunicação social e ‘justifica’ a gestão que o próprio faz da sua…
O país atravessa uma grave crise moral, que só será vencida quando a maioria dos cidadãos tiver dela consciência e for capaz de se mobilizar para a derrotar.
É preciso que se saiba que as verbas que a União Europeia disponibiliza a Portugal, e que no caso do PRR tem de ser aplicadas até 2026, não são do governo de turno ou dos partidos que o suportam.